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Kassab monta no cavalo de Troia

por Soraya Aggege — publicado 28/03/2011 10h09, última modificação 30/03/2011 12h59
A nova legenda do prefeito paulistano nasce sob desconfiança de tucanos e petistas. Por Soraya Aggege
Kassab monta no cavalo de Troia

Legenda do prefeito nasce sob desconfiança de tucanos e petistas. Por Soraya Aggege. Foto: Epitácio Pessoa/AE

O novo partido de Gilberto Kassab, prefeito de São Paulo, provocou um consenso aparentemente improvável entre tucanos e petistas. Nas duas legendas, a desconfiança quanto aos objetivos do PSD é absolutamente idêntica. Em resumo, a empreitada de Kassab não passaria de um cavalo de Troia para quem se aventurar ao seu lado. Pesa o ecumenismo da legenda. Ao mesmo tempo que jura fidelidade eterna a José Serra, que o tirou da segunda divisão da política nacional, caminha rumo à base aliada de Dilma Rousseff, a quem tem dispensado repetidos elogios.

Mas nem o grupo não serrista do PSDB ou os chefes do PT paulista desconfiam de tanta generosidade. No mundo das aparências, funciona assim: Kassab nem acumularia tanto cacife popular que justifique se tornar objeto de desejo de um desses campos adversários. Recebeu sua pior avaliação, segundo recente pesquisa Datafolha (43% de rejeição) e enfrenta protestos frequentes pela capital paulista. Seu futuro partido, já comparado a uma “janela indiscreta” para driblar a lei da fidelidade partidária, tem atraído menos barões de votos que o esperado. Talvez o grande nome até agora seja o do vice-governador de São Paulo, Guilherme Afif Domingos. Para emendar, a infidelidade ficou cravada em seu DNA político desde as eleições de 1998, quando apoiou Paulo Maluf em vez de Mário Covas em São Paulo e depois ficou com Celso Pitta no lugar de Maluf. No drible, fechou com Serra, rachou o PSDB e derrotou Alckmin nas eleições municipais de 2008.
Ideologicamente, Kassab não dá linha à coerência. “Não somos de esquerda, de direita, nem de centro”, declarou recentemente. Sobre o conflito no ideário do PSD e de Kassab, Afif responde com ironia: “Esse negócio de centro, direita, esquerda é para parafuso, quando você está numa linha de montagem”. O PSD afirma, em seus mandamentos, que vai priorizar a defesa do capital privado, mas também fazer a inclusão social. Como poderá tentar esse discurso nas eleições, se na própria gestão o prefeito terceirizou para as ONGs todas as suas ações sociais?, pergunta o grande desafeto do momento, o deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ), ex-presidente do partido. Politicamente, também seria muito confuso: “Vai apoiar Dilma Rousseff, Alckmin, Serra e o papa também”, ironiza Maia.

No universo dos bastidores, funciona de outro jeito: Kassab interessa a todos porque é hoje a única peça do tabuleiro capaz de desestabilizar o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, o que seria de grande valia ao PT e à porção do PSDB ligada a Serra e hoje deslocada do poder. Simultaneamente à saída oficial do prefeito paulista do DEM, Alckmin reforçava sua força no PSDB paulista, ao tomar o controle dos diretórios estadual e da capital paulista. No plano nacional, o senador Sérgio Guerra deve ser reeleito presidente e Serra terá, no máximo, um cargo, assim como Aécio Neves, em um possível conselho político, a ser criado em maio.
Não há unanimidade no tucanato sequer sobre a candidatura de Serra a prefeito de São Paulo em 2012. Em tese, o ex-governador não estaria interessado na disputa e teria informado sua decisão a vários alckmistas. Mas a leitura desse grupo tem sido outra. Ao “recusar” a possibilidade, Serra estaria em busca de aumentar o seu passe. A turma de Alckmin preferiria lançar como candidato Bruno Covas, secretário do Meio Ambiente, ou José Aníbal, da Energia. Um cacique tucano explica: o atual governador decidiu tentar a reeleição em 2014, antes de tentar disputar novamente a Presidência. E estaria firme na disposição de apoiar Aécio Neves. Aos 69 anos e isolado, Serra só teria chances de voltar à cena política pelas urnas, se for eleito prefeito no próximo ano. Eis o problema, segundo o dirigente. As fissuras internas provocadas pela candidatura à Presidência não
permitem a Serra almejar amplos apoios no PSDB. Ele precisaria de Kassab, mas... O PSD pode provocar estragos na seara de Alckmin. Jogo intricado.
O atual governador analisou com seus apoiadores que a volta de Lula a São Paulo fortalecerá o petismo em seu berço, onde o PSDB reina absoluto há 16 anos. A estimativa é de que o PT estará no segundo turno no município, com qualquer nome que apresentar. A situação também cacifa os petistas para uma vitória em 2014 no estado. Portanto, para se reeleger, Alckmin precisará arrumar a casa deixada por Serra. A lista dos problemas não é pequena: Serra ampliou gastos de gestão, não desassoreou os rios Tietê e Pinheiros, aumentou os custos da saúde, esticou as defasagens salariais nas polícias e deixou problemas no Rodoanel. Por isso, a atual gestão tem revisto contratos e projetos do antecessor. “Já temos problemas demais com essas bombas de efeito retardado. Agora vem esse solapamento político via Kassab”, reclama uma liderança tucana.
Alckmin acredita na necessidade de ampliar seu leque de apoios, principalmente na capital, onde é mal avaliado. Não tem poupado esforços para fechar aproximações com as centrais sindicais e os movimentos, frequentes em seu gabinete neste ano. Também terá de compor seu governo com novas acomodações, tanto para o velho DEM quanto para os novos seguidores de Kassab. Não fará nenhum movimento contra o prefeito. Também manterá os secretários de Serra em seu governo. “O importante nisso tudo é a unidade partidária e não medirei esforços nesse sentido”, afirmou o governador a CartaCapital durante a cerimônia que lembrou a morte de Mário Covas, seu padrinho político.
“O motivo de Kassab é disputar com Alckmin e esse é o mesmo jogo do Serra. O Afif disse ao governador de manhã que não disputará a eleição, mas Kassab o lançou candidato à tarde. Que jogo é esse? Isso é um cavalo de Troia e estamos tentando achar saídas no nosso campo, sem tirá-los da área. Vamos ter de negociar muito internamente e ampliar a nossa base de apoio. Já estamos trabalhando nisso”, avalia outro líder tucano.
No PT, a análise é parecida: “Kassab precisa disputar o espaço de Alckmin, para que Alckmin precise de Serra. Com Serra eleito prefeito de São Paulo, em 2012, Kassab terá máquina para disputar o governo de São Paulo em 2014, contra Alckmin. E Serra, que não pretende mofar por quatro anos no esquecimento, também poderá reunir forças para enfrentar seu próprio partido”, analisa um petista influente.

O jogo de Kassab incomoda, mas interessa muito ao PT e ao governo federal, empenhados em rachar o campo da direita e, se possível, de toda a oposição. Politicamente é positivo ter o prefeito da maior cidade do País na base aliada, ao menos até as eleições. A fatura começa, porém, a ser discutida. Os petistas decidiram ouvir as recorrentes queixas de velhos aliados que andam descontentes com a sigla e flertam com o PSD. Já foram realizadas diversas reuniões com representantes do PDT, PCdoB e PSB. “Estamos tentando reduzir a tensão com projetos políticos para os aliados mais rebeldes, porque o risco que Kassab nos traz é muito alto. O PT não pode apenas trazer o Kassab e o Afif para a base e ficar assistindo. Temos de trabalhar muito, politicamente”, explica um graduado articulador petista. Para o Planalto, as intenções de Kassab são claras: “Sabemos o que há dentro do cavalo de Kassab. Não há nenhuma ruptura dele com o projeto do Serra. Mas vamos encarar, pois temos táticas para isso”, disse outra liderança.
Mas nem todo mundo anda desconfiado. Além dos citados PDT, PSB e PCdoB, lideranças do PPS e do PV, afinadas com o PSDB, articulam mudanças a partir do confuso caminhar das forças políticas em torno de Kassab no plano estadual. “Com Serra ou não no colo, poderemos apoiar uma força que permita a ampliação dos nossos planos em São Paulo”, afirma um líder do PSB. O PDT faz análise semelhante, mas prefere o campo de Alckmin.
O PPS considera que os movimentos do prefeito de São Paulo, mesmo que bem-intencionados, poderão acabar por atingir o futuro político de Serra. “Se ele tivesse fechado com o PMDB, seria compreensível e muito mais claro. Isso vai é gerar mais divisões, como aconteceu em 2008”, analisa o deputado federal Roberto Freire (PPS-SP).
Rodrigo Maia define o PDS como uma “janela indiscreta” para acomodações políticas. Para ele, a nova legenda será ruim para a oposição. “Partido é uma parte da (representação da) sociedade. Nós temos uma origem à direita, um viés liberal. E Kassab e Afif, não têm mais? O discurso deles continua o nosso discurso, absolutamente liberal. Podem se movimentar, mas levam isso na carne.”

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