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Política

Editorial

Memória viva

por Mino Carta publicado 03/08/2012 10h10, última modificação 03/08/2012 10h10
Histórias de tempos sombrios que se pretende condenar ao esquecimento, para a vergonha do Brasil
Arns

Dom Paulo. Personagem admirável por bravura e compaixão. Foto: Mabel Feres/AE

Alguém bate à porta. “Entre.” Entra o jornalista Luis Weiss. Vem da outra margem do rio e o atravessou a montante, como boi de piranha. Não é um sonho, é memória viva. Estamos no começo de outubro de 1975, eu dirijo a revista Veja e Weiss acaba de sair da equipe de jornalismo da TV Cultura, comandada por Vlado Herzog.

A saída, diz Weiss, resulta de uma decisão do grupo, acusado de compor uma célula comunista e encarado com extrema, aterradora suspeita pelos jagunços fardados da casa-grande, concentrados no DOI-Codi e prontos a agir. Trata-se de verificar o comportamento das piranhas, e a comparação parece-me perfeita. Weiss pede emprego, digo “começa já”. Decido de pronto, a evitar consulta aos patrões, mesmo porque tenho autonomia para tanto. Sei, porém, que, se recorresse às suas luzes, viriam de lâmpada Skuromatic e criariam trevas ao meio-dia.

Evoco o episódio
daqueles dias plúmbeos porque pouco mais de duas semanas após Vlado seria assassinado pelos torturadores da ditadura civil-militar. Nesta edição, entrevistado por Ana Ferraz, Audálio Dantas, então presidente do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, também fala daqueles momentos e generosamente se refere a mim e ao meu envolvimento no doloroso enredo. De fato, na madrugada de 25 de outubro de 1975, ao saber que Vlado teria de se apresentar de manhã às cancelas do DOI-Codi e que também Weiss era procurado pelos jagunços fardados, procurei em vão pelo telefone o chefe da Casa Civil, Golbery do Couto e Silva, e o governador Paulo Egydio, ambos ausentes dos seus paradeiros habituais e inalcançáveis.

Atendeu-me o cardeal-arcebispo Dom Paulo Evaristo, e foi ele quem, horas após, conseguiu falar pelo telefone com Paulo Egydio e dele recebeu a seguinte incumbência: instruir-me para que eu fosse a Santos à procura do coronel Erasmo Dias, secretário da Segurança do governo paulista, e o instasse a regressar à capital de sorte “a assumir o controle da situação”. Segundo o governador, eu daria com o coronel na Vila Belmiro, reduto do Santos Futebol Clube. Contive-me para não despencar miseravelmente na gargalhada. Disse apenas: “Pelo amor de Deus, Dom Paulo, no mínimo Erasmo Dias me prende no ato”. Retrucou o cardeal: “Esta é a mensagem do governador, no mais eu entendo de Deus muito mais do que você”.

A observação soou-me de toda justiça, e fui atrás do coronel, a partir do gramado que celebrizou Pelé. Não o encontrei nem ali, nem em outro canto. Quando encerrei a busca, Vlado já estava morto, abatido na célebre imagem forjada para simular o suicídio, como títere abandonado no bastidor.

No dia seguinte, enquanto Dom Paulo cogitava do culto ecumênico que reuniria na Sé 8 mil pessoas na mira dos atiradores postados no alto dos prédios erguidos em torno da praça central de São Paulo, um comunicado do sindicato de Audálio negava com todas as letras a versão do suicídio. O mesmo Audálio que, com as devidas garantias de que tudo não passaria de um depoimento, juntou-se a mim para levar Luis Weiss, desde a madrugada de sábado escondido no apartamento de José Roberto Guzzo, um dos dois redatores-chefes da Veja, à presença de um certo, e soturno, coronel Paiva, substituto do coronel Brilhante Ustra na chefia do DOI-Codi. O compromisso foi cumprido, Weiss estava em liberdade três horas depois.

O sindicato, sob a batuta de Audálio, teve papel extraordinário na resistência à ditadura civil-militar, papel indispensável à memória daquele tempo trágico, e infamante para muitos brasileiros, fardados e paisanos. Ainda assim, estes e seus herdeiros pretendem relegá-lo ao esquecimento. A bem do País? A bem da paz geral da Nação? Ora, ora, a bem deles mesmos. Nesta edição, a reportagem de capa aponta para a possibilidade inédita de que um torturador feroz, primeiro responsável por inúmeros assassínios cometidos nas masmorras do DOI-Codi, seja condenado. Seria um passo decisivo na derrubada da dita lei da anistia imposta pela ditadura civil-militar.

Sim, a história costuma ser escrita pelos vencedores. Até onde chegam a leniência e a covardia que Argentina e Chile não tiveram, e muitos outros povos em ocasiões recentes ou remotas? Ou será que vencedores foram eles mesmos, ainda e sempre senhores da casa-grande?