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Política

Entrevista - Gleisi Hoffmann

Gleisi: Paraná é conservador, mas não é contra o PT

por Piero Locatelli — publicado 16/09/2014 04h40
Para a ex-ministra da Casa Civil o Paraná “é um estado que ousa pouco em mudanças”, mas que não rejeita seu partido
Wilson Pedrosa/Divulgação
Gleisi Hoffman

Ex-ministra da Casa Civil está em terceiro lugar nas pesquisas

De Curitiba

Os paraenses nunca elegeram um petista para o governo do estado ou para a prefeitura da sua capital, Curitiba. Buscando a primeira vitória ao Executivo do estado, a senadora Gleisi Hoffmann (PT) parece seguir a regra de viver dificuldades dos petistas e está em terceiro lugar em todas as pesquisas. Apesar da sua posição, atrás do governador Beto Richa (PSDB) e do senador Roberto Requião (PMDB), a candidata diz que o estado não é contra o seu partido. “Claro que é um estado de perfil mais conservador, mas nem por isso é um estado que rechaça o PT”, diz Gleisi.

Em entrevista a CartaCapital, a senadora e candidata fez críticas à atual gestão do estado e explicou algumas de suas propostas. A senadora também disse que não foi consultada sobre o uso de uma fala sua na campanha de Fernando Collor (PTB) ao senado em Alagoas, na qual Gleisi faz elogios ao ex-presidente que perdeu o cargo sob denúncias de corrupção.

Leia abaixo trechos da entrevista:

CartaCapital: Qual avaliação a senhora faz dos quatro anos do Beto Richa à frente do governo do estado?
Gleisi Hoffmann: Eu penso que é um governo ruim, sem gestão competente, eficácia e direção para o estado, que está sem rumo. Os resultados que temos em termos de política pública são muito fracos. É lamentável o que estamos vivendo no Paraná, além do descontrole financeiro. O governo gasta muito e não faz nada.

CC: A cooperação com o governo federal tem sido muito criticada pelo governador, que diz ter sido alijado de programas federais nesse período. Como foi a cooperação entre o governo federal, de que você fazia parte, e o estadual nos últimos quatro anos?
GH: Essa é uma justificativa dele para a sua incompetência administrativa. Jamais foi perseguido ou teve tratamento diferenciado. Muito pelo contrário, o Paraná tem grandes investimentos. Só na área rodoviária nós temos uma carteira de mais de cinco bilhões de reais do governo federal. Temos o Minha Casa Minha Vida, com 5 bilhões de reais e mais de 200 mil casas construídas no estado. Como o Paraná não tem investimentos? Como o Paraná está sendo discriminado? O que ele não conseguiu retirar rapidamente foram os empréstimos, que todos os estados conseguiram, porque ele não conseguiu se adequar à Lei de Responsabilidade Fiscal no gasto de pessoal e tampouco à legislação que manda gastar 12% [do orçamento] em saúde. Por isso ele teve que judicialmente conseguir isso, se comprometendo a investir em saúde no ano de 2014 o que não investiu em 2013. É muita incompetência administrativa porque tudo o que o governo federal pode fazer, foi feito.

CC: O endividamento do Paraná aumentou durante a gestão de Beto Richa, assim como em diversos outros estados nos últimos quatro anos. O governo federal promete a votação em novembro, no Senado, de um projeto que diminuiria a dívida dos Estados. Como senadora, a senhora é a favor do projeto? E os problemas financeiros do Paraná não seriam resolvidos desta forma?
GH: Isso pode significar uma ajuda mas, se não tiver boa gestão, não adianta. É um dinheiro que vai entrar e, se não for bem aplicado e bem planejado, não necessariamente vai resolver os problemas. O projeto de lei é importante, eu sou favorável . Mas ele estava dentro de uma grande ação de reequilíbrio da federação. Ou seja, tinha resolução que mexia com o índice do ICMS, para acabar com a guerra fiscal, com o fundo de compensação dos estados e com a renegociação do índice de correção da dívida. Ocorre que o Congresso Nacional não fez o fundo de compensação e a alíquota única de ICMS. Então, acho que nós temos de retomar, no final do ano, não só a correção do índice da dívida, mas todos os projetos sobre a federação.

CC: Na sua campanha, a senhora critica bastante a superlotação dos presídios no Paraná e promete a construção de mais. Existe uma avaliação, de alguns setores da esquerda, de que o problema da superlotação dos presídios não se refere somente à questão da construção de mais celas, mas de um encarceramento em massa da população mais pobre. Por que há essa superlotação no Paraná? E qual seria a solução para isso?
GH: Primeiro, porque há muitos processos e muitas prisões no estado. Segundo, porque nós não temos um acompanhamento dos processos de cada preso, faltam defensores, advogados. Então há muitos presos que permanecem nas penitenciárias ou delegacias sem a necessidade de estar lá. Terceiro, a gente não separa os presos, nem por gravidade do delito nem por idade. Isso causa problemas graves. Então, não há uma gestão do ponto de vista dos presídios que possa ser uma solução dos problemas.

CC: Mas a solução para este problema seria a construção de mais presídios? A senhora tem feito esta proposta.
GH: Precisa de construção. Claro que nós precisamos de políticas para evitar que as pessoas pratiquem crimes, de política educacional, de saúde e de emprego. Principalmente para a juventude, porque nós temos que disputar os nossos jovens com o tráfico. Não dá para deixar a situação como está e temos propostas para tudo isso. Mas o fato é que você tem uma população carcerária maior e você tem de dar condições de administrar esse processo. Então mesmo fazendo levantamento das penas, mutirões nas questões processuais, ainda assim nós vamos ficar com déficit [de vagas nas penitenciárias]. Não temos que construir grandes presídios. Nós temos que mudar a concepção, construir mais presídios regionais, retirar os presos da delegacia e ter uma gestão melhor, até para evitar rebeliões e que o crime organizado se apodere do presídio. Ocorre que o Paraná não fez uma coisa nem outra. Nem uma gestão melhorada, nem construiu vagas.

CC: Existem muitas ações correndo na Justiça Eleitoral entre os candidatos no Paraná, mais de 300 em pouco mais de dois meses de campanha. Ao que a senhora atribui isso?
GH: Pela não observância das regras do processo eleitoral. Infelizmente, o candidato à reeleição usa e abusa da máquina pública para fazer propaganda eleitoral. Usa sites, meios de comunicação, contratos de publicidade, e isso torna a disputa do pleito desigual. Então, se nós temos uma desigualdade, temos a lei, a legislação ferida, e tem que se recorrer ao Judiciário para que se reequilibre a disputa. Somos muito criteriosos nisso, de não deixar que aconteça o abuso do poder econômico e utilização da máquina.

CC: A senhora está atualmente em terceiro lugar nas pesquisas, e não iria ao segundo turno segundo estes levantamentos. Ao que a senhora atribuiu esse resultado?
GH: Eu não comento pesquisa, nem em viés de alta, nem de baixa. Acho devemos apresentar as propostas à população, e o resultado da campanha é definido no dia da eleição.

CC: Algumas candidaturas vindas do governo federal este ano não emplacaram, a exemplo do que aconteceu com a presidenta Dilma há quatro anos e com Fernando Haddad, prefeito de São Paulo, há dois. A senhora vê um paralelo com a candidatura do Padilha em São Paulo, outro ex-ministro que tem um resultado semelhante ao seu? 
GH: É difícil fazer um paralelo porque são colégios eleitorais diferente, estados diferente, não sei se tem uma ligação ou um humor que seja nacional, que seja com as candidaturas que vieram ou não do governo federal.

CC: O PT nunca elegeu um governador no Paraná ou um prefeito em Curitiba. A que a senhora essa atribui esse histórico do PT nunca ter tido um cargo executivo na capital ou no Estado?
GH: O PT já elegeu prefeitos nas principais cidades do Estado, tem o vice-prefeito na capital e me elegeu senadora. Então eu acho que existe muito esforço de tentarem fazer que o PT tenha uma oposição ao estado, e seja desgastado. Claro que é um estado de perfil mais conservador, mas nem por isso é um estado que rechaça o PT. Se não, nós não teríamos os prefeitos que nós tivemos, e eu não teria sido eleito senadora.

CC: Por que a senhora acha que o Paraná tem um perfil conservador? O que leva a senhora a fazer esse diagnóstico?
GH: Não é conservador no sentido de ser direita ou esquerda, é conservador no sentido de conservar o que já está. É um estado que ousa pouco em mudanças. Vai para uma mudança segura. Tanto que você tem situações, regiões do estado com um perfil mais de esquerda, como o sudoeste do Paraná. Até setores do oeste, que tem uma referência maior em movimentos sociais. Mas, mesmo assim, é um estado que é cauteloso em mudanças. Não só no sentido do conservadorismo político, mas do conservadorismo do que está.

CC:O senador Fernando Collor utilizou um vídeo seu na propaganda eleitoral, no qual a senhora o elogia em um discurso no plenário do Senado. A senhora sabia que aquilo seria usado na campanha?
GH: Não sabia e lamento. Não fui consultada sobre isso. Aquela colocação foi feita em um determinado momento muito específico de debate, de discussão no plenário da casa. O senador Collor estava fazendo um balanço do seu processo, muito emocionado. Tanto eu como o senador Paim, como colegas de casa, nos solidarizamos com o que ele estava falando. Mas jamais imaginei que ele a utilizasse isso em uma campanha eleitoral.