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Eleições 2010

Mercadante e os tucanos - Parte III

por Celso Marcondes — publicado 18/05/2010 16h03, última modificação 17/08/2010 16h05
No final da entrevista concedida pelo senador Aloizio Mercadante à CartaCapital, o pré-candidato ao governo de São Paulo critica duramente as gestões do PSDB e fala de suas chances de vitória

No final da entrevista concedida pelo senador Aloizio Mercadante à CartaCapital, o pré-candidato ao governo de São Paulo critica duramente as gestões do PSDB e fala de suas chances de vitória.

CC: Senador, o PSDB costuma dizer que foi o criador do programa Bolsa Família e hoje ninguém contesta o programa. Que avaliação o senhor faz dele hoje?
AM:
O Bolsa Família é o projeto de maior alcance na distribuição de renda. Ele distribui mais renda que o próprio salário mínimo. E saiu uma pesquisa agora: os alunos do Bolsa Família têm uma assiduidade maior que os alunos da escola pública e um desempenho melhor que a média. A mesma coisa acontece no PROUNI. Portanto, os filhos da pobreza, quando têm oportunidade, eles crescem. A nossa obrigação é dar oportunidade. O Lula veio com uma agenda: salário mínimo, PROUNI, crédito consignado. O crédito consignado não existia, ele é o crédito popular. Com o PRONAF. nós quintuplicamos os recursos para a agricultura familiar. Na realidade, o Lula nunca esqueceu sua origem e ele governou para onde ele veio, inclusive na distribuição regional da renda. A renda do Nordeste aumentou. Projetos estruturantes, refinarias, portos, ferrovias, estaleiros sendo construídos e dando um salto de qualidade histórico no desenvolvimento sustentável do nordeste.

CC: Mas o PSDB, em São Paulo não deu prioridade à área social?
AM:
Aqui em São Paulo, ele reduziu a verba, ele aprofundou o modelo neoliberal, que foi a marca desses 16 anos. Eles venderam o Banespa, venderam a Nossa Caixa, venderam quase todo o setor elétrico, venderam a empresa de distribuição de energia, privatizaram todo o setor ferroviário e não criaram nenhuma estrutura que pudesse cumprir o papel do que restou ao estado federal, como nós fizemos com os bancos e mostramos que é possível administrar com competência e eficiência.

Se você lê o discurso do meu adversário no lançamento da candidatura sábado passado, não há uma única menção aos principais problemas estruturais do estado de São Paulo. Nem lembra o fato do congestionamento no trânsito, as pessoas estão perdendo 2h43 no transporte, na capital, de acordo com pesquisa do IBOPE. Essa é a média diária, mas tem gente que perde mais do que isso. O que dá em dias úteis, tirando os finais de semana, 35 dias perdidos no trânsito, as pessoas estão deixando o mês de férias todo parado no trânsito, sem estar com a família e sem receber por isso. Na hora do rush, no período da tarde, no pico, nós estamos andando a 15 quilômetros por hora, a velocidade de uma galinha. Além da cidade não andar, eles não investiram em transporte público. Não fizeram um projeto para o interior, abandonaram a FEPASA, o trem bala Campinas - São Paulo - São José dos Campos, que eu estou defendendo desde a outra campanha, que é um projeto estruturante, mas que agora eu acho que sai, com o apoio do governo federal. Foi um projeto que o governo de São Paulo nunca priorizou. Os trens rápidos, para vir de Ribeirão Preto, Sorocaba, como todas as grandes cidades, todos estados modernos do mundo têm e São Paulo nada. O Brasil é a nona economia do mundo, caminha para ser a sétima nos próximos dois anos. Se você tirar São Paulo, o Brasil cai para a 18ª economia, se fôssemos um país, seríamos o terceiro país da América do Sul. Não tem sentido você não ter investimento em transporte de massa. O metrô, na Estação da Sé, tem 720 mil passageiros/dia é a mais congestionada do planeta. A Linha Vermelha, que tem um milhão de passageiros, tem 10 passageiros por metro quadrado e as pessoas têm que esperar três, quatro, cinco composições para embarcar e, às vezes, não conseguem desembarcar em algumas estações, como é o caso da Sé. Está um colapso o sistema

CC: Porém o governo anuncia a abertura em breve de pelo menos duas novas estações, a Faria Lima e a Paulista, não é isso?
AM:
Eles prometeram entregar 28 estações em três anos e não entregaram. Eles prometeram colocar mais 20 composições nas principais linhas da CPTM, especialmente na Linha Vermelha e na linha que vai lá para Franco da Rocha. Não só não colocaram os investimentos, como não fizeram o Ferroanel, que é o que permitiria retirar o transporte de carga da estrutura ferroviária para disponibilizá-la só para o transporte de passageiros, aumentar a velocidade dos trens, colocar mais composições e o Ferroanel tinha que ser feito em paralelo ao trajeto do Rodoanel, junto com o Rodoanel. Você estaria fazendo a estrutura rodoviária e a estrutura ferroviária. Não fizeram. Mais uma vez não investiram um metro de trilho na estrutura ferroviária de São Paulo. No metrô nós estamos tendo a construção de 1,2 km por ano, na média do PSDB. Nós começamos juntos, lá atrás, com a cidade do México. O México tem 230 km de metrô, nós temos 63 km. Para chegarmos onde o México está, que é um país mais pobre, e o estado do México, mais pobre que o estado de São Paulo, e a cidade do México, que é mais pobre que a cidade de São Paulo, nós precisaríamos de 100 anos, para mostrar a ausência de visão estrutural. A cidade de Santiago tem 80 km de metrô, tem 5 milhões de pessoas. Não houve uma visão estruturante no transporte de massa e nem mesmo os corredores do ônibus eles retomaram. Não fizeram os corredores de ônibus, 28% da população continua andando de ônibus. Falta o ônibus biarticulado, com semáforos computadorizados para poder aumentar a velocidade da frota. Então, é um colapso o sistema de transporte.

CC: Posso concluir que Trânsito e Transporte devem ser questões centrais na sua campanha? AM:Na Grande São Paulo seguramente é um tema central na vida das pessoas. Outro tema: se você olhar todos os indicadores de Segurança Pública, o Alckmin também não menciona no discurso dele a Segurança. Por sinal, no dia em que ele lançou a campanha dele, a PM e a Polícia Civil estavam de prontidão, sob risco de ameaça do crime organizado atacar novamente. Porque o aniversário do PCC é agora dia 9. Havia uma ameaça e a polícia estava de prontidão no dia do lançamento. Todos os indicadores de Segurança se deterioram em 2009.

CC: Mas o Serra fala em um Ministério de Segurança Pública...
AM:
O Ministério da Justiça já gasta 87% da verba em Segurança Pública. O governo federal, além de fazer a Polícia Federal ser um exemplo de eficiência, autonomia e de capacidade operacional, de inteligência policial, fez o PRONASCI (Programa Nacional de Segurança Pública para a Cidadania). Ele é um programa que viabiliza as unidades pacificadoras da polícia no Rio de Janeiro junto de uma série de outras medidas de intervenção do estado, como o “Minha Casa, Minha Vida”, educação, cultura e saúde que permitem o estado ocupar o território, onde antes ele se omitia, e dava lugar ao crime organizado. A Força Nacional recrutou quatrocentos mil homens disponibilizados para atuar em qualquer lugar do país. Não havia presídios federais e o governo federal criou quatro mil vagas de segurança máxima e não teve uma fuga, uma rebelião, um problema de gestão. Altamente informatizado, computadorizado com uma disciplina necessária para os chefes do crime organizado. São Paulo não mandou os chefes do crime organizado para os presídios federais. E as organizações criminosas tomaram e continuam tomando conta do sistema prisional. Na polícia de São Paulo chegou a tal ponto a insatisfação que, todos os indicadores pioraram no ano passado e nesse ano i continuam piorando, inclusive homicídios. Os homicídios no ano passado só tinham crescido 16% no interior, não tinham crescido na capital. Esse ano está crescendo fortemente na capital também. É um quadro de insatisfação profunda a tal ponto que umas das polícias mais mal pagas do país, que é a polícia de São Paulo, teve um confronto entre polícia civil e militar em frente ao Palácio dos Bandeirantes. Não tem como não discutir a segurança em São Paulo com o governador do Estado. Todos os indicadores: roubo de carga, assalto, furto, estupro, homicídio, tudo isso tem se deteriorado.

CC: O que parece ai é que o PSDB cobra a responsabilidade do governo federal...
AM:
Não é verdade em outros estados. Em vários estados da Federação os indicadores continuam caindo.

CC: São Paulo está com uma situação pior do que o resto do país?
AM:
É pior do que a média nacional, em 2009. Além disso, ele (Alckmin) também não menciona a Educação em seu discurso de lançamento como pré-candidato. Não fala da situação atual de São Paulo. Ele deixou a Educação numa situação em que, segundo o exame do SARESP (Sistema de Avaliação do Rendimento Escolar do Estado de São Paulo), que é do governo de São Paulo, dado de 2005, 30% dos alunos da primeira série não sabiam ler, nem escrever e 15% da segunda série. Cinquenta mil crianças da primeira e segunda série em São Paulo não aprenderam a ler e escrever, ou seja, uma sequela irreparável para o futuro. Quando você chega ao terceiro ano do ensino médio, na avaliação de hoje, os estudantes sabem, em média o que deviam saber na oitava série. Elas estão perdendo pelo menos três anos, na média, da escola pública, de deficiência de aprendizado. Quando você pega o PISA, que é o exame internacional para literatura, matemática e ciência, São Paulo, que é o Estado mais rico da Federação, está abaixo da média nacional.
Agora, porque nós chegamos numa situação como essa? Começa pelo corpo docente: 43% dos professores não são concursados. O secretário de Educação em 1983 é o mesmo de 2010, Paulo Renato de Souza. Cem mil professores não são concursados, ou seja, não têm carreira, não têm projeto de longo prazo e não têm estabilidade pedagógica. E você não forma, se não tiver um corpo coletivo capaz de acompanhar os alunos e trocar experiências. Como é que ele escolhe por último as aulas, principalmente nas periferias, é um rodízio permanente, não tem estabilidade e não tem o processo de aprendizado continuado. Se você pegar os dados do governo Serra na área de investimentos em Educação: há uma profunda insatisfação, a maioria dos professores ficou cinco anos sem reajuste salarial. O único reajuste foi 5% linear. A política de abono só pega até 20% da categoria e quando você recebe abono você fica quatro anos sem receber e depois só 20% dos 20% podem receber. Eu sou favorável dar estímulos desde que você dê pelo menos a inflação e nem isso eles fizeram para a maioria dos professores.

CC: Os professores de São Paulo ganham mais do que a maioria dos outros estados, não é?
AM:
Na média, eles têm o décimo quarto salário do Brasil. Ele prometeu, no Plano Pluri-Anual de São Paulo, compromisso oficial do governo, 3.953 novas classes, porque há super lotação em muitas salas de aula em muitas regiões do Estado, mas só fez 12%. Prometeu melhorar ou substituir 5 mil prédios escolares e só fez 7% do prometido. Então, se olharmos a situação da Educação, o que é a Educação do futuro? A escola do futuro é uma escola informatizada, a escola tem que ter banda larga, as crianças têm que ter acesso a laptop, como o Uruguai está fazendo e como a Europa toda já quase fez. Hoje nós temos onze milhões e meio de jovens em São Paulo nas redes sociais, na internet, usando pen drive no pescoço e indo para uma lan house. E a escola não é uma escola acolhedora. Nós temos que ter um portal para o professor, um portal do aluno para ele ter acesso ao planejamento escolar, os exercícios. A escola hoje em São Paulo não acompanhou a evolução e o Estado tem condições para isso para se modernizar e ter uma escola do futuro.

CC: Mas na Saúde, a situação não está melhor?
AM:
Na área da Saúde Pública não tem uma parceria republicana entre governo do Estado, governo federal e as prefeituras. Vejamos o SAMU: o governo Lula entregou 397 ambulâncias em São Paulo. O governo federal entrega a ambulância e o governo federal paga 50%, outros 25% são do Estado e 25% da prefeitura. O Estado de São Paulo é o único que não participa do SAMU, é o único que não participa das UPAS, com custeio de 25%, que são unidades de pronto-atendimento, tratamento de urgência e emergência. Nós estamos construindo 97 UPAS em São Paulo.

CC: O que senhor pretende fazer nas rodovias? E com os pedágios?
AM:
Falta em todas essas áreas um debate. O abuso dos pedágios em São Paulo, por exemplo. Gustavo Mendes é o prefeito de Jaguariúna e vou te contar a história que ele me contou. É a seguinte: de Jaguariúna para Campinas são 18km e o pedágio custa R$7,90 para ir e o mesmo para voltar. Então, tem lá o cidadão que mora em Jaguariúna, trabalha em Indaiatuba na Toyota e estuda na PUC à noite, em Campinas. Dá quase quarenta reais por dia. Em dias úteis cerca de R$9.500 por ano de pedágio. Aí o sujeito arrumou uma namorada em Vinhedo e não pode mais namorar porque o PSDB não deixa (risos). Ou ele entregava o carro para concessionária ou largava a namorada. Largou a namorada (risos).

Quer dizer, essa é a situação que o Estado vive porque nos pedágios estaduais a taxa de retorno é de até 27%. Então você imagina o seguinte: às vezes, 80 a 90% da obra é custeada pelo BNDES a 10%, essa é a taxa, fora a reposição da inflação. Sendo que a taxa de retorno é de 20%, então são 10% líquido para aportar recursos sobre o volume, que é muito maior. E o indexador IGPM no pedágio federal, a taxa de retorno é de 8,5%, com indexador IPCA. A diferença média é de sete para um entre uma tarifa e outra. Precisa de pedágio para ter investimento, melhoria no Estado? Tudo bem, mas não com uma tarifa abusiva e eles prorrogaram os contratos das empresas sem licitar novamente e sem reduzir as tarifas. Se nós não discutirmos esses problemas estruturais, São Paulo não voltará a impulsionar o desenvolvimento do Brasil e tem todas as condições para ter um papel muito mais decisivo no desenvolvimento do Brasil nessa perspectiva que serve para o País, já que é o Estado que tem a melhor indústria, os melhores serviços, os melhores centros tecnológicos e universidades, melhor agricultura e de repente você tem um processo de disputa política em que esses grandes temas não são discutidos. Uma parte da imprensa paulista finge que não existe, não debate e não permite que esse debate avance, o que é fundamental para São Paulo.

CC: Mas, senador, apesar de tudo isso, como é que se explica essa distância tão grande do Alckmin nas pesquisas hoje em relação à sua candidatura?
AM:
Quem foi governador e vice-governador doze anos e mais um ano e quatro meses como secretário, quem disputou a presidência da República e acaba de disputar a eleição para a Prefeitura, é natural que com essa exposição e essa presença, e com a mesma equipe se alternando no governo há vinte e sete anos, tenha esse posicionamento nas pesquisas. Agora se isso fosse uma intenção de voto consolidada, como é que se explica que ele (Geraldo Alckmin) saiu com 45% para a prefeitura (em 2008) e terminou com 22%, nem para o segundo turno foi há um ano atrás?

A intenção de voto que ele tinha para a prefeitura é a mesma que ele tem hoje para o governo do Estado, só que nem chegou ao segundo turno. Eu acho que não é consistente e à medida que o debate avançar à medida que nós tivermos acesso à televisão e rádio para poder fazer esse debate aprofundado, nós vamos crescer. Na hora em que o Lula começar a se despedir do povo brasileiro definitivamente, eu acho que vai ter uma grande emoção e São Paulo, que durante tanto tempo, não acreditou que o Lula poderia ser presidente, um bom presidente e hoje aplaude, eu acho que pode votar no Mercadante e acreditar que é possível fazer em São Paulo o que nós já fizemos no Brasil. Um governo muito melhor do que o do PSDB.

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