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Ministério do Esporte

As últimas horas de Orlando Silva

por Redação Carta Capital — publicado 27/10/2011 08h58, última modificação 27/10/2011 10h28
O secretário-executivo Waldemar Manoel Silva de Souza é nomeado, enquanto governo analisa outros nomes do PCdoB

Durou pouco mais de uma semana o bombardeio sobre o ministro do Esporte, Orlando Silva. Acusado por um policial militar e por um pastor evangélico de liderar um esquema de desvios de verba de programas estatais para seu partido, o PCdoB, ele selou sua saída do governo em uma reunião com a presidenta Dilma Rousseff, nesta quarta-feira 26. É a sexta demissão de ministro em menos de dez meses do governo Dilma Rousseff – a quinta por corrupção.

“Decidi sair do governo, para que eu possa defender minha honra, o trabalho do Ministério do Esporte, o meu governo e o meu partido. Saio com o sentimento de dever cumprido”, disse em entrevista coletiva após o encontro.

Gilberto Carvalho, secretário da Presidência, já anunciou que a Dilma deverá nomear o secretário-executivo da pasta, Waldemar Manoel Silva de Souza, para o ministério.

Certo é que sai Orlando, fica o partido: um dos nomes naturais para substituí-lo é o deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP), ministro no governo Lula, mas que se distanciou do Planalto ao relatar o texto do novo Código Florestal na Câmara e manter pontos que desagradaram a presidenta.

Em suas últimas horas como ministro, Orlando Silva tentou emplacar uma agenda positiva para desviar o foco das suspeitas, mas tomou o contragolpe ao saber, na terça-feira 25, que havia se tornado alvo de um inquérito no Supremo Tribunal Federal para investigar os convênios do ministério. Outro golpe foi a suspensão, estudada pelo Planalto, dos repasses do ministério às entidades.

As principais suspeitas recaem sobre acordos com ONGs que recebiam dinheiro público e não cumpriam os serviços para os quais foram contratadas – entre elas a entidade presidida por João Ferreira Dias, policial que agora aponta irregularidades no governo.

Em sua defesa, Orlando Silva passou os últimos dias afirmando ter sido ele quem determinou as investigações no Ministério e os que o acusavam eram justamente aqueles com os interesses contrariados. Silva se justificava dizendo que, em sua gestão, o número de ONGs recebendo dinheiro do ministério havia sido enxugado.

Outras notícias vieram à tona, no entanto, e complicaram sua situação. Entre elas, a de que a ONG da mulher do ministro, Anna Cristina Lemos Petta, tinha contrato com a pasta.

Antes de cair, o ministro foi à tevê, durante a propaganda partidária do PCdoB, dizendo-se alvo de calúnia – o mesmo argumento usado em suas três aparições no Congresso em uma semana, a última sob o pretexto de falar sobre a Copa do Mundo de 2014. O evento esportivo, aliás, foi lembrado pelo agora ex-ministro em sua fala televisiva. “A Copa está aí”, disse, numa tentativa de mostrar que sua saída poderia afetar os preparativos para o Mundial.

E foi justamente a contestação de sua autoridade para lidar com os executivos do Mundial que tornou insustentável a sua manutenção no governo. Em meio ao tiroteio, Silva, alçado ao cargo por Lula, mas sem jamais ter se tornado o ministro dos sonhos de Dilma Rousseff, já não conciliava os interesses da Fifa e as broncas do Planalto, que desidratava a cada dia as atribuições de sua pasta.

Orlando Silva deixa o cargo sob pressão e sem que o Planalto tenha manifestado qualquer ato em seu apoio. Em sua defesa, a liderança do PCdoB na Câmara divulgou nota, na semana passada, exaltando o trabalho de Silva no ministério, exemplificado (na declaração) que na edição deste ano dos Jogos Pan-Americanos, em Guadalajara (México), o País enviou a sua maior delegação e tem um dos melhores desempenhos na competição. “Orlando teve um papel relevante para o Brasil sediar a Copa do Mundo e as Olimpíadas. Mas, as ações para garantir com eficácia e lisura a estes dois megaeventos, obviamente, contrariam interesses de grupos poderosos”, destacou a nota.

Também no site do ministério, as denúncias, que durante dias foram tema de respostas a reportagens publicadas no portal, haviam sido substituídas por notícias relacionadas ao Pan-Americano, numa nova demonstração de esforço para se criar uma agenda positiva. Em vão.

Após anunciar a saída do governo, Silva se defendeu novamente dizendo ter sido vítima de agressões sem provas concretas. "Eu manifestei [à Dilma Rousseff] minha revolta com esse linchamento público que vivi e a tranquilizei, afirmando que em poucos dias, em poucas semanas, seguramente, a verdade vai vir à tona.”

Antes do encontro com a presidenta, a cúpula do PCdoB havia se reunido, na sala da liderança do partido na Câmara, para discutir o futuro no ministério.

Em meio ao tiroteio, enquanto os sites noticiosos já sacramentavam a sua demissão do Ministério do Esporte, a única manifestação pública de Orlando Silva sobre seu futuro foi o anúncio de um almoço agendado com a mãe, Vanda, nesta quarta-feira 26.

O ministro usou o Twitter para despistar os que já choravam em seu túmulo. “Hoje meu almoço é especial, com D. Vanda, minha mãe, aniversariante. E ela veio da Bahia só para isso. Mulher guerreira, grande exemplo”, escreveu ele por volta das 13h10.

*Com informações da Agência Brasil

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