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Política

Editorial

Lição de Dignidade e de Vida

por Mino Carta publicado 01/04/2011 11h17, última modificação 04/04/2011 11h23
Este não é o epitáfio retórico, é o depoimento comovido de CartaCapital.
Lição de Dignidade e de Vida

Este não é o epitáfio retórico, é o depoimento comovido de CartaCapital. Por Mino Carta/Foto: Sérgio Amaral

Em uma das festas de CartaCapital destinadas a celebrar o aniversário da revista e entregar os troféus anuais às Empresas Mais Admiradas no Brasil durante o primeiro mandato de Lula, o vice José Alencar substituiu o presidente, impedido a comparecer por outros compromissos. Ao dar as boas-vindas aos convidados, atirei-me à constatação de que o Brasil ainda não fez sua Revolução Francesa, e me apressei a esclarecer-lhe o caráter de levante burguês com efeitos decisivos na história dos últimos duzentos e poucos anos. Pareceu-me oportuna a evocação do evento remoto em proveito dos burgueses que lotavam a plateia, no caso do auditório da própria Fiesp. Enquanto eu falava da pomposa tribuna instalada sobre o palco, vi o vice-presidente da República anuir. Depois, ao regressar ao meu lugar Alencar me abraçou e murmurou ao meu ouvido: “Muito bem, gostei mesmo”.

Alencar é, como sabemos, exemplar de muitos pontos de vista. Como indivíduo, como cidadão, como empresário. A chave do seu êxito nestes papéis está, a meu ver, no amor pela vida, encarada como oportunidade única e intransferível de agir com honra e competência, com responsabilidade e respeito pelo semelhante. Com a fé dos justos em relação a si próprio e ao País, único por todas as dádivas recebidas da natureza, a obrigar suas lideranças a realizar-lhe as potencialidades.

Várias vezes estive com José Alencar, em mais de uma o entrevistei, certa vez em companhia de Bob Fernandes para uma edição dos começos de abril de 2004. Ele declinava a sua definitiva lealdade em relação ao presidente Lula, mas não deixava de manifestar sua discordância a respeito de determinadas vertentes da política econômica do governo. Na época, criticava a alta dos juros, alinhado com os interesses da produção industrial. Leal, sim, independente, porém, na hora de expor suas opiniões com uma franqueza considerada insólita, se não impossível, nos nascidos em Minas, conforme o anedotário nacional.

Seu exemplo como empresário adequa-se, aliás, à perfeição, ao país novo de fronteiras escancaradas para quem dispõe de energia, imaginação, talento. Filho de um pequeno comerciante interiorano, criou um império e fundou uma estirpe que continua com o filho Josué. O herdeiro em nada se parece com tantos outros que se pretendem aristocratas e se esmeraram em demolir o legado paterno. A aristocracia foi, de fato, um dos alvos da Revolução Francesa, o resquício medieval a desconhecer o conceito de sociedade.

Na visão de CartaCapital, Alencar é exemplar na sua própria categoria, modelo para os pares, com viés bastante específico. Ele figura entre aqueles, incomuns por ora, que aderiram confiantes à mudança dos tempos e não viram em Lula o operário que leva à Presidência ignorância e grosseria, muito menos o líder subversivo a pregar a revolução, como pretendiam os senhores da Fiesp de 20 anos atrás, e os da mídia, prontos a apoiar Fernando Collor no papel impossível de salvador da pátria ameaçada.

O grupo inclui alguns pesos pesados, como Jorge Gerdau, Emilio Odebrecht, Abilio Diniz, Roberto Setubal, estes dois últimos autores de discursos de apoio à candidatura de Dilma Rousseff na festa de CartaCapital de 18 de outubro do ano passado. José Alencar o encabeça, mesmo em função do cargo oferecido por Lula e por ele aceito, e ocupa­do com extrema dignidade oito anos a fio em meio à doença, que só o vitimou após o cumprimento da tarefa.

Este não é o costumeiro epitáfio pronunciado à beira de um túmulo. É o depoimento comovido de todos nós de CartaCapital.

ESTREIA FELIZ
A partir desta edição, contamos a cada quinzena com um novo colunista, o ex-chanceler Celso Amorim, ministro de Lula e intérprete de uma política exterior que valorizou o Brasil ao acentuar-lhe a independência e que honrou as melhores tradições do Itamaraty. A contribuição de Celso Amorim é importantíssima para CartaCapital, para nossos leitores e para o País todo.

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