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Imprensa gaúcha adere ao Yedismo

por Paulo Cezar da Rosa — publicado 14/09/2009 14h55, última modificação 08/09/2010 14h56
No último domingo, chovia sem parar há quase uma semana em Porto Alegre. Em dias assim, o melhor a fazer é atualizar-se com relação à realidade.

No último domingo, chovia sem parar há quase uma semana em Porto Alegre. Em dias assim, o melhor a fazer é atualizar-se com relação à realidade.

A leitura dos jornais dominicais, entretanto, não ajudou nisso. Minha área de interesse é política, economia, variedades e, sempre, o que sai na capa. Como todos nós, costumo achar que o editor tem discernimento para manchetar o que é mais importante. É por isso que compro o jormal.

Estranhamente, os dois jornais que assino, Zero Hora e Correio, não traziam nenhuma chamada a respeito do impeachment da governadora Yeda Crusius. Nada. Zero Hora, na página 8, trazia uma matéria sob o seguinte título: “EM TODAS AS FRENTES Yeda reagirá com obras e viagens”. O Correio, nem isso.

Simplesmente ignorou o assunto e deu destaque à reforma eleitoral na página 02 com a manchete: “Senadores tentam destravar reforma eleitoral na terça”.

Fenômeno é estadual
Comecei a ficar em dúvida quanto a tudo. Será que a chuva persistente havia amolecido o juizo dos editores dos dois principais jornais gaúchos? Ou o meu? Fui pra internet verificar outros dois jornais importantes no Estado.

O Diário Popular de Pelotas também não trazia nada na capa. O Jornal NH, maior jornal do interior do país, igualmente nada na capa. Estranho, muito estranho! Todos estes jornais manchetaram à exaustão a crise ética do PT, a crise do Senado, a CPI da Petrobras, o factóide da Lina, .... Porque agora, estão tão calados? Será que a aceitação do primeiro pedido de impeachment depois de Collor não é notícia?

Fui ver os jornais de sábado. Jornais de domingo em geral são um pouco arrevistados, menos críticos. Nos jornais de sábado, menos lidos e menos vigiados, os jornalistas têm mais liberdade para informar e criticar....

Zero Hora, nenhuma manchete sobre o pedido de impedimento da governadora no sábado. Correio, idem. Comecei a ficar espantado. Fui ver as manchetes dos jornais de sexta-feira, dia seguinte da aceitação do pedido pelo presidente da Assembleia do Estado. Zero Hora: “Pedido de impeachment avança na Assembleia e acirra confronto no RS”. Correio do Povo: “Yeda reage contra pedido de impeachment aceito na AL”. Diario Popular: “Pedido para impeachment de Yeda é aceito pela Assembleia”. NH: “Aceito pedido de impeachment de Yeda”, no rodapé inferior esquerdo da capa.

Comecei a entender um pouco mais as coisas. Zero Hora e Correio sem dúvida deram a orientação.

Posicionaram-se ao lado de Yeda. No domingo, os dois principais jornais do interior, que no meio da semana ainda informavam os fatos, já estavam alinhados e também não noticiaram nada.

Imprensa gaúcha adere ao Yedismo
Uma explicação para isso seria a ampliação das verbas publicitárias. Em março deste ano, Sérgio Bueno, do Valor Econômico, publicou uma matéria tratando do aumento dos gastos em publicidade do governo gaúcho.
A reportagem afirmou: “Fustigada por mais uma onda de turbulência política, provocada por denúncias dela corrupção e embates com o funcionalismo estadual, a governadora do Rio Grande do Sul, Yeda Crusius (PSDB), decidiu reagir com investimentos pesados na imagem de sua administração para tentar virar o jogo a seu favor. O plano será sustentado por um orçamento de R$ 93 milhões para publicidade neste ano, um crescimento de 560% em comparação com os R$ 14 milhões gastos na área em 2008, conforme informações do Palácio Piratini”.

Outra maneira de entender a atitude da imprensa gaúcha, em reforço a esta, seria a mudança de orientação no marketing do governo Yeda. Conforme nota no início da semana passada da principal colunista política de Zero Hora, recentemente o PSDB resolveu contratar uma empresa do centro do país para "cuidar" da imagem de Yeda Crusius. De fato, parece ter havido uma intervenção do PSDB na imagem da governadora. A julgar pelo que se ouve falar sobre os métodos do governo paulista, critérios semelhantes de relação poderiam estar sendo desenvolvidos no RS.

Um novo partido de classe
Não creio, entretanto, que estas sejam explicações suficientes. O que de fato aconteceu neste domingo, após uma semana chata e úmida, é que a imprensa gaúcha aderiu de vez ao Yedismo e selou sua unidade em defesa do seu governo. Na fragilidade dos partidos conservadores, corroídos e desmoralizados pela corrupção e incompetência, a imprensa gaúcha está unindo-se como se fosse o partido da classe dominante no estado, em substituição aos partidos existentes.

As consequências disso no processo eleitoral do ano que vem tendem a ser muito grandes. Não a intervenção dos meios de comunicação no processo, que isso sempre ocorreu. Falo da unidade dos meios de comunicação – essa é a novidade – que se anuncia desde esse domingo. A aliança dos principais grupos de comunicação do RS em torno a um projeto de classe, como é o de Yeda Crusius, pode alterar significativamente o jogo sucessório. Com isso, a luta política no estado não só pode se acirrar – como antecipou a manchete de Zero Hora –, mas pode transbordar em confronto.