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Melhor que uma guerra?

por Moniz Bandeira — publicado 12/08/2011 14h26, última modificação 18/08/2011 18h10
Assim John Kennedy definiu a construção do Muro de Berlim há 50 anos, quando o Ocidente optou por críticas moderadas. Por Luiz Alberto Moniz Bandeira
Melhor que uma guerra?

Assim John Kennedy definiu a construção do Muro de Berlim há 50 anos, quando o Ocidente optou por críticas moderadas. Por Luiz Alberto Moniz Bandeira. Foto: DPA/AFP

O presidente dos EUA, Dwight Eisenhower, reconheceu que a situação de Berlim era realmente anormal em 1960, durante conversação privada em Camp David com Nikita Kruchev, primeiro-secretário do Partido Comunista da URSS. Repartida entre as forças da URSS, EUA, Grã-Bretanha e França, incrustada cerca de 110 milhas no território da antiga Zona de Ocupação Soviética, Berlim gerava e refletia todas as tensões do conflito Leste-Oeste, ao mesmo tempo que dificultava a sobrevivência da República Democrática Alemã (Alemanha Oriental), em consequência não tanto das ações dos EUA ou da República Federal da Alemanha (Alemanha Ocidental) quanto das próprias políticas da URSS e do SED/Partido Socialista Unificado da Alemanha (comunista).

Lá, no setor ocidental, os EUA derramaram cerca de 600 bilhões de dólares e a RFA outros bilhões de marcos, enquanto, além de espoliar o que havia de indústria, no setor oriental, e outros bens materiais, após a ocupação, a URSS nada investira e os recursos aplicados pelo governo de Walter Ulbricht, primeiro-secretário do SED, após a sublevação popular de 17 de junho de 1953, não foram sequer suficientes para remover os destroços da guerra ainda existentes. Esse contraste evidenciava o desnível econômico entre os dois Estados alemães.

O padrão de vida na RDA, embora melhorasse desde o levante de Berlim (1953), continuava, em 1960, um terço abaixo do existente na RFA. A emulação entre os campos socialista e capitalista não favorecia a RDA, cuja recuperação, durante vários anos, a própria URSS incumbira-se de impedir, com o saque das indústrias e a cobrança das indenizações de -guerra. A RFA, com uma economia social de mercado eficiente, estava em pleno boom e sua indústria, em expansão, oferecia, em 1960, cerca de 600 mil vagas de emprego para apenas 100 mil candidatos, o que gerava a aguda necessidade de importar operários de outros países.

Esse boom econômico, chamado de “milagre alemão”, que a reforma monetária (Währungsreform) de 1948 havia possibilitado, não se deveu ao Plano Marshall, mas à cultura do trabalho, ao elevado nível educacional e à alta capacitação tecnológica dos alemães. Lud-wig Erhard, ministro da Economia da Alemanha Ocidental entre 1949 e 1963, escreveu que a importância do Plano Marshall foi mais de caráter moral e político do que material, porquanto a RFA, de 1945 a 1952, somente recebera 4,5 bilhões de dólares, dos quais dois terços como doação, do montante de 32 bilhões de dólares destinados pelos EUA aos países da Europa Ocidental. O próprio professor Charles Kindleberger, que havia trabalhado (1947-1948) no Departamento de Estado na formulação do Plano Marshall, reconheceu que coube à RFA apenas o total de 3,6 bilhões, entre 1946 e 1953, e ponderou que, embora necessária, a ajuda dos EUA não foi suficiente para promover a recuperação econômica da Europa Ocidental. O grande mérito de EUA, Grã-Bretanha e França foi não desmantelar as indústrias da Alemanha Ocidental, possibilitando que ela recuperasse sua capacidade produtiva, a fim de que cooperasse na reconstrução da Europa, poupando o contribuinte americano de maiores encargos financeiros com a contenção do comunismo.

A economia de ala oriental, muito ineficiente, não podia suportar a competição com a ocidental. A diferença de câmbio entre o forte marco alemão e o débil marco oriental, que alcançava, no mercado negro, a taxa de 1:4, propiciava o contrabando e uma enorme drenagem de mercadorias, principalmente gêneros alimentícios, cujos preços eram subsidiados e, por conseguinte, mais baixos na RDA. O deutsche mark valia quatro marcos da RDA em Berlim Ocidental, enquanto sua cotação em Berlim Oriental era paritária. As lojas em Berlim Oriental só vendiam a quem apresentasse documento de que lá residia ou o certificado de câmbio. Uma caixa de compensação da RDA procurava corrigir a diferença cambial, pagando aos operários que moravam em Berlim Oriental e trabalhavam em Berlim Ocidental, parte em marcos da RFA, deutsche mark, e parte em marcos orientais, pra evitar que a diferença salarial fosse muito maior.

Tais medidas não evitavam, porém, a evasão de mercadorias, sobretudo gêneros alimentícios.  Muitas pessoas compravam, uma só vez, os marcos da RDA, em Berlim Oriental, na base de 1:1, e depois lá voltavam várias vezes, mas com marcos comprados em Berlim Ocidental na cotação de 1:4, enquanto apresentavam o mesmo certificado de câmbio anterior para adquirir os produtos. Entretanto, quem entrasse em Berlim Oriental com marcos da RDA sem apresentar comprovante de que lá dentro foram trocados, sofria penalidade de, no mínimo, dois anos de cadeia. Só havia certa tolerância com estrangeiros, embora passassem dias ou semanas detidos.

Os habitantes do lado ocidental correriam para comprar em Berlim Oriental, porque os preços, subsidiados pelo governo comunista, eram muito mais baixos. Um sabonete de 4 marcos em Berlim Oriental custava 1 marco para quem fizesse o câmbio do lado ocidental. Não obstante, o padrão de vida na Alemanha comunista era bem mais baixo do que na RFA. O trânsito entre os dois setores era livre, mas os alemães, para entrar em Berlim Oriental, precisavam de autorização provisória ou permanente, obtida na fronteira. O metrô passava livremente de um lado a outro da cidade. Mas, por mais eficiente, o controle não podia impedir a especulação monetária, quando na mesma cidade dois diferentes Estados, com economias desiguais e antagônicas, coexistiam e rivalizavam. Segundo Egon Krenz, depois secretário-geral do SED e presidente do Conselho de Estado, o prejuízo da RDA até 1961 alcançara o montante de 130 bilhões de marcos em consequência tanto da fuga de profissionais qualificados quanto do contrabando de mercadorias.

Várias agências de espionagem operavam em Berlim Ocidental. A CIA mantinha estações de rádio que emitiam continuamente propaganda política para o setor oriental, com o objetivo de agravar ainda mais a situação e desestabilizar o regime comunista. A URSS e a RDA, embora com menos recursos, possuíam igualmente emissoras com programas de propaganda, enquanto o Stasi (serviço de inteligência da RDA) tratava de infiltrar agentes na Alemanha Ocidental.

De qualquer modo, tanto as condições econômicas quanto as sociais e políticas, de caráter repressivo, eram tão precárias que condenavam a RDA ao esvaziamento e o regime comunista à derrocada. A antiga Zona de Ocupação Soviética tornara-se o grande fornecedor da força de trabalho de que a parte ocidental cada vez mais necessitava. Perdera mais de 15% de sua população, estimada em 18,3 milhões de habitantes em 1945. Entre 1947, quando a Guerra Fria irrompeu, e 13 de agosto de 1961, cerca de 3 milhões de pessoas, das quais quase 50% com menos de 25 anos, passaram para a Alemanha Ocidental, descontentes com o regime imposto pela União Soviética. Esse fluxo voltou a crescer depois da coletivização do campo e atingiu o número de 207.026 pessoas apenas nos sete primeiros meses de 1961. Se o êxodo continuasse no mesmo ritmo, a RDA estaria despovoada em cinco ou seis anos.

A evasão de operários e camponeses, bem como de técnicos, engenheiros, médicos, cientistas e outros profissionais para o Ocidente inviabilizava o “Estado operário e camponês” que Walter Ulbricht pretendia implantar na antiga Zona de Ocupação Soviética. Diante de tal perspectiva, em reunião do Pacto de Varsóvia (março de 1961), ele advertiu que a RDA não mais poderia cumprir suas obrigações com o Comecon se o fluxo de refugiados continuasse. Sua intenção era pressionar a União Soviética a assinar o tratado de paz em separado com a RDA, a fim de que pudesse fechar o trânsito para Berlim Ocidental através do seu território. As potências ocidentais, porém, não aceitavam a mudança do status da cidade. Dado o impasse e a perspectiva de total colapso da RDA, os integrantes do Pacto de Varsóvia, reunidos- -entre 5 e 7 de agosto-, autorizaram a construção da barreira em Berlim, sugerida por Ulbricht-, embora dois meses antes houvesse declarado que niemand hat die Absicht, eine Mauer zu bauen (Ninguém tem a intenção de construir um muro).

Ao amanhecer de 13 de agosto de 1961, um domingo, soldados da Grenz-polizei (Polícia de Fronteira), Volkspolizei (Polícia Popular) e do Nationale Volksarmee (Exército Nacional Popular), coordenados por Erich Honeker, do Politburo do SED, começaram a levantar um muro para isolar Berlim Oriental, com tijolos e, depois, com placas de concreto. Essa iniciativa separou milhares de famílias e aumentou o desprestígio e a impopularidade do regime comunista. As potências ocidentais protestaram e Konrad Adenauer, chefe do governo da Alemanha Ocidental, anunciou que adotaria, em parceria com EUA, Grã-Bretanha- e França, medidas de pressão econômica contra a Alemanha Oriental e o bloco soviético. Ele próprio não quis, porém, agravar a crise. Sua reação limitou-se a pronunciamentos moderados. E John Kennedy, quando soube da construção do Muro de Berlim, confidenciou: It’s not a very nice solution... but a hell of a lot better than a war (Não é uma bela solução… mas é um inferno muito melhor que uma guerra).

*O autor é cientista político, professor titular de História da Política Exterior do Brasil na UnB (aposentado) e autor de mais de 20 obras - entre as quais A Reunificação da Alemanha - do ideal socialismo ao socialismo real (Editora Unesp, 2009) e o "Milagre Alemão" e o Desenvolvimento do Brasil (1949-2011) (Editora Unesp, 2011). Há muitos anos vive na Alemanha.

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