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Cultura

Crônica do Villas

Judith

por Alberto Villas publicado 16/04/2015 04h06
O dia em que não conheci, apenas vi, uma mulher revolucionária
Morio / WikiCommons
Ouro Preto

A Igreja do Carmo e o Museu da Inconfidência, em Ouro Preto

Quando aquele inverno chegou, eu me preparava para entrar na Faculdade de Filosofia, arrumava minha mochila de couro fedendo a bode, comprada no Mercado Modelo de Salvador, e enrolava o cobertor para enfrentar o frio nas montanhas de Minas Gerais.

Todo início de inverno, eu pegava a estrada bem cedinho, antes do sol nascer. Ia subindo a BR-3, de vez em quando olhando pra trás para checar se, lá longe, não vinha alguma Brasília, algum Opala, algum Polara, algum filho de Deus disposto a me dar carona até Ouro Preto.

Levava na mochila os meus ídolos, de Puig a Fuentes, de Cortázar a Rulfo, de Borges a Galeano. Algumas roupas comuns, luvas, uma calça americana desbotada, um tênis Bamba, um casaco de general.

Pingando daqui e dali, acabava chegando a uma Ouro Preto úmida, encravada entre musgos e pedras. Ficava hospedado em pensões baratas, comia pratos feitos, escrevia poemas e, com a minha pequena Pentax, fotografava os bichos grilos que, como eu, perambulavam pela cidade, tomando um golinho de cachaça pra segurar o rojão.

Naquele junho, nuvens de chumbo cobriam a cidade iluminada pelas luzes vermelhas das Veraneios que nos vigiavam. Em contraste com um clima de Copa que chegava, ouvíamos no radinho de pilha uma canção que dizia assim: “Noventa milhões em ação, pra frente Brasil, salve a seleção!”

Quando entrei na sala, os dois estavam lá. Ela, muito magra, cabelos escorridos, sentada no chão, tomada pelo frio, quase toda encoberta por uma manta preta com bordados bolivianos, acho que um poncho. Ele, cabeludo, com uma camisa listrada, um boné na cabeça e, nos pés, um All Star vermelho dos meus sonhos.

Falavam inglês e tudo ia sendo registrado num gravador com uma capa de couro preto, no chão de ladrilhos, em cima de dois tijolos. O meu inglês sempre foi muito ruim e, em 1970, era pior.

A performance do Living Theatre, do casal Julien Beck e Judith Malina, ainda ia demorar um pouco e, por isso, fui caminhar pelas ruas de pedras irregulares, sei lá, acho que fui comer um feijão com arroz num daqueles sobrados brancos com janelas azuis.

Quando voltei, duas Veraneios ainda estavam piscando na porta do Teatro, mas eles já tinha ido embora, presos. Era assim em 1970, a polícia chegava, pegava, muitas vezes matava e comia. Feito carcará.

A polícia levou Julien e Judith, sem que eu ao menos dissesse good night pra eles. O motivo foi um pequeno baseado, encontrado na bolsa de lona, embrulhado nos seus trapos, em meio a livros com poemas revolucionários de Julien.

Not interested in legalizing marijuana
Not interested in electing a better police
Commissioner
We do not need restrictive law
It’s not that no one kills
It’s that everyone lives

Os dois foram levados para Belo Horizonte, fiquei sabendo mais tarde, onde foram fichados e deportados. Hoje, ficaram apenas as recordações.

Um câncer levou Julian Beck em 1985 e outro câncer levou, essa semana, Judith Malina, aquela mulher maravilhosa, cuja única lembrança que tenho é a de uma mulher muito magra, cabelos escorridos, sentada no chão de um casarão em Ouro Preto, sentindo frio, enrolada numa manta preta com desenhos bolivianos, sim, era um poncho. Uma mulher que sonhava em fazer uma revolução no palco e fez. Em mim.