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MPF deve apurar caso de espionagem em Belo Monte

por Redação Carta Capital — publicado 26/02/2013 13h29, última modificação 06/06/2015 18h42
Segundo o Movimento Xingu Vivo, o consórcio construtor da usina hidrelétrica, com a ajuda da Abin, estaria monitorando ações dos movimentos sociais

Desde seu anúncio, em meados de 2007, a construção da hidrelétrica de Belo Monte gerou debates entre diversos setores da sociedade civil e do próprio governo sobre os impactos ambientais do empreendimento e modelo de desenvolvimento representados pela obra na região Norte. Três anos após a obra ser licitada, as tensões entre os diferentes movimentos - contrários ou a favor da construção - se agravaram. Nesta segunda-feira 25, o Ministério Público Federal recebeu uma representação do Movimento Xingu Vivo Para Sempre com informações sobre um suposto esquema de espionagem, financiado pelo Consórcio Construtor de Belo Monte (CCBM) com o apoio da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), contra os movimentos sociais e sindicais que se opõem à construção da hidrelétrica na bacia do Xingu.

 

O caso veio à tona após um empregado do consórcio ser flagrado espionando e gravando uma reunião de planejamento do grupo, realizada no domingo 24, com uma caneta espiã. Chama a atenção a suposta participação de uma agência do governo federal no esquema.

Após ser pego, o empregado concordou em gravar um depoimento para a ONG Repórter Brasil, no qual diz ganhar cerca de 5 mil reais por mês para repassar informações de dentro das reuniões dos movimentos sociais. Ele se identifica como funcionário do consórcio.

Por meio de sua atuação, diz o empregado, o consórcio conseguia subsídios para pedir a prisão de líderes sindicais ou demitir funcionários descontentes a fim de evitar mobilizações e greves que poderiam impedir o ritmo das obras.

O agente, que apresentou crachá e carteira profissional na qual consta o registro do CCBM, acredita que seu trabalho foi decisivo para a prisão dos cinco acusados de terem comandado a última revolta de trabalhadores nos canteiros de Belo Monte, ocorrida em novembro do ano passado, e na demissão de cerca de 80 trabalhadores. O funcionário espião repassava informações para o consórcio construtor desde o segundo semestre do ano passado e se diz arrependido.

A suspeita foi encaminha para o Ministério Público Federal pelo advogado do Movimento Xingu Vivo, Marco Apolo Santana Leão. O MPF, no entanto, disse a CartaCapital não ter tido tempo para analisar o documento e se pronunciar. O empregado do CCBM havia concordado na noite de domingo 24 em prestar depoimento ao MPF, mas depois voltou atrás, segundo informações da ONG Repórter Brasil.

De acordo com o movimento Xingu Vivo, após recorrer da decisão de depor ao MPF, o funcionário enviou uma ameaça em uma mensagem por celular para um dos integrantes: “vocês me ameaçaram, fizeram eu entrar no carro, invadiram minha casa sem ordem judicial. Isso é que é crime. Vou processar todos do Xingu Vivo. Minha filha menor e minha mulher são minhas testemunhas. Sofri danos morais e violência física. E vocês vão se arrepender do que fizeram comigo”.

Até o momento, a única resposta do consórcio frente à denúncia foi dada por meio da nota divulgada na segunda-feira 25: “O Consórcio Construtor Belo Monte, que até o momento não foi informado sobre o suposto fato, não tem como prática o envio de observadores a eventos promovidos por outros órgãos ou instituições”.

A Abin e o governo federal não se pronunciaram a respeito do tema.

O movimento afirmou, em nota, que “apesar da atitude criminosa” e de “não eximi-lo (o empregado) de sua responsabilidade”, “entende que o maior criminoso neste caso é o Consórcio Construtor Belo Monte, que usou de seu poder coercitivo e financeiro para transformar um de seus funcionários em alcaguete”.  O grupo cobra a responsabilização da empresa e do governo federal devido à participação da Abin e diz que considera “inadmissível que estas práticas ocorram em um estado democrático de direito".

Os movimentos sociais contrários à construção da hidrelétrica reclamam, principalmente, dos impactos socioambientais previstos, do desmatamento e de problemas técnicos no planejamento e execução do projeto. Segundo a ONG Repórter Brasil, os opositores defendem a interrupção da construção da barragem e têm seguidamente apresentado denúncias de problemas graves decorrentes da obra.

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