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Política

Conflito

Kadafi fora do bunker

por Wálter Maierovitch publicado 02/03/2011 15h33, última modificação 02/03/2011 17h05
Ditador líbio faz festa pelos 34 anos da “Jamahiria". Alarme: tragédia humanitária: por dia, 10 mil foragidos chegam à fronteira com a Tunísia. Papa manifesta preocupação e França congela bens. Por Wálter Maierovitch. Foto: AFP
Kadafi fora do bunker

Ditador líbio faz festa pelos 34 anos da “Jamahiria". Alarme: tragédia humanitária: por dia, 10 mil foragidos chegam à fronteira com a Tunísia. Papa manifesta preocupação e França congela bens. Por Wálter Maierovitch. Foto: AFP

--1. Muammar Kadafi deixou o seu bunker para comandar o 34º.aniversário da criação da “Jamahiria”, que, segundo afirma, é o órgão que efetivamente governa a Líbia.

A televisão estatal mostrou uma platéia formada por fiéis a Kadafi e transmitiu o discurso do coronel tirano.

Kadafi, com a sua conhecida pose de farsante, disse que o Ocidente ainda não percebeu que ele não tem nenhum cargo. Frisou que é apenas consultado pelo povo.

Sem corar, Kadafi destacou que a Líbia é governada somente pelo povo e, por ser assim, os líderes estrangeiros que pedem a sua renúncia nada entendem de um sistema que é o único verdadeiramente democrático. E ele pergunta: como renunciar, se não tenho poder e nem cargo ?

Nessa sua fala, Kadafi procura ridicularizar José Manuel Durão Barroso, presidente da União Européia que, na manhã de hoje, pediu para que ele renuncie ao governo da Líbia.

Numa passagem do discurso e com ar dramático disse: - “Não temos um regime presidencialista. O nosso sistema é diferente. Todo o poder está nas mãos das comissões populares . O povo é o verdadeiro guia do país. Desde 1977 não tenha mais poderes, nem político e nem administrativo”.

--2. Enquanto exercitava a sua conhecida retórica, as forças que lhe são fiéis, com auxílio de mercenários contratados por 30 mil dólares, iniciaram uma ofensiva para reconquistar Brega, na antiga região da Cirenaica e sob ordens do governo de transição liderado por Mustafá Abdel Jalil (x-ministro da Justiça de Kadafi). Em Brega estão os poços petrolíferos da Sirt Company.

--3. Sem mais contar com o apoio do premier “bunga-bunga” Silvio Berlusconi, o coronel-rais atacou a Itália, que, na sua visão, endossa um grande “insulto internacional” à história do país.: - “Já fizemos a Itália (antiga colonizadora da Líbia) dobrar a coluna vertebral (sinal de reverência) , pos devia desculpas pelo período colonial. Nos arrependemos das relações tidas com eles depois. A Itália deve pagar (indenização pela exploração colonialista) à Líbia”.

Não só no governo Berlusconi a Itália manteve relações próximas com a Líbia de Kadafi. Desde o tempo de Giulio Andreotti, sete vezes primeiro ministro. Essas relações próximas nunca foram abandonadas pelos antigos chefes de governo Massimo D´Alema, Lamberto Dini e Romano Prodi.

Nos anos 70, o dinheiro de Kadafi evitou a falência da FIAT (Fábrica Italiana de Automóveis de Turim).

A Líbia aportou 470 milhões de liras (antiga moeda) e salvou a FIAT.

Hoje, a Líbia não mais possui participação na FIAT.

Nos anos de 2008 e 2009, Kadafi, pelo banco central da Líbia, injetou 600 milhões de euros no italiano Unicred (segundo maior banco da Itália).

Kadafi mandou comprar em bolsa 7,5% das ações da Juventus: por isso o seu filho lá treinou e encontrou um espaço para alguns jogos em times da terceira divisão do campeonato italiano de futebol.

--4. PANO RÁPIDO. Kadafi não só resiste. Ele aposta numa solução negociada. Para tanto, assiste à “catástrofe humanitária” (expressão usada por Moez Dachraui, responsável pela imigração na Tunísia) que ocorre na fronteira entre Líbia e Tunísia e, também, na ilha italiana de Lampedusa, que recebe os imigrantes que fugiram por mar.

Por dia na fronteira da Tunísia, segundo Dachraui, chegam 10 mil imigrantes da Líbia.

Enqunto o papa Ratzinger expressa preocupação com a situação e a Espanha anuncia o congelamento de bens, o coronel Kadafi aproveita para tirar vantagem da tragédia. De um tirano, nada causa surpresa.

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