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Lembranças do 'mensalão'

por Redação Carta Capital — publicado 12/09/2012 17h38, última modificação 10/11/2016 13h57
Roberto Brant, do então PFL, foi chamado de "mensaleiro". Republicamos sua entrevista em 2006 a CartaCapital
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O ex-deputado Roberto Brant participa de seminários CNA em 2009. Foto: Agência Brasil

Agora que o Supremo Tribunal Federal começa a julgar os deputados acusados de receber uma mesada para votar com o governo federal, CartaCapital republica uma entrevista do então deputado Roberto Brant concedida em 2006 a Sergio Lirio. Até esta altura do julgamento, os ministros do STF não analisaram a natureza dos crimes cometidos pela suposta quadrilha. O objetivo era desviar recursos públicos para comprar apoio da base aliada? Tratava-se de caixa 2?

A história de Brant foi e é ilustrativa. À época parlamentar pelo PFL, o mineiro apareceu na lista dos beneficiários dos repasses do publicitário Marcos Valério. A contribuição, não declarada, veio da Usiminas. A exemplo dos demais, o pefelista justificou o recebimento como contribuição de campanha (segundo ele, repassada ao partido). Na sanha udenista das CPIs, Brant foi chamado de "mensaleiro", apesar de integrante da oposição e sem nunca ter votado a favor do governo federal. Acabou absolvido na Câmara, mas desistiu de disputar eleições. Brant integra hoje o PSD em Minas Gerais.

De­pu­ta­do fe­de­ral há duas dé­ca­das, ex-mi­nis­tro da Pre­vi­dên­cia, o pe­fe­lis­ta Ro­ber­to Brant dei­xa­rá a po­lí­ti­ca, no fim do ano, pela por­ta dos fun­dos. A cons­ta­ta­ção nada tem a ver com des­vios co­me­ti­dos pelo par­la­men­tar. É, an­tes de tudo, re­sul­ta­do da ló­gi­ca de uma cri­se in­ca­paz de se­pa­rar o joio do tri­go. Como to­dos os acu­sa­dos, o opo­si­cio­nis­ta en­fren­tou o cal­vá­rio com pou­cas chan­ces de de­fe­sa. Ta­cha­do de “men­sa­lei­ro”, ape­sar de nun­ca ter vo­ta­do com o go­ver­no, sua ab­sol­vi­ção pelo Ple­ná­rio da Câ­ma­ra foi tra­ta­da como par­te de um gran­de acor­do cor­po­ra­ti­vis­ta. Sua bio­gra­fia res­pei­tá­vel foi ig­no­ra­da. Amar­gu­ra­do, lú­ci­do, Brant re­ce­beu Car­taCa­pi­tal em seu ga­bi­ne­te na ter­ça-fei­ra 14. A se­guir, suas re­fle­xões so­bre o “mons­tro” cha­ma­do opi­nião pú­bli­ca, a “agen­da mo­ra­lis­ta” e a co­var­dia dos atuais ho­mens pú­bli­cos. “A cri­se só in­te­res­sa aos gru­pos que con­tro­lam o Es­ta­do, in­de­pen­den­te­men­te de quem es­te­ja no go­ver­no. Es­ses não que­rem mu­dan­ça ne­nhu­ma”, afir­ma.

Car­ta­Ca­pi­tal: Em um tre­cho do seu dis­cur­so de de­fe­sa, o se­nhor afir­ma: “In­fe­liz­men­te há se­to­res no Bra­sil que gos­tam da apa­rên­cia da ci­vi­li­za­ção, mas não es­tão dis­pos­tos nem pre­pa­ra­dos para as exi­gên­cias ri­go­ro­sas e às ve­zes exas­pe­ran­tes da ci­vi­li­za­ção”. O se­nhor po­de­ria iden­ti­fi­car es­ses se­to­res?
Ro­ber­to Brant: Todo esse pro­ces­so é um caso tí­pi­co em que não hou­ve jul­ga­men­to em ne­nhu­ma eta­pa. Não hou­ve na CPI (dos Cor­reios), até por­que o pró­prio re­la­tor (Os­mar Ser­ra­glio) dis­se que não iria fa­zer juí­zo de va­lor. A cor­re­ge­do­ria dis­se que não fa­ria jul­ga­men­to, que o fó­rum de de­fe­sa era na Co­mis­são de Éti­ca. Esta, por seu lado, re­la­tou que, no meu caso, fa­zia um juí­zo de acu­sa­ção. En­tão, não hou­ve jul­ga­men­to, mas uma or­ga­ni­za­ção das pro­vas para apre­sen­tar a acu­sa­ção. O mo­men­to do jul­ga­men­to era no ple­ná­rio. Mes­mo as­sim, ha­via de an­te­mão uma in­con­for­mi­da­de de de­ter­mi­na­dos se­to­res com a pos­si­bi­li­da­de de ab­sol­vi­ção. Ou seja, es­ses se­to­res não per­mi­tiam nem que hou­ves­se o trâ­mi­te nor­mal de um jul­ga­men­to. E isso se vê em ou­tras ins­tân­cias. Toda vez que os tri­bu­nais su­pe­rio­res dão li­ber­da­de a réus que es­tão pre­sos sem te­r sido jul­ga­dos, há ma­ni­fes­ta­ções in­dig­na­das. São se­to­res pri­mi­ti­vos. Sub­me­ter-se a es­sas re­gras, que cha­mei até de exas­pe­ran­tes e que pres­su­põem o di­rei­to à de­fe­sa, é exi­gên­cia ab­so­lu­ta da De­mo­cra­cia e da Jus­ti­ça.

CC: O se­nhor não iden­ti­fi­cou os se­to­res.
RB: Par­te do Con­gres­so, da im­pren­sa, da so­cie­da­de tam­bém. Quan­do falo da mí­dia, re­fi­ro-me a um pe­da­ço dela. Vá­rios jor­na­lis­tas não se­gui­ram a li­nha da con­de­na­ção pré­via. A pró­pria Car­ta­Ca­pi­tal fez uma co­ber­tu­ra da mi­nha ab­sol­vi­ção cor­re­tís­si­ma. O jor­nal Va­lor Eco­nô­mi­co tam­bém. O Jâ­nio de Frei­tas (co­lu­nis­ta da Fo­lha de S.Pau­lo) fez uma ma­té­ria enor­me, ab­so­lu­ta­men­te cor­re­ta. Não é por­que é a meu fa­vor, es­ses veí­cu­los não são nem a meu fa­vor nem con­tra. Ape­nas re­gis­tra­ram com cor­re­ção os fa­tos. Mas há sem­pre um ou ou­tro mais adep­to ao jor­na­lis­mo do es­pe­tá­cu­lo.

CC: O se­nhor che­gou a ser clas­si­fi­ca­do de men­sa­lei­ro...
RB: Pois é, um ab­sur­do. O que se­ria o men­sa­lão? Re­cur­sos que o Exe­cu­ti­vo te­ria re­pas­sa­do a in­te­gran­tes da base alia­da em tro­ca de vo­tos no Con­gres­so. Sou do PFL, o par­ti­do que mais faz opo­si­ção ao go­ver­no. Mui­to mais até do que o PSDB. Como pos­so ser cha­ma­do de men­sa­lei­ro? Há fal­ta de apre­ço pela exa­ti­dão e pela ver­da­de. Acre­di­to que um ci­da­dão tem o di­rei­to de man­ter sua ima­gem pre­ser­va­da se a ver­da­de está do seu lado. En­quan­to se des­cre­vem fa­tos, tudo bem. Mas al­guns se re­cu­sam a es­cre­ver os fa­tos. Con­si­de­ro isso uma má im­pren­sa. Como a im­pren­sa tem res­pon­sa­bi­li­da­de enor­me na for­ma­ção da cons­ciên­cia pú­bli­ca, é algo ex­tre­ma­men­te ne­ga­ti­vo. Isso es­ta­be­le­ce um fos­so. A so­cie­da­de mo­der­na só exis­te se a im­pren­sa me­re­ce gran­de con­fian­ça da po­pu­la­ção.

CC: A res­pos­ta re­me­te a ou­tro pon­to de seu dis­cur­so, quan­do o se­nhor aler­ta: “Des­con­fiem des­sa agen­da mo­ra­lis­ta”. A quem in­te­res­sa essa agen­da?
RB: Aos gru­pos que con­tro­lam o Es­ta­do bra­si­lei­ro, in­de­pen­den­te­men­te de quem es­te­ja no go­ver­no. São her­dei­ros dos pri­vi­lé­gios se­cu­la­res que o Es­ta­do dis­tri­bui. A so­cie­da­de bra­si­lei­ra é in­jus­ta des­sa for­ma por­que o Es­ta­do é um agen­te da in­jus­ti­ça. Es­ses gru­pos não que­rem re­for­ma de coi­sa ne­nhu­ma. O mo­ra­lis­mo só in­te­res­sa aos gru­pos que que­rem mo­bi­li­zar o Es­ta­do bra­si­lei­ro, ou pelo me­nos o sis­te­ma po­lí­ti­co bra­si­lei­ro, para não dei­xar que ele ope­re com li­ber­da­de. Isso já acon­te­ceu ou­tras ve­zes. Quan­do o Jus­ce­li­no (Ku­bits­chek) co­me­çou a mu­dar o Bra­sil, aqui­lo as­sus­tou tre­men­da­men­te as eli­tes ur­ba­nas. O re­sul­ta­do foi a cria­ção de uma sé­rie de es­cân­da­los que a his­tó­ria pro­vou ser com­ple­ta­men­te in­fun­da­da, in­con­sis­ten­te e fal­sa. To­dos os per­so­na­gens mor­re­ram po­bres. De­pois veio o quê? Jâ­nio Qua­dros, apoia­do pela opi­nião pú­bli­ca. Opi­nião cons­truí­da pelo (jor­na­lis­ta Car­los) La­cer­da, pela UDN nos gran­des cen­tros ur­ba­nos. Em São Pau­lo, in­clu­si­ve. Foi lá que ele ven­ceu. E deu no quê? De­sor­ga­ni­za­ção, po­pu­lis­mo e aven­tu­ra. De­pois do Jâ­nio, veio o gol­pe mi­li­tar. Como ta­char de cor­rup­to um par­ti­do in­tei­ro, o sis­te­ma de for­ças in­tei­ro? Isso é fal­so. Há po­lí­ti­cos que des­viam de con­du­ta no PT, no PFL, no PSDB. A agen­da do mo­ra­lis­mo não leva a nada. Ou leva a coi­sas pio­res.

CC: O par­ti­do do se­nhor é uma das for­ças que ali­men­tam essa sa­nha mo­ra­lis­ta.
RB: Não é de hoje que digo que o ca­mi­nho de des­cons­truir mo­ral­men­te o ad­ver­sá­rio é um equí­vo­co. Essa des­cons­tru­ção glo­bal do go­ver­no Lula e do PT não é boa para o Bra­sil. Di­vir­jo do go­ver­no Lula não pe­los pa­drões mo­rais, mas pe­las op­ções po­lí­ti­cas equi­vo­ca­das. Tam­bém pela in­com­pe­tên­cia para li­dar com cer­tos pro­ble­mas. Acho que to­dos so­mos res­pon­sá­veis. A im­pren­sa e o sis­te­ma po­lí­ti­co.

CC: Mas a im­pren­sa atua em uma fai­xa pró­pria, se auto-ali­men­ta, não?
RB: Até cer­to pon­to. Isso é mais a im­pren­sa es­cri­ta, que gira em tor­no de um uni­ver­so li­mi­ta­do. Por isso afir­mo que a opi­nião pú­bli­ca é mui­to me­nor que o povo, por­que na ver­da­de exis­te um fos­so en­tre a so­cie­da­de bra­si­lei­ra como um todo e a opi­nião pú­bli­ca. A opi­nião pú­bli­ca são aque­las pes­soas que lêem jor­nais, re­vis­tas. São quan­tos? Um mi­lhão, dois, três. Quem lê o Es­ta­dão, a Fo­lha, o Glo­bo, a Car­ta­Ca­pi­tal?

CC: Aque­las 20 mil fa­mí­lias que têm apli­ca­ções nos ban­cos.
RB: Exa­ta­men­te, a Veja ven­de, sei lá, um mi­lhão de exem­pla­res... Mas, na ver­da­de, mui­ta gen­te as­si­na e nem lê. Para es­sas pes­soas, não im­por­ta que o Bra­sil con­ti­nue como está. Se o País con­ti­nuar a cres­cer a 3% ao ano, com taxa de ju­ros ele­va­da, em par­ce­ria com o mun­do eco­nô­mi­co, elas vão con­ti­nuar fe­li­zes. Para elas, não pre­ci­sa mu­dar qua­se nada. E por quê? Porque elas vi­vem à cus­ta do Es­ta­do. O dis­cur­so mo­ra­lis­ta ser­ve ma­ra­vi­lho­sa­men­te bem por­que se põe uma cor­ti­na de fu­ma­ça. Imo­bi­li­zar o PT no mo­ra­lis­mo é uma be­le­za. Mas isso terá con­se­qüên­cias gra­ves. O de­ba­te elei­to­ral ago­ra será hor­rí­vel.

CC: E di­mi­nui a mar­gem de um go­ver­no para em­preen­der mu­dan­ças.
RB: A mar­gem será mí­ni­ma. Se de­pen­der do apoio da opi­nião pú­bli­ca, você não faz a re­for­ma da Pre­vi­dên­cia, não faz ne­nhu­ma re­for­ma tri­bu­tá­ria jus­ta. Por­que a jus­ta mexe em pri­vi­lé­gios que eles que­rem man­ter in­to­ca­dos. A opi­nião pú­bli­ca só é a fa­vor de coi­sas su­per­fi­ciais, como o ne­po­tis­mo. Tudo bem lu­tar con­tra. Mas, com ou sem ele, você não al­te­ra um gra­ma. Isso é me­nos que um sa­té­li­te de Plu­tão na Via-Lác­tea, em todo o Uni­ver­so. Uma so­cie­da­de só con­se­gue pro­gre­dir quan­do é ca­paz de iden­ti­fi­car os ver­da­dei­ros pro­ble­mas, quan­do os re­co­nhe­ce. Es­ses não são os ver­da­dei­ros pro­ble­mas do Bra­sil. São des­vios mo­rais a ser coi­bi­dos, mas não me­re­cem todo esse des­ta­que, por­que isso não muda nada. São fal­sas ques­tões.

CC: Isso mu­da­ria como?
RB: Es­ses epi­só­dios de ago­ra se­rão sen­ti­dos a lon­go pra­zo. No­vas li­de­ran­ças po­lí­ti­cas te­rão de sur­gir. É um pro­ces­so len­to, com ou­tros per­so­na­gens. Há 25 anos cres­ce­mos a uma mé­dia de 2,3% ao ano. Um quar­to de sé­cu­lo, uma ge­ra­ção in­tei­ra. Não vejo ho­ri­zon­te pela fren­te. Uma das ra­zões de eu não que­rer se­guir na vida po­lí­ti­ca é um pro­tes­to pes­soal con­tra a in­jus­ti­ça que so­fri. A ou­tra é que não vejo qual pa­pel cons­tru­ti­vo pos­so ter na se­qüên­cia dos acon­te­ci­men­tos que vi­rão.

CC: A re­cu­pe­ra­ção do pre­si­den­te Lula nas pes­qui­sas se­ria um exem­plo da dis­so­cia­ção en­tre o povo e a opi­nião pú­bli­ca?
RB: Re­mé­dio em dose de­mais aca­ba fa­zen­do efei­to con­trá­rio. Os ci­da­dãos con­fun­dem, não dis­tin­guem mui­to Lula do PSDB, do PFL. A maio­ria não sabe bem. Falo do povo. Na opi­nião pú­bli­ca, Lula está mui­to mal, mas en­tre o res­to da po­pu­la­ção, não. Essa agen­da mo­ra­lis­ta igua­lou to­dos por bai­xo. Não acho que te­nha sido a opo­si­ção que criou isso. Foi a in­com­pe­tên­cia do go­ver­no de li­dar com a ques­tão. Mas, de qual­quer for­ma, o País não ga­nha nada com isso. Nos tem­pos do (ex-pre­si­den­te Fer­nan­do) Col­lor, todo mun­do re­pe­tia o bor­dão “va­mos pas­sar o Bra­sil a lim­po”. O Bra­sil de­pois do Col­lor fi­cou me­lhor? As coi­sas fun­da­men­tais mu­da­ram? Mu­dou a ma­nei­ra de fa­zer ne­gó­cios, de rea­li­zar obras pú­bli­cas? Não acho que se te­nha de pas­sar o País a lim­po. É pre­ci­so trans­for­mar a na­ção. O que cau­sa a imo­ra­li­da­de é a pro­fun­da de­si­gual­da­de.

CC: O se­nhor é par­la­men­tar res­pei­ta­do, com uma lon­ga fi­cha de ser­vi­ços pres­ta­dos ao Con­gres­so. Por que tão pou­cos saí­ram em sua de­fe­sa pu­bli­ca­men­te?
RB: Medo. Essa agen­da do mo­ra­lis­mo é apa­vo­ran­te, um mons­tro. Al­guns jor­na­lis­tas dis­se­ram em se­gre­do que es­ta­vam tor­cen­do por mim. Mas, na hora de es­cre­ver, não ti­ve­ram co­ra­gem de as­su­mir essa po­si­ção. A não ser o Jâ­nio de Frei­tas, um ca­ma­ra­da aci­ma de qual­quer coi­sa e que não tem medo de nada. Para a ci­vi­li­za­ção do es­pe­tá­cu­lo, a ino­cên­cia não cau­sa ne­nhum im­pac­to, ne­nhum cho­que. Ata­car um de­pu­ta­do sim, e quan­to me­lhor e mais puro ele for, mais vis­to­so será o ata­que. Vira tro­féu. Como diz a Han­nah Arendt, isso não che­ga a ser um pro­ble­ma, por­que pro­ble­ma tem so­lu­ção. É uma rea­li­da­de com a qual te­mos de vi­ver. Para en­fren­tar, é pre­ci­so ter ho­mens pú­bli­cos co­ra­jo­sos. E isso está em fal­ta. Hou­ve um tem­po em que exis­tia La­cer­da, Jus­ce­li­no, Ulys­ses (Gui­ma­rães), Tan­cre­do (Ne­ves), o (Leo­nel) Bri­zo­la. Eles iam além da cor­ren­te. Ca­mi­nha­vam jun­to com a cor­ren­te, mas iam além dela. Hoje você não tem lí­de­res que se­jam ca­pa­zes de sair da cor­ren­te.

CC: O se­nhor acre­di­ta na exis­tên­cia do men­sa­lão?
RB: Mi­nha im­pres­são é a de que real­men­te exis­tiu al­gum me­ca­nis­mo em tor­no do go­ver­no para fi­nan­ciar par­ti­dos alia­dos. Ago­ra, para pa­gar men­sal­men­te de­pu­ta­dos para vo­tar, não acre­di­to. Aca­ba­ram des­vian­do o foco das in­ves­ti­ga­ções. No fim, es­ta­vam dis­cu­tin­do a mi­nha cas­sa­ção, que sou da opo­si­ção, e de de­pu­ta­dos do PT. Per­gun­to: qual a ra­zão que o go­ver­no te­ria para pa­gar me­sa­das a par­la­men­ta­res do PT? O (Pro­fes­sor) Lui­zi­nho, lí­der do go­ver­no na Câ­ma­ra, pre­ci­sa­va re­ce­ber di­nhei­ro para de­fen­der o Exe­cu­ti­vo? No meio da cri­se mis­tu­rou-se tudo, até por­que não se po­dia se­pa­rar. Se co­me­ça a se­pa­rar, fica ra­cio­nal. Se ela for ra­cio­nal, aqui­lo dei­xa de ser um ins­tru­men­to po­lí­ti­co. Ven­do o no­ti­ciá­rio e fil­tran­do os exa­ge­ros, pa­re­ce que real­men­te hou­ve re­mes­sas de di­nhei­ro para par­ti­dos, que usa­vam para fa­zer po­lí­ti­ca. Mas não na­que­la di­men­são que o Ro­ber­to Jef­fer­son de­nun­ciou. Não tem como ad­mi­nis­trar um es­que­ma que paga men­sal­men­te a de­pu­ta­dos, isso não exis­te. Só pe­gou pelo inu­si­ta­do, pela di­ver­são. Vi­rou algo ca­ri­ca­to. A ca­ri­ca­tu­ra mar­ca mais do que o re­tra­to.

CC: No ano pas­sa­do, o lí­der do Par­ti­do Re­pu­bli­ca­no no Con­gres­so dos Es­ta­dos Uni­dos re­nun­ciou após a des­co­ber­ta de que ele ha­via re­ce­bi­do cer­ca de 20 mil dó­la­res via cai­xa 2. O se­nhor, mes­mo que in­di­re­ta­men­te, está en­vol­vi­do em um caso de cai­xa 2. Não se­ria o caso de re­nun­ciar?
RB: Não usei o di­nhei­ro para mim ou na mi­nha cam­pa­nha. Cap­tei para o meu par­ti­do. Não há cri­me fis­cal, ne­nhum im­pos­to dei­xou de ser pago. Nos Es­ta­dos Uni­dos, fi­cou com­pro­va­do que o lí­der re­ce­beu uma con­tri­bui­ção em tro­ca de um po­si­cio­na­men­to par­la­men­tar. Se fi­cas­se pro­va­do que a Usi­mi­nas foi be­ne­fi­cia­da em qual­quer de­ci­são no Con­gres­so da qual eu te­nha par­ti­ci­pa­do, se­ria o caso de uma cas­sa­ção ins­tan­tâ­nea. Não há ne­nhum. Re­pas­sei a con­tri­bui­ção para o par­ti­do co­brir par­te das des­pe­sas com pro­gra­mas elei­to­rais em Mi­nas Ge­rais. Não o de­cla­rei na mi­nha cam­pa­nha por­que não usei a con­tri­bui­ção.

CC: Por que o se­nhor ci­tou o obi­tuá­rio do ex-de­pu­ta­do Ricardo Fiú­za?
RB: O Fiú­za foi um de­pu­ta­do mui­to aci­ma da mé­dia. Na Cons­ti­tuin­te, que­ria-se fa­zer uma re­vo­lu­ção so­cia­lis­ta no Bra­sil. Se não fos­se o Cen­trão, essa Cons­ti­tui­ção te­ria in­via­bi­li­za­do o País. Eu es­ta­va do ou­tro lado, no PMDB. Ele foi um lí­der. Mas aca­bou acu­sa­do na CPI do Or­ça­men­to, so­freu um pro­ces­so de cas­sa­ção e aca­bou ab­sol­vi­do, com lar­ga mar­gem. Re­cen­te­men­te, quan­do ele mor­reu, li um obi­tuá­rio em um gran­de jor­nal. Não ha­via ne­nhu­ma li­nha so­bre a his­tó­ria dele, so­bre seu de­sem­pe­nho na vida pú­bli­ca. O tex­to ape­nas men­cio­na­va que ele ti­nha sido ab­sol­vi­do de uma cas­sa­ção por cau­sa de um acor­dão po­lí­ti­co.

CC: O se­nhor teme ser lem­bra­do da mes­ma for­ma?
RB: Não te­nho dú­vi­das de que se­rei, se, no dia da mi­nha mor­te, al­guém lem­brar que fui po­lí­ti­co.

 

Os principais personagens do ‘mensalão’: