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Política

Edgard Catoira

Museu da democracia ou de horrores?

por Edgard Catoira — publicado 21/04/2012 10h03, última modificação 06/06/2015 18h23
A prefeitura do Rio, com vistas aos grandes eventos que a cidade sediará, está arruinando a Praça XV. Por mais de 500 milhões de reais
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Foto: Governo do Rio de Janeiro

“Espelho, espelho meu, existe no mundo Poder mais desfigurado do que eu?”

É a pergunta que membros dos legislativos deveriam se fazer, pois estão sempre na contramão do senso comum. Entregam-se de bandeja para a imprensa e para a execração pública quando tomam iniciativas como as de comprar carros oficiais, aumentar seus subsídios, reformar gabinetes e, como aconteceu recentemente no Rio de Janeiro, escolher um prédio luxuoso para servir-lhe de nova sede. Para não falar de escândalos maiores...

O que acontece neste momento é que a prefeitura do Rio de Janeiro, com vistas aos grandes eventos que a cidade sediará, está mexendo a Praça XV, no centro da cidade. Pelo projeto, prédio do anexo da Assembleia Legislativa do Estado do Rio, Alerj, deve ser demolido.

Ora, através de seu presidente, deputado Paulo Melo (PMDB-RJ), a Alerj anunciou a desapropriação do novo prédio da Bolsa de Valores do Rio de Janeiro – que não abriga mais uma bolsa de valores, mas escritórios de luxo, como o do famoso advogado Sérgio Bermudes. O Legislativo estadual atravessaria a Praça XV e o Palácio Tiradentes, sua sede atual, seria transformado no “Museu da Democracia”.

A arquitetura do novo prédio da Bolsa, objeto do desejo de alguns deputados, tem como maior virtude as fachadas espelhadas, nas quais se reflete o belo conjunto histórico à sua volta. Um projeto moderno que se preocupou, sobretudo, em realçar o que está do lado de fora. Justamente o contrário do que faz a Mesa Diretora da Alerj, ao querer ocupar instalações luxuosas a um custo estimado, por baixo, em 500 milhões de reais, e a desconsiderar a opinião dos que estão do lado de fora, o respeitável público.

Vamos ver onde isso vai parar, mas o vexame está posto. Possivelmente, parlamentares a adotar esse tipo de atitude – e infelizmente constituem a maioria – sabem, no fundo, que está tudo errado, mas não conseguem escapar à sua própria natureza, de corromper valores e de não enxergar a miséria que, muitas vezes, ocupa calçadas e praças tão próximas da “Casa do Povo”. Mas sempre há exceções.

O presidente da Associação Comercial e Empresarial da Cidade Nova, Marcelo Ferreira, acha que o problema é de fácil solução. "Basta retrofitar, isto é, modernizar, qualquer um dos inúmeros prédios públicos abandonados na região central e simplesmente transferir os parlamentares. Mas jamais gastar 500 milhões de reais para proporcionar o 'dolce far niente' deles."

Gabinetes à parte, agora, somos todos nós que devemos repetir a mesma pergunta, sobre a desfiguração do Parlamento para, em seguida, respondê-la.

Somos raízes e vítimas dos seus desvios. Os nobres parlamentares estão onde estão, não por obra do Espírito Santo, mas escolhidos por nós. Não adianta dizer que o povo é bonzinho e os políticos são mauzinhos. Gostemos ou não, os parlamentos são a cara da sociedade que os elegeu. Daí o perfil oligofrênico: corrupto e sério, moralista e escrachado, bandido e mocinho. Ora toma o rumo certo, ora se desvia por caminhos sombrios. É essencial medir com muito cuidado a proporção entre as virtudes e os defeitos, entre a dor e o prazer.

Este ano vamos eleger prefeitos e vereadores. Temos a chance de nos deitar no divã, consultar a consciência e corrigir os rumos. Do contrário, continuaremos a nos lamentar e a viver na posição de pobres e eternas vítimas impotentes. Ou manter nosso velho hábito hipócrita de condenar a corrupção alheia enquanto estacionamos o carro na calçada, passamos uma cervejinha para o guarda e fraudamos o que possamos.

E democracia não precisa de museu nenhum. Democracia é exercício constante e o Palácio Tiradentes, sede da Alerj, não se presta para isso. Existem museus da democracia mundo afora? Creio que não. E, considerada sua história recente, a Alerj peemedebista das Eras Cabral e Picciani poderia, quando muito, abrigar o acervo de um museu de horrores.

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