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Jogo para profissionais no RS

por Paulo Cezar da Rosa — publicado 24/05/2010 17h34, última modificação 07/09/2010 17h37
Enquanto Lula entra na disputa internacional, Dilma cresce inexoravelmente nas pesquisas e Serra desespera-se aos poucos, a eleição no Rio Grande do Sul retoma seu curso tipicamente gaúcho

Enquanto Lula entra na disputa internacional, Dilma cresce inexoravelmente nas pesquisas e Serra desespera-se aos poucos, a eleição no Rio Grande do Sul retoma seu curso tipicamente gaúcho

O desespero tucano - Quem já fez campanha eleitoral sabe que um erro nunca anda sozinho. Errando no diagnóstico, tudo começa a não dar certo.

Esse parece ser o problema do tucano José Serra no Rio Grande do Sul. Depois de ter feito um roteiro com problemas no Estado – Serra, há duas semanas, visitou o interior gaúcho pelas mãos de dirigentes secundários do PMDB – e não ter conseguido reunir com mais de dois deputados da bancada estadual do partido de José Fogaça, o tucano retornou ao Estado para reunir com os deputados peemedebistas na última quinta feira. Fez isso sem comunicar o PSDB gaúcho, passando a ideia de desprezo com relação à candidatura de Yeda Crusius e seus apoiadores.

Serra, faz tempo, busca o apoio do PMDB gaúcho à sua candidatura. Para isso, precisa do apoio de José Fogaça. Este, por sua vez, talvez até preferisse apoiar o tucano e não Dilma, mas são muitos os motivos para o conduzir aos braços de Lula. Seu vice, Pompeu de Matos (PDT) faz defesa aberta da ministra. Mas o motivo mais forte, agora, é o PMDB ter Temer como vice de Dilma. Fogaça não é bobo. Sabe que o eleitor gaúcho tem espírito de time. Se Temer é vice de Dilma, fica inexplicável apoiar Serra. E se há uma coisa que o eleitor gaúcho não tolera é traidor e quinta-coluna.

Os tucanos nacionais de alta plumagem parecem não entender essa realidade. Ao tentarem desesperadamente buscar o apoio de quem não pode apoiá-los, os serristas podem estar pondo fora o apoio de quem sempre esteve com Serra.

Cenário local - Enquanto a luta nacional se desenrola, no cenário gaúcho a luta política parece retomar seu curso já clássico. O PSDB e o PP depois de uma refrega acerca de coligarem-se ou não na chapa proporcional, estão selando uma aliança em torno à candidatura à reeleição da governadora Yeda Crusius. O deputado Beto Alburquerque, que alimentava o sonho da candidatura da renovação, desistiu do projeto e prepara seu partido para acompanhar o PCdoB no apoio a Tarso Genro, do PT. O PTB, que lançou a candidatura do Augusto Lara para governador -quando o candidato natural seria o senador Sergio Zambiasi, que desistiu de concorrer a qualquer coisa-, deve ser o próximo partido a recuar do sonho da terceira via no Rio Grande do Sul. O destino do PTB, conforme parcela das bases, seria apoiar Fogaça. O chefe maior do partido, o senador Zambiasi, parece querer apoiar Tarso.

Todas essas definições, agora, contudo, são secundárias. O jogo principal já está definido e resta aos partidos com menos peso o papel de coadjuvantes. Ou seja, nestas últimas semanas as eleições no estado estão ficando mais claras. E o cenário está se consolidando em torno as três candidaturas que têm peso.

- Tarso Genro, do PT, ex-ministro de Lula, tendo como vice uma indicação do PSB, ou um quadro do PCdoB, setores do PTB e outras siglas menores, de um lado.

- José Fogaça, do PMDB, tendo como vice o deputado Pompeu de Matos, do PDT, com apoio do PPS e outras siglas menores, de outro.

- E tentando disputar a reeleição, Yeda Crusius, do PSDB, tendo como vice um quadro do PP, com apoio da máquina do Estado.

- Além disso, para ilustrar o cenário, o PSOL deverá lançar o vereador Pedro Ruas, candidato a crescer junto aos descontentes do PT sobre o tema da ética.

As possibilidades de mudança no tabuleiro das candidaturas e das alianças hoje são pequenas. A cada dia que passa, o jogo eleitoral gaúcho exclui os principiantes e a ponte entre os desejos dos pretensos candidatos e os eleitores dia 03 de setembro se torna mais estreita e difícil de pavimentar.

Um quadro de dificuldades - Uma amiga, especialista em pesquisas, tem me dito que em Porto Alegre são reiteradas as manifestações nas qualitativas no sentido de impugnar todos os postulantes mais conhecidos. "O eleitor quer algo novo, mas também quer segurança, quer que o candidato tenha time". Eu acredito. O eleitor porto-alegrense ( e também o gaúcho ) tem sabido definir-se diante do que não quer, mas não tem claro o que quer. E a dificuldade dos candidatos e seus partidos tem sido não conseguir dialogar com esse sentimento.

Neste momento, tudo indica que o quadro deverá seguir a tradição gaúcha, ou seja, o eleitor terá duas opções viáveis e atores secundários tentando mudar o curso inexorável dos acontecimentos. Sem conseguir.
A ideia de votar no menos pior é péssima. Essa parece já ter sido a opção de voto em José Fogaça à reeleição há dois anos em Porto Alegre. Essa pode ser a noção por detrás do próximo governador, seja ele quem for.

Marketing e eleições -Tenho conversado com militantes políticos que tem tido contato com Dilma Roussef. Diversos, apoiadores de Dilma, tem me dito que a candidata precisa melhorar muito. A ideia que me passam é que Dilma precisa ser uma candidata que fale melhor, empolgue mais, tenha mais carisma, seja mais candidata.... Tenho dito a todos que se Dilma fizer isso e tornar-se uma "boa candidata", ela perde a eleição.
A força eleitoral de Dilma está exatamente em ser uma má política no sentido tradicional do termo. Ou seja, para ganhar do Serra, Dilma tem de continuar o que é: uma má candidata, sem carisma, sem discurso empolgante, sem respostas prontas, sem babados .....

Se isso é verdade, ou seja, se Dilma hoje se legitima e consegue ser alvo da transferência de votos de Lula exatamente por "não ser do ramo", as eleições gaúchas mais uma vez estarão na contramão do Brasil: no Rio Grande do Sul, todos os postulantes de peso são políticos profissionais. José Fogaça, Tarso Genro e Yeda Crusius são figurinhas carimbadas na política gaúcha.

Numa comparação livre, no Rio Grande do Sul, Yeda é Bush, Tarso e Fogaça são Hilary e não temos nenhum Obama. No Rio Grande do Sul, o candidato a Obama, o socialista Beto Albuquerque, não resistiu às pressões e saiu do páreo.

Enquanto isso, no Brasil, Serra é McCain ou coisa pior e Dilma é o pós-Obama - isso se o democrata norte-americano conseguir ser algo próximo do que tem sido Lula e encontrar a sua Dilma entre os quadros de seu governo.

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