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Macarthismo tupiniquim digital

por Carlos Juliano Barros — publicado 03/05/2016 04h24 Marcelo Camargo/ Agência Brasil
O macarthismo tupiniquim digital se vale de bonecos infláveis para “distrair a massa” e é incapaz de discutir uma reforma política radical
Marcelo Camargo/ Agência Brasil
votação impeachment

Teatralização da política brasileira se materializa na votação da admissibilidade do impeachment na Câmara

“O macarthismo como o início da conversão não só da política séria mas de tudo o que é sério em entretenimento para distrair a massa. O macarthismo como a primeira florescência do vazio mental americano que agora está por toda a parte. O negócio de McCarthy, na verdade, nunca foi a perseguição de comunistas: se ninguém sabia, disse, ele sabia. A virtude dos julgamentos-espetáculo da cruzada patriótica de McCarthy era simplesmente a sua forma teatralizada.”

Definitivamente, não é mera coincidência qualquer semelhança entre a ópera-bufa de mau gosto em que se converteu a política brasileira e as reflexões pescadas de “Casei com um comunista”, uma das muitas obras-primas de Philip Roth - provavelmente, o maior escritor americano vivo.

Quem não se lembra da operação de guerra, com cinegrafistas espalhados como snipers pelas ruas de São Paulo, montada para a “condução coercitiva” do ex-presidente Lula? Como esquecer  William Bonner e Renata Vasconcellos interpretando em cadeia nacional a conversa grampeada de Lula e Dilma Roussef? O que dizer do vídeo da lambaeróbica nacionalista viralizado pelas redes sociais? E os deputados jogando para a torcida, em nome de Deus e da família, durante a votação do impeachment?

No Brasil, a teatralização da política é de fazer corar no túmulo o finado senador americano Joseph McCarthy, que gravou seu nome na história como mentor da histeria coletiva que, no pós Segunda Guerra Mundial, tentou varrer do mapa o mínimo vestígio de pensamento progressista nos Estados Unidos. Trabalho de mestre, não se pode negar. Donald Trump e Tea Party que o digam.

Por aqui, o macarthismo tupiniquim digital se vale de bonecos infláveis para “distrair a massa”, como ensina o livro de Philip Roth, negando os fatos e desviando a atenção do que realmente importa. Ele é incapaz, por exemplo, de discutir uma reforma política radical que reduza o número de legendas de aluguel e aborte as relações promíscuas entre empresários e partidos. O remédio é simplesmente eliminar o inimigo público (no caso, o PT), fomentando o ódio e plantando delírios de que o Brasil corre na mesma direção que a Venezuela.

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Bonecos infláveis entretêm a massa em manifestações pró-impeachment (Foto: Rovena Rosa/ Agência Brasil)

Na área econômica, o macarthismo tupiniquim digital é simbolizado pelo pato da Fiesp. De fato, é necessário simplificar a cobrança de impostos e facilitar a vida dos empreendedores brasileiros. Mas por que esconder sob o tapete princípios básicos de justiça tributária? Por que silenciar sobre o fato de que ricos pagam proporcionalmente menos impostos do que os pobres no Brasil?

Mas é no plano dos costumes que o macarthismo tupiniquim digital atinge seu apogeu. Direito ao aborto, casamento gay, cotas para negros nas universidades – tudo o que é identificado com o campo da “esquerda” é automaticamente associado à ruína do País. "Vazio mental", definiria Philip Roth.

No fim das contas, o macarthismo tupiniquim digital é a expressão cultural radicalizada que busca convencer a opinião pública sobre a necessidade da onda de reformas liberalizantes que, nos próximos anos, vai inevitavelmente varrer o país: reforma da previdência, corte no orçamento das áreas sociais, flexibilização da legislação trabalhista.

É o caldo de valores necessário para legitimar a “Ponte para o futuro” advogada pelo iminente governo de Michel Temer e seus aliados de centro-direita. Deu certo nos Estados Unidos pós Segunda Guerra Mundial. Está dando certo por aqui também.