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Revanche

Manifestantes pedem punição de legista que assinava laudos falsos durante a ditadura

por Agência Brasil publicado 07/04/2012 18h18, última modificação 06/06/2015 18h22
Cartazes colados em postes diziam que Harry Shibata assinou laudos falsos para encobrir mortes decorrentes de tortura, como a de Vladimir Herzog

Daniel Mello
Repórter da Agência Brasil

São Paulo – Um grupo de manifestantes percorreu neste sábado 7 o bairro de Pinheiros, zona oeste paulistana, para denunciar à comunidade local a atuação do médico-legista Harry Shibata durante a ditadura militar.

Cartazes colados em postes diziam que Shibata assinou laudos falsos para encobrir mortes decorrentes de tortura, como o caso do jornalista Vladimir Herzog. Pedindo a punição com gritos de ordem, os manifestantes foram até a casa do legista, onde penduraram faixas e picharam o asfalto e a calçada.

 

O movimento é inspirado nos atos promovidos na Argentina e no Chile para cobrar punição aos agentes das ditaduras locais. Segundo a estudante de artes plásticas Cândida Guariba, a ação é importante para mostrar que os colaboradores da repressão ainda estão presentes na sociedade.

“Vir até a casa dele representa marcar essa memória. Mostrar para as pessoas que ele está vivo, que mora perto delas e está totalmente impune”, ressaltou a jovem cuja avó, Heleny Guariba, é desaparecida política.

Presa por duas vezes à época da ditadura, Ângela Mendes de Almeida acredita que é importante dar nome aos autores dos crimes cometidos durante o regime. “Em geral, o movimento tem se fixado em lembrar os mortos e desaparecidos. Mas nós temos que lembrar também os causadores dessas mortes”, ressaltou a professora aposentada que foi companheira de Luiz Eduardo Merlino, morto sob tortura dentro do Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi).

Ângela garantiu que as manifestações vão continuar. O objetivo principal, segundo ela, é que os agentes e colaboradores da ditadura sejam responsabilizados. “Nós queremos, além da verdade, a justiça.”

Segundo os manifestantes, o médico assinou ainda o laudo de Sonia Maria de Moraes Angel Jones, que depois de torturada, teve seus seios arrancados e foi estuprada com um cassetete.

A versão do legista foi de morte em tiroteio. Shibata, que foi diretor do Instituto Médico Legal entre 1976 e 1983, e teve seu registro profissional cassado pelo Conselho Federal de Medicina, instruía os torturadores dos órgãos de repressão da ditadura a não deixar marcas de suas ações nos corpos de torturados.

Segundo os manifestantes, hoje tal prática continua sendo utilizada pela polícia, que ensina a não deixar marcas da tortura para o exame de corpo de delito.

Ex-chefe do necrotério do Instituto Médico-Legal (IML) de São Paulo, Harry Shibata é alvo de uma ação civil pública movida pelo Ministério Público Federal (MPF) por ocultação de cadáver. O órgão pede que o legista perca sua aposentadoria e pague indenização pelos danos causados. O dinheiro deverá ser revertido em iniciativas que permitam que as violações aos direitos humanos ocorridas na ditadura não caiam no esquecimento.

 

Com informações da Redação

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