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Política

São Paulo

Movimento antimetrô em Higienópolis revela segregação socioespacial

por Ricardo Carvalho — publicado 11/05/2011 18h16, última modificação 11/05/2011 19h25
Os argumentos de que a obra atrairia "ocorrências indesejáveis" e a criação de um "camelódromo" são preconceituosas e absurdas, avaliam urbanistas

O Metrô de São Paulo atendeu a reivindicações de um grupo de moradores e comerciantes de Higienópolis e retirou a estação Angélica do projeto da linha 6 (Laranja). Após pressão da Associação Defenda Higienópolis, que reuniu 3,5 mil assinaturas contra o plano, a empresa estatal reativou a ideia de ter uma estação na praça Charles Miller, em frente ao estádio do Pacaembu.

“Parte da linha Laranja é discutível, porque passa por regiões relativamente bem servidas de estações de metrô e linhas de ônibus. Agora, é totalmente descabido o argumento dado pela associação”, analisa o urbanista Nabil Bonduki, colunista do site de CartaCapital. Bonduki refere-se à alegação dos moradores de que uma estação traria o “aumento de ocorrências indesejáveis” e a criação de um “camelódromo” na avenida. “Beira o absurdo como parte das classes média e alta protestam contra ter uma estação próxima a sua casa”, diz o urbanista.

Bonduki afirma que a resistência da associação é um movimento de segregação sócio-espacial no bairro. Além do mais, diz, a decisão não leva em conta a situação de trabalhadores que se deslocam diariamente à avenida. “Existe uma presença muito significativa de escritórios e atividades não residenciais”.

Em relação à afirmação de que uma estação acarretaria na criação de um “camelódromo”, o urbanista do Instituto Pólis, Kazuo Nakano, discorda. “Esse tipo de preconceito não procede. Não é uma estação de metrô que atrai grupos vulneráveis, como moradores de rua, e sim a condição das regiões que eles frequentam. Eles têm uma lógica de utilização de espaços que não estão guardados ou controlados”.

“O Metrô cedeu”
Kazuo Nakano afirma que a empresa estatal de transportes tem cedido a reivindicações de grupos de classes média e alta na revisão de traçados. “São grupos que têm um poder de pressão maior e o Metrô acaba acatando mais à essas demandas do que as de populações com renda mais baixa”.

Em 2005, o governo do estado também desistiu de construir a estação Três Poderes, na região do Morumbi, após moradores terem se manifestado contra. Isso é um reflexo, diz Nakano, de um esforço de criar locais de moradia entre iguais. “A cidade de São Paulo convive há anos com uma organização urbana que privilegia espaços fechados. Isso acarreta na falência da própria ideia de cidade enquanto um espaço de convivência entre pessoas de diferentes rendas”.

Nabil Bonduki também critica o fato de o Metrô ter cedido a pressões da associação de moradores. “Não tenho condição de avaliar o custo benefício da obra. A não ser que o Metrô tenha chegado a conclusão de que a estação não é necessária, aceitar a reivindicação de um abaixo assinado com apenas 3,5 mil assinaturas, em relação ao benefício que a estação representaria, é algo descabido”.

Protesto
Logo após o anúncio da exclusão da estação na avenida Angélica, foi criado um grupo na rede social Facebook convocando uma manifestação em frente ao shopping Pátio Higienópolis. Com o título de “Churrascão da gente diferenciada”, o evento pede para que as pessoas levem “farofa, carne de gato, cachorro e som portátil” para promover um churrasco popular na frente do shopping.

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