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Eleições 2010

Lição chilena?

por Celso Marcondes — publicado 27/01/2010 15h09, última modificação 19/08/2010 15h11
Uma das polêmicas de janeiro teve como motivação o resultado obtido pela oposição nas eleições presidenciais chilenas. Os tucanos enxergam ali um bom sinal: Michelle Bachelet, a atual presidente, não conseguiu eleger seu sucessor, apesar de ter hoje índices de popularidade tão altos quanto os do presidente Lula aqui.

Mal começou o ano e o clima eleitoral já começou a esquentar. Uma das polêmicas de janeiro teve como motivação o resultado obtido pela oposição nas eleições presidenciais chilenas. Os tucanos enxergam ali um bom sinal: Michelle Bachelet, a atual presidente, não conseguiu eleger seu sucessor, apesar de ter hoje índices de popularidade tão altos quanto os do presidente Lula aqui. No Chile, não houve “transferência” de prestígio, dela para Eduardo Frei, o candidato da coalizão de esquerda, a “Concertación”.

Tudo bem, bons augúrios para o PSDB, mas só se a conversa parar por aí. Basta gastar um pouquinho mais de tempo comparando os quadros políticos dos dois países para se perceber que eles têm notáveis diferenças. Na economia, área vital para uma análise de perspectivas eleitorais, a situação do Brasil é muito mais confortável. A crise teve menos efeitos aqui, o País cresce e estará crescendo ainda mais quando as eleições chegarem, dando força para a candidata governista. No Chile, o primeiro turno aconteceu no final do ano passado e o segundo agora, com o país sofrendo ainda os efeitos dos abalos econômicos.

Quando comparada as estratégias eleitorais dos dois governos, outras diferenças essenciais. Enquanto que aqui Lula se desdobra escandalosamente - e faz tempo - para associar seu nome ao de sua candidata, Bachelet quase nada fez na campanha eleitoral para ajudar Frei. Este, vale destacar, um político tradicional, que já foi presidente, cumprindo um mandato que ficou muito longe de empolgar os chilenos. Perfil diferente de Dilma, que se tem contra si a falta de experiência em cargos executivos e na disputa de eleições, tem a favor a marca da novidade.

Outra grande diferença fica evidente quando se vê o empenho de Lula para que as eleições tenham um nítido caráter “plebiscitário”. Ele e o PT querem reduzir o debate eleitoral a uma discussão entre um SIM e um NÃO, a favor ou contra da continuidade dos avanços que o País vem obtendo, um embate reduzido a Dilma versus Serra. No Chile, a base do governo Bachelet se dividiu em três candidaturas, que, se unificadas, teriam levado a situação à vitória.

Esgota-se aí a discussão comparativa entre os dois países, com argumentos suficientes para sugerir aos tucanos que parem de soltar rojões e percam tempo com questões mais importantes.

A ministra Dilma Rousseff vai continuar crescendo nas pesquisas eleitorais. Apesar da liderança de Serra hoje, não vejo como ele possa manter sua vantagem à medida que a campanha comece oficialmente e se aproxime a data do pleito.

Economia em alta, somada ao prestígio inigualável do presidente Lula, já são ingredientes poderosos. Eles deixam muito limitado o discurso da oposição e, até aqui, nem um esboço do que seria seu conteúdo foi apresentado pelo PSDB. Ele começa o ano apenas retomando a tentativa de colar à ministra a pecha de “mentirosa”, aludindo à correção que foi obrigada a fazer no seu currículo escolar e à sua negativa em assumir a elaboração de um controverso “dossiê” sobre o governo FHC. Muito pouco para dar substância ao debate.

Sem ajuda dos principais aliados do DEM, enredados pelos desdobramentos do escândalo do governador Arruda e preocupados com a queda de prestígio do prefeito Kassab em São Paulo, os tucanos voltam a insistir na tecla da dobradinha com Aécio Neves para a vice-presidência. Nada de fatos novos.

Enquanto isso, do outro lado, lá estão eles, Lula e Dilma correndo o Brasil de Norte a Sul, anunciando mais e mais inaugurações e forçando Serra a entrar no ringue.

Os outros dois candidatos patinam. Ciro Gomes ainda está de férias e Marina Silva apareceu pela última vez nos jornais há um mês, quando estava na Conferência de Copenhague. Sobre eles, permanece a ideia de que será bem difícil que produzam aliados, tempo e dinheiro para enfrentar as eleições. Ciro ainda sofre a pressão de Lula para que opte pela candidatura ao governo de São Paulo.

Certo é que também permanecem dúvidas sobre a capacidade de Dilma captar boa parte da transferência de prestígio que o presidente Lula pretende lhe conferir. É certeza de que nos quesitos carisma e simpatia ela em nada se aproxima de Lula. Mas talvez baste não parecer antipática ao eleitorado e não ter o desgosto de ver o governo atingido por um escândalo de grandes proporções.

Só quando a campanha começar e tomar de assalto os intervalos da novela das oito, teremos a noção do que pode acontecer com o coração do eleitorado no momento em que assistir Lula olhar para a ministra e dizer: “para continuar o que eu fiz, só tem um jeito: votar na Dilma”.

Em outubro passado, quando Lula e Dilma foram vistoriar as obras da transposição do São Francisco no interior baiano, li, não lembro onde, um repórter contando que havia se descolado da comitiva de autoridades e percorrido as aglomerações de populares nos arredores. Resolveu então perguntar a alguns dos moradores em quem pretendiam votar para presidente. A resposta de um deles chamou-lhe a atenção: “vou votar na mulher do Lula” e apontou para Dilma no palanque.

Dona Marisa certamente não gostaria de ver esta interpretação difundida. Mas que até outubro vai ser cada vez mais difícil tirar fotografia de um sem que apareça a outra, ah, isso vai.

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