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Eleições 2010

Lances de um debate

por Redação Carta Capital — publicado 09/08/2010 17h00, última modificação 12/08/2010 10h40
Serra, claro e monocórdio, Dilma, prolixa e nervosa, Marina, como sempre. A surpresa coube a Plínio Sampaio
Lances de um debate

Serra, claro e monocórdio, Dilma, prolixa e nervosa, Marina, como sempre. A surpresa coube a Plínio Sampaio. Foto: Luiz Vieira/AFP

Primeiro debate presidencial das eleições de 2010 teria o efeito de sonífero se não fosse pelo candidato do PSOL Plínio Arruda Sampaio

Um único, escasso momento em que prevaleceu o senso de humor. Deu-se quando o candidato Plínio de Arruda Sampaio, paladino Orlando das causas sociais, disse ter entendido por que o candidato José Serra é como todo hipocondríaco: de fato não perde a oportunidade de falar em saúde. Também, como poderia ser de outra maneira? Serra foi no governo de Fernando Henrique Cardoso o ministro da Saúde mais badalado da história, a contar com as palmas febris da mídia nacional.

O tom do tucano é monocórdio, não destoaria na boca de uma personagem hitchcoquiana destinada à suspeita do espectador de sorte a manter o suspense até as últimas tomadas. Em compensação ele foi bem mais preciso e direto do que a candidata Dilma Rousseff. Fosse o debate da Bandeirantes uma luta de boxe, não há sombra de dúvida, como disse mais uma vez a escolhida de Lula, que os jurados lhe dariam a vitória no primeiro round, perdão, no primeiro dos cinco segmentos do evento, histórico conforme o moderador Boechat.

Dilma estreou sem esconder o nervosismo, melhorou no decorrer do período, mas se perdeu algumas vezes ao repisar em assuntos já enfrentados, e nem sempre da melhor forma, ou ao desperdiçar a oportunidade de uma reação mais incisiva a questões malpostas ou a argumentos capengas de Serra. Marina Silva cumpriu sua tarefa com diligência de educanda na véspera de pronunciar os votos, o que lhe permitiu instantes de emoção carregados de algum pieguismo.

Fica para Plínio o papel mais singular, surpreendente. Na festa do Oscar seria escolhido como o melhor coadjuvante do gênero capaz de roubar a cena dos protagonistas ao definir uma figura excêntrica e bem-humorada mesmo ao referir-se a situações trágicas. Resta verificar até que ponto este primeiro debate dos candidatos à Presidência vai incidir sobre as pesquisas.

Enquanto os marqueteiros medem os efeitos do encontro sobre os eleitores, as campanhas vão refletir. Do lado de Dilma, talvez seja o caso de discutir se o grande pecado não foi o excesso de treinamento.

Nas últimas semanas, Dilma foi submetida a um intensivão: reuniões com ministros e aulas de linguagem e postura com a consultora Olga Curado. Presa a um script, a candidata perdeu a espontaneidade. Antes criticada pelo excesso de citações a números, Dilma não conseguiu manuseá-los de forma a marcar a diferença do atual governo com o anterior.

Já Marina Silva deve ter percebido o quanto é difícil firmar-se como uma terceira via. Sua posição foi, aliás, alvo do sarcasmo de Plínio, que a considerou conciliadora em excesso e a chamou de “ecocapitalista”.

Não fossem as raras provocações do candidato do PSOL, o debate teria o efeito de um sonífero. Emoção mesmo, só no jogo do Morumbi que classificou o Internacional à final da Copa Libertadores da América, apesar da vitória de 2 a 1 do São Paulo. Partida que a Globo fez questão de transferir para quinta-feira só para melar o programa da Band.

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