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Política

Editorial

Lembranças do Arapuã

por Mino Carta publicado 03/02/2012 10h07, última modificação 06/06/2015 18h26
Topo com o ministro Aldo Rebelo e sou topado pelo governador Genro. Por Mino Carta
Ricardo Teixeira

Ricardo Teixeira, agora ex-presidente da CBF. Foto: Jorge Adorno/Reuters/Latinstock

Notável publicitário de tempos idos e bem vividos, Sergio de Andrade escrevia para a Última Hora uma coluna de excelente humor que assinava com o pseudônimo Arapuã. Naquele espaço, ele topava, tal era o verbo, com este ou aquele personagem e suavemente lhe expunha as lacunas. Por exemplo: “Topei o Mendonça...” Mendonça Falcão, presidente da Federação Paulista de Futebol. Não primava pela lida fácil com o vernáculo e coisas mais. Se a ele o Arapuã perguntasse a respeito da vitória de certo time, a figura em questão, entre seus alvos preferidos, poderia responder de bate-pronto: “Foi uma vitória de espirro”.

Pois no outro dia topei com Aldo Rebelo, o ministro do Esporte. Rebelo tem às suas costas uma longa e límpida vida de militante de esquerda e com ele há tempo mantenho uma relação muito amigável. Por causa disso, creio eu, me pergunta como enxergo as perspectivas da Copa à brasileira. Respondo temer a mamata de sempre, ou por outra, as perspectivas são as melhores, na minha visão, para Ricardo Teixeira, Joseph Blatter, empreiteiros e políticos. Concluo: “Melhor teria sido não entrar nesta”. Incrédulo, retruca: “Então, você pretenderia negar ao povo brasileiro uma das suas três maiores alegrias?”

Encarei-o entre atônito e perplexo, ele se apressou a declinar as outras duas: o carnaval e o dia da eleição, incomparável festa cívica. Perguntei-me que pensa de mim o amigo Rebelo. Se, como parece, me tem em boa conta, teria de me poupar desta retórica embolorada, diria mesmo insuportável, que o doutor Samuel Johnson condenaria como o patriotismo dos pilantras.

Únicas alegrias? E não seria o caso de oferecer ao povo razões para outras, decerto menos enganosas? Mesmo porque corremos o sério risco de precipitar o País em uma desilusão igual àquela sofrida em 1950 diante do Uruguai de Schiaffino e Obdulio Varela. Tudo menos alegria, foi choradeira sem-fim. O recente embate Santos-Barcelona deveria representar um forte alerta. O atual futebol brasileiro está longe de ser aquele das épocas felizes, e também deste ponto de vista, exclusivamente esportivo, a perspectiva não é exaltante.

Não topei outro personagem de peso, foi ele quem topou comigo. O ex-ministro da Justiça Tarso Genro, hoje governador do Rio Grande do Sul. À margem do Fórum Social de Porto Alegre, onde Cesare Battisti circulou em perfeita alegria ao anunciar seu próximo livro e agradecer o asilo ao primeiro-motor da concessão, o próprio Genro, o ex-ministro forneceu à mídia a sua versão dos protestos contra o aprazível sejour brasileiro proporcionado ao ex-terrorista. Disse Genro que quem se queixou pertence à categoria dos servidores pontuais de “um governo mafioso”. Aquele de Silvio Berlusconi, está claro. CartaCapital e o acima assinado sentiram-se atingidos. Manias de grandeza de nossa parte, quem sabe.

O ex-ministro deveria se dar ao respeito. A não ser que aceite ser catalogado na categoria dos ignorantes tropicais. Porque o Caso Battisti não é questão de governo, e sim de Estado, representado na Itália pelo presidente da República Giorgio Napolitano, figura de impecável perfil intelectual e moral. Porque Berlusconi nunca escondeu seu desinteresse pelo destino do ex-terrorista, inclusive em conversa com o então presidente Lula. Porque, como sublinha o importante jornalista italiano Gian Antonio Stella, o Brasil se abala a julgar a própria Justiça de um Estado Democrático de Direito, como foi e é a Itália, enquanto se mostra incapaz até hoje de condenar os torturadores dos seus autênticos, indiscutíveis anos de chumbo, entregue à ditadura dos gendarmes dos vetustos donos do poder medieval.

Stella é coautor de um livro intitulado La Casta (A Casta), que já vendeu mais de 1 milhão de exemplares. Focaliza -exatamente a política na era berlusconiana, grande vergonha peninsular que, aliás, CartaCapital nunca deixou de apontar. Não há como confundir Battisti, meliante do arrabalde romano que se tornou assassino em nome de uma causa equivocada, e claramente não compartilhada ao sabor de um oportunismo de ocasião, com autênticos sonhadores da liberdade e da igualdade.

É do conhecimento até do mundo mineral que o desfecho do Caso Battisti foi ação entre amigos em um país onde os governantes confundem poder público com privado e subordinam interesses nacionais às conveniências de uma facção. O que, tal é minha crença, ainda será provado, com todas as conexões com outras mazelas dos anos recentes e nem tanto.

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