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Memórias reveladas

por Celso Marcondes — publicado 12/11/2008 18h02, última modificação 24/08/2010 18h05
A ditadura militar costumava chamar de “terroristas” a todos aqueles que ousavam combater o regime de terror que nos foi imposto em 1964.

A ditadura militar costumava chamar de “terroristas” a todos aqueles que ousavam combater o regime de terror que nos foi imposto em 1964. Parte desta história foi apagada, através da destruição de registros importantíssimos daquele período. Uma outra parte, entretanto, sobreviveu à ação do tempo e dos destruidores de arquivos. Informações sobre muitos destes “terroristas” catalogados em São Paulo pelo DEOPS estão abertas ao público há mais de dez anos. Podemos conferir, avaliar e propor o julgamento da trajetória de muitos deles. O Arquivo Público do Estado disponibiliza o acesso ao acervo que contabiliza números assustadores, que dão conta por si só do terrorismo imposto pelos militares durante a ditadura militar. Confira: são mais de 150 mil prontuários, 1,1 milhão de fichas, 9 mil pastas com dossiês, 1.500 pastas de Ordem Política e 2.500 pastas de Ordem Social. Quem nos informa é o Núcleo de Comunicação do Arquivo Público do Estado de São Paulo.

Quem não viveu aquela época nefasta pode fazer um exercício e imaginar agora o tamanho do aparato que era necessário para elaborar tão minucioso estudo. Diferentemente dos dias de hoje, quando empresários, juízes, tribunos, políticos e parte da mídia esperneiam contra um suposto “estado policial”, do qual seriam inocentes vítimas, naqueles tempos mais que bicudos não existia celular, maleta 007 de escuta telefônica, computador pessoal e toda a parafernália eletrônica jamesbondiana que conhecemos agora. Eram dúzias de organismos militares e civis, legais e clandestinos, milhares de homens, binóculos, óculos escuros, grampos feitos do alto dos postes da Telesp, peruas C 14, máquinas de datilografia, telex, tudo a serviço da busca de informações sobre cidadãos brasileiros. Montanhas de papéis não recicláveis. Elas acabaram gerando prisões, torturas, mortes, exílios. Também demissões, perseguições, suicídios.

Aquilo sim era estado policial. Os nomes daqueles que hoje esperneiam contra as escutas do Protógenes, emitem habeas corpus em frações de segundos e acreditam em gravação exclusiva da Veja, talvez com raras exceções, não serão encontrados nas fichas do arquivo do DEOPS. Porque parte deles naquela época apoiava o trabalho do DEOPS. Ou tem saudades dele, como lembrou recentemente o ministro Paulo Vannuchi.

Evidentemente também não serão encontrados os nomes dos policiais civis e militares que torturavam os presos no DEOPS. Porque o único arquivo que guarda nomes, dados e fisionomias dos torturadores é a memória dos sobreviventes e de seus parentes.

Mas a boa notícia é que parte da história está lá, para quem não quer apagar nossas lembranças. Agora o Arquivo Público avisa que iniciou, com a Casa Civil da Presidência da República, um projeto, com a duração de oito meses, que vai catalogar e colocar à disposição do público pela internet os registros que conseguiu preservar das lutas contra a ditadura militar. A iniciativa abrangerá os outros estados da federação, possibilitando o cruzamento de dados e ajudando na pesquisa de dezenas de grupos, instituições e pesquisadores que trabalham em defesa da nossa história. O projeto “Memórias Reveladas – Centro de Referência das Lutas Políticas – 1964-1985”, conta com o patrocínio da Petrobras.

“Revelar memórias” faz muito bem à saúde do País.