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Muita espuma, pouca água

por Sergio Lirio publicado 10/11/2010 16h59, última modificação 11/11/2010 19h05
Na primeira semana, Dilma tenta desfazer boatos e conter os aliados. Por Sérgio Lirio
Muita espuma, pouca água

Na primeira semana, Dilma tenta desfazer boatos e conter os aliados. Por Sérgio Lirio. Foto: Evaristo Sá/AFP

Tancredo Neves tinha frases de efeito para definir quase tudo no mundo da política. Sobre o momento imediatamente posterior a uma eleição, quando os vitoriosos começam a negociar a composição de um novo governo, dizia: “É a hora do encontro do mar com o rochedo. Resta ver o que é água e o que é espuma”.

Como é normal, muita espuma foi dada como água na cobertura da mídia durante a primeira semana após a vitória de Dilma Rousseff. Antonio Palocci no Ministério da Saúde? Henrique Meirelles no de Minas de Energia? Ou, por outra, Meirelles mantido à frente do Banco Central? Palocci na chefia da Casa Civil? Ou, muito ao contrário, um esvaziamento da Casa Civil por causa do escândalo de Erenice Guerra? Guido Mantega fica ou sai? Lula defende a manutenção de Fernando Haddad na Educação e Nelson Jobim na Defesa?

A experiência pregressa, afirma um integrante privilegiado do núcleo da transição, recomenda cautela. “Há muito lobby, mas normalmente nomes citados tão cedo não passam de cortina de fumaça.” E garante: as conversas estão praticamente na estaca zero e as negociações com os aliados mal começaram. Às tevês Dilma garantiu apenas fazer anúncios em bloco, por áreas de interesse. A da futura equipe econômica deve ser uma das primeiras anunciadas.

Fato é que o PMDB se sentiu incomodado com a exclusão de representantes seus na primeira formação do comando da equipe de transição. Após reclamar, o partido incluiu Michel Temer na turma. O vice-presidente eleito terá o simbólico posto de coordenador-geral e acompanhará de perto as negociações. Mas quem colocará a mão na massa serão mesmo Palocci e José Eduardo Dutra, presidente do PT, auxiliados por José Eduardo Cardozo e Fernando Pimentel.

O quarteto petista terá de lidar não só com o conhecido apetite peemedebista. Legendas como o PSB, o PCdoB e o PDT esperam maior participação no próximo governo. Na quinta-feira 4, o deputado federal Paulo Pereira da Silva reivindicou um segundo ministério para o seu PDT – na atual administração o partido controla a pasta do Trabalho. “O PMDB já tem demais”, reclamou Paulinho. A futura presidente não se comprometeu a manter ministros do atual governo, no que foi referendada por Lula. Temer sugere uma divisão pela importância das bancadas no Congresso.

Outros fatos puderam ser colhidos da primeira entrevista coletiva concedida por Dilma Rousseff. Na quarta-feira 3, ao lado de Lula, e sem as amarras do marketing de campanha, a presidente mostrou-se muito mais desenvolta. Respondeu com clareza e às vezes com ironia os variados temas abordados pelos jornalistas. Ao falar sobre transparência na gestão pública, afirmou que só recomenda a sombra em dias de sol muito forte. Após a insistência do repórter, disparou: “Eu entendi muito bem a pergunta”.

Ao contrário do prometido durante a campanha, quando negou o interesse de debater o assunto, Dilma mostrou-se disposta a discutir com os governadores a recriação da CPMF, derrubada pelo Congresso em 2007. Segundo ela, essa é uma demanda dos estados e não da União. “Do ponto de vista do governo federal, não há uma necessidade premente, mas do ponto de vista dos governadores sei que há esse processo”, afirmou. Um projeto de um novo “imposto do cheque” tramita na Câmara dos Deputados desde 2008.

A futura presidente também procurou- diluir as especulações de que seu governo estaria disposto a elevar o superávit primário ou tomar “medidas amargas” na área econômica. Dias antes, em reunião com a equipe de transição, Dilma pediu o fim de especulações a respeito do tema: “Se a gente decidir fazer, a gente faz em vez de falar que vai fazer”. Teria sido um recado dirigido principalmente a Palocci. O objetivo, afirmou aos jornalistas, é reduzir a dívida líquida do setor público em proporção do PIB dos atuais 41% para 30% até 2014. Se a economia brasileira continuar a crescer, em média, 4,5% ao ano, bastaria manter a atual meta de 3,3% de superávit. Pelos cálculos do Ministério da Fazenda, essa trajetória permitiria ao País diminuir os juros básicos a 2% em termos reais (descontada a inflação). Mas a eleita não garantiu esse patamar. “Todo mundo fala em 2% porque seria mais ou menos essa a taxa consistente. Tem que ver.”

Lula, que falou antes da sucessora, fez piada sobre as especulações de que pretende se candidatar novamente em 2014. “Rei morto, rei posto. Tudo o que desejo na vida é que a Dilma faça as coisas que ela sabe fazer. (…) É muito pequeno, neste momento, discutir 2014. A gente deveria estar discutindo 2011. E deixar para discutir as eleições um pouco mais para a frente, porque senão vai ter uma enxurrada de bolinha de papel batendo nas nossas cabeças até 2014. E nós não queremos isso.” Uma clara referência à farsa da agressão a José Serra na reta final do segundo turno.

O presidente repeliu ainda outra especulação, a de que pretende influenciar a escolha de ministros. “O governo Dilma tem que ser a cara e a semelhança da Dilma. Não indico, nem veto nomes. Se ela pedir, posso aconselhar.” Lula recomendou mais generosidade à oposição: “Contra mim, não tem problema, podem continuar raivosos. Mas, a partir de 1º de janeiro, que eles olhassem um pouco mais para o Brasil, que eles torcessem para que o Brasil desse certo”.

Serra nada comentou. Já o senador eleito Aécio Neves, provável líder da oposição, afirmou durante uma visita a um santuário em Caeté (MG): “Não seremos como o PT foi no governo Fernando Henrique. Exerceremos uma posição responsável”.

Durante a entrevista, tanto o atual quanto a futura presidente demonstraram preocupação com a “guerra cambial” travada entre Estados Unidos e China. “Eu vou para o G-20, agora, para brigar”, afirmou Lula. “Vamos tomar todas as medidas necessárias para impedir que a nossa moeda fique sobrevalorizada.” Dilma voltou ao assunto mais à frente, já sem a presença do antecessor: “Todos os países percebem que há uma guerra cambial. Em uma situação dessas, não tem solução individual.- Nunca houve. A última vez deu que no deu: a Segunda Guerra mundial”. A eleita reafirmou, porém, o compromisso com o regime de câmbio flutuante e as metas de inflação.

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