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Política

Venício A. de Lima

Eleições

14.10.2010 16:53

Guerra suja na campanha eleitoral

Corre solta na internet uma guerra – e, como toda guerra, sem qualquer ética – de manipulação da informação, agora tendo como aliados partidos de oposição e os setores mais retrógrados das igrejas católica e evangélica, incluindo velhas e conhecidas organizações como o Opus Dei e a TFP

As campanhas eleitorais têm servido para revelar, de forma inequívoca, qual a ética empresarial e jornalística que predomina na grande mídia brasileira.

Os episódios recentes relacionados à demissão de conceituada articulista do Estado de S.Paulo, assim como a ação da Folha de S.Paulo, que obteve na Justiça liminar para retirada do ar do blog de humor crítico Falha de S.Paulo, são apenas mais duas evidências recentes de que esses jornalões adotam, empresarialmente e dentro de suas redações, práticas muito diferentes daquelas que alardeiam em público.

Como se sabe, o Estadão é o jornal que afirma diariamente estar sofrendo “censura” judicial, há vários meses.

Tratei do tema neste Observatório quando da demissão do jornalista Felipe Milanez, editor da revista National Geographic Brasil, publicada pela Editora Abril, por ter criticado, via Twitter, a revista Veja (ver “Hipocrisia Geral: Liberdade de expressão para quem?”).

Corre solta também, na internet, uma guerra – e, como toda guerra, sem qualquer ética – de manipulação da informação, agora tendo como aliados partidos de oposição e os setores mais retrógrados das igrejas católica e evangélica, incluindo velhas e conhecidas organizações como o Opus Dei e a TFP.

Ademais, uma série de panfletos anônimos sobre candidatos e partidos, de conteúdo mentiroso e manipulador, tem aparecido e circulado em diferentes pontos do país, aparentemente de forma articulada.

Estamos chegando ao “primeiro mundo”. Repetem-se aqui as estratégias políticas obscuras que já vem sendo utilizadas pelos radicais conservadores ligados – direta ou indiretamente – à extrema direita do Partido Republicano – o “Tea Party” – e também pela chamada “Christian Right”, nos Estados Unidos.

A bandeira da liberdade de expressão equacionada, sem mais, com a liberdade de imprensa, não passa de hipocrisia.

Começou com o PNDH3
A atual onda, que acabou por deslocar o eixo da agenda pública da campanha eleitoral e da propaganda política no rádio e na televisão para uma questão de foro íntimo e religioso, teve seu início na violenta reação ao Programa Nacional de Direitos Humanos 3 (PNDH-3), capitaneada pela grande mídia. Na época, escrevi:

“O curto período de menos de cinco meses compreendido entre 21 de dezembro de 2009 e 12 de maio de 2010 foi suficiente para que as forças políticas que, de fato, há décadas, exercem influência determinante sobre as decisões do Estado no Brasil, conseguissem que o governo recuasse em todos os pontos de seu interesse contidos na terceira versão do Programa Nacional de Direitos Humanos (Decreto n. 7.037/2009). Refiro-me, por óbvio aos militares, aos ruralistas, à Igreja Católica e, sobretudo, à grande mídia.” ["A grande mídia vence mais uma", 15/5/2010].

São essas forças políticas – com seus paradoxos e contradições – que agora se unem novamente para tentar influir no resultado das eleições presidenciais de 2010, valendo-se da “ética” de que “os fins justificam os meios”.

Lições
A essa altura, já podem ser observadas algumas lições sobre a mídia e suas responsabilidades no processo político de uma democracia representativa liberal como a nossa:

1. Não é apenas a grande mídia que tem o poder de pautar a agenda do debate público. A experiência atual demonstra que, em períodos eleitorais, essa agenda pode ser pautada “de fora” quando há convergência de interesses entre forças políticas dominantes. Elas se utilizam de seus próprios recursos de comunicação (incluindo redes de rádio e televisão), redes sociais (p. ex. Twitter) e correntes de e-mail na internet. A grande mídia, por óbvio, adere e abraça a nova agenda por ser de seu interesse.

2. Fica cada vez mais clara a necessidade do cumprimento do “princípio da complementaridade” entre os sistemas de radiodifusão (artigo 223 da Constituição). Seria extremamente salutar para a democracia brasileira que o sistema público de mídia se consolidasse e funcionasse, de fato, como uma alternativa complementar ao sistema privado.

3. Independente de qual dos candidatos vença o segundo turno das eleições presidenciais, a regulação do setor de comunicações será inescapável. Não dá mais para fingir que o Brasil é a única democracia do planeta onde os grupos de mídia devem prosseguir sem a existência de um marco regulatório.

4. O artigo 19 da Constituição reza:

É vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios:

I – estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança, ressalvada, na formada lei, a colaboração de interesse público.

Apesar de ser, portanto, claro o caráter laico do Estado brasileiro, na vida real estamos longe, muito longe, disso.

5. Estamos também ainda longe, muito longe, do ideal teórico da democracia representativa liberal onde a mídia plural deveria ser a mediadora equilibrada do debate público, representando a diversidade de opiniões existentes no “mercado livre de idéias”. Doce ilusão.

Artigo originalmente publicado no Observatório da Imprensa

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Sua opinião

  1. Jose Carlos Castilho disse:
    Senhor Venício, eu nao sei se o senhor é a favor ou contra o PNDH-3, mas o senhor escreveu uma coisa que faz todo sentido quando mencionou que "forças políticas" conseguiram com que "...o governo recuasse em todos os pontos de seu interesse contidos na terceira versão do Programa Nacional de Direitos Humanos (Decreto n. 7.037/2009)". Realmente são pontos de interesse do governo, e nao necessariamente da população em geral. Todo governo que carrega aspirações semelhantes às do PT possui pontos do seu interesse, que nao necessariamente correspondem aos interesses da populaçao. Pontos estes, o senhor esqueceu de mencionar, que ferem diretamente o corpo da Constituição Federal, elaborada por uma Assembléia Constituinte formada por representantes eleitos por voto direto pelo povo, e não por indivíduos apontados a cargos de confiança pelo presidente Lula, como é o caso do Ministro Paulo Vanucchi, mentor do PNDH-3. Eu nao sei qual a sua orientação ideológica, mas certamente não me parece ser de cunho democrático. Eu defendo de unhas e dentes a Constituição Federal, por mais falha e defeituosa que seja, pois ela foi elaborada por representantes, sejam eles ruins ou bons, do povo e eleitos pelo povo, tendo inclusive a participação de elementos presentes no atual governo. Da mesma forma que eu defendo a Constituiçao Federal, eu abomino qualquer tipo de decreto que tente ferir as bases democráticas estabelecidas por esta constituição, principalmente um decereto elaborado na surdina e apresentado na calada da noite em época de festividades natalinas (se nao fosse na época de Natal provavelmente seria na época da Copa do Mundo...), assinado pelo ilustre presidente Lula, que posteriormente, frente à legítima revolta de setores da sociedade, alegou nao ter lido o que ele assinou. Sinceramente, este tipo de atitude, partindo de um governo que se diz democrático, nao me cheira nada bem.
  2. Pedro Botelo disse:
    Na solidão do meu computador, eu que acompanho política desde 1970, tenho 60 anos, fico me perguntando sobre os homens com estampa de magistrado que ilustravam o velho MDB paulista: Ulisses, Montoro, Covas, Almino. Reunindo-se a esta corte havia outros expoentes que pontilhavam nos estados Tancredo, Richa , Saturnino Braga Artur da Távola, Renato Ascher e, por aí vai. Não trago para minha reflexão posições ideológicas, a maioria dos citados eram conservadoramente "liberais", mas democratas. Eram o que se chamou por muito tempo de reserva moral, pra cunhar um termo em desuso. As gerações novas talvez desconheçam a luta de muitos para reestabelecer a normalidade democrática deste país. Cessada a empreitada para instituir o estado de direito, a grande frente MDB foi se ismiliguindo e cedendo quadros para a construção de novas siglas entre elas o PSDB. O PSDB eria o projeto vitorioso da social democracia euriopéia se materilizando na América do Sul, depois do colapso do modelo derrotado do socialiosmo real dos satélites soviéticos. Um partido para promover o debate e "entendimento" entre capital e trabalho. Dizendo romper com a fórmula antiga e imediatista de conceber o país o PSDB trazia o verniz acadêmico do discurso burilado. Um partido sem coronéis, programático e defendendo o sistema parlamentarista, irônicamente a mídia dizia que era um partido de caciques sem índios. Agora arranjou um, que desmerece nossos irmãos nativos aborígens. O velho Ulisses ao sair de cena deixava São Paulo nas mãos do Quercismo, e o PSDB buscava espaço para se firmar. Derrotados nas primeiras eleições da redemocratização, Covas foi o 4º colocado. pra onde ir, sem votos e capilaridade nos grotões do pais? A queda de Collor e a dificuldade do vice Itamar em montar um governo de conciliação nacional foi a senha para o começo de tudo que temos aí. Chamados a compor o Governo Itamar, Fernando Henrique preparou-se para subir as escadas do Planalto. E aí é que está o detalhe: FHC nunca venceu uma eleição majoritária de verdade, sempre usou a máquina pública para se projetar; entrou no Senado pela janela, na vaga aberta por Franco Motoro quando este assumiu o Palácio dos Bandeirantes. 1986 pegou carona no embalo de Mário Covas, que saíra com popularidade da prefeitura paulistana No ano anterior FHC fora derrotado por Jânio. Chegando a Presidência aprovou a reeleição numa monobra de compra de votos nunca esclarecida, e depois tentou emplacar José Serra. Mais por que esta narativa tão comprida? Porque o clima de campanha chegou a um estágio insuportável. Os Sociais democratas tidos tucanos não tem projeto de governo. Aplicam o receituário do consenso de Washington. O episódio da crise mundial de 2009 mostra como pensam os economistas psdbistas. Se compararmos a situação do Brasil ao final do Governo FHC com o último ano da gestão petista, os números estão aí. E o alto índice de aprovação do Presidente apesa do bombardeio da grande mídia. Fazendo guerra suja. Onde estão a carta programática, os estatutos, os planos para o Brasil. O que diria os senhores que já não estão aqui, e foram os pilares do movimento democráticos do passado recente. Boa parte deles, sim católicos praticantes. Tancredo era Irmandade Francisacana. O PSDB deve muitas explicações ao Brasil.
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