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Política

Crônica do Emiliano

Genoino: a sensação noturna da condenação injusta

por Redação Carta Capital — publicado 03/12/2012 16h29, última modificação 03/12/2012 16h29
Tenha certeza, companheiro, que não estará só no esforço para provar sua inocência, para além dos variados tribunais. Por Emiliano José
genoino

Condenado no "mensalão", o ex-deputado José Genoino assume vaga na Câmara. Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr

por   Emiliano José

Sentei-me à sua frente, na casa simples, e ao ouvi-lo pude sentir serenidade, firmeza, disposição de seguir em frente. Características conhecidas nele, porém difíceis de serem mantidas no cenário tão adverso em que vive neste momento. Fumar, bem, não para de fumar. Seria quase impossível pensar em parar no meio da tempestade. Sem droga, qualquer que seja, é muito duro aguentar as dores da existência. E o cigarro o acompanha há muito tempo, parceiro no meio dos vendavais, inclusive os que enfrentou na aspereza e beleza das selvas amazônicas. Estive na casa dele no dia 24 de novembro deste ano de 2012. Queria abraçá-lo, ouvi-lo, dizer-me amigo e solidário.

Claro que ele sabe que a batalha de hoje é muito distinta das tantas outras que enfrentou. Travara as outras como defensor das causas mais justas do povo brasileiro: seja aquela, a das selvas, seja a da tortura, seja as que desenvolvera para chegar à democracia depois do longo período de cárcere, seja as do Parlamento, onde sempre se mexeu como peixe n´água, onde se destacou como um dos melhores deputados do País, seja a da construção do partido que vem mudando o Brasil para muito melhor, o PT. Nunca deixou de ter lado: ontem e hoje o lado dos oprimidos, dos deserdados da sorte. A batalha hoje é outra: muito mais dura. Não me passou desapercebido o grosso volume de Vida e Destino, que ele acabou de ler com atenção – Publicações Dom Quixote, 2011. O autor é Vassili Grosman.

Defrontei-me com o livro no quartinho dos fundos onde está sua biblioteca, penso que uns 3, 4 mil livros, fotos, reportagens, recordações de uma vida de lutas. Ao folheá-lo, deparei-me com uma frase grifada, sei lá que página, que certamente o impressionou. A mim, as palavras recobertas cuidadosamente de amarelo do lápis que acompanhava sua leitura, me emocionaram muito, talvez porque eu pudesse captar, sentir o impacto que tiveram sobre ele:

Como é possível descrever esta sensação noturna, de ser inocente e estar condenado?

Quem esteja acompanhando com atenção os fatos, quem tenha o domínio dos fatos, para reinterpretar odiosa formulação recente, sabe-o inocente, sabe-o incapaz de qualquer ato de corrupção, sabe de sua integridade. E a vida dele fala por ele, e suas posses falam por ele, e seu comportamento de vida inteira fala por ele. Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo – ele poderia repetir isso com Drummond, buscando inspiração em sua existência  que foi sempre de poesia e sangue, olhando nos olhos de seus filhos, de sua mulher, e de toda a sociedade brasileira.

Poucos, no entanto, o ouviriam – a mídia hegemônica, de posições políticas conhecidas, o condenou ao inferno, depois de, durante muito tempo, tê-lo como uma fonte essencial, pelo que ele tinha a oferecer, e hoje ele sabe o quanto se enganou com essa mídia, o quanto a desconhecia, ou o quanto ela mudou para pior.

Muitos ainda se enganam com os holofotes, se iludem, imaginam-se fortes quando dos 15 minutos de fama, são seduzidos pela luz midiática, sem se perguntar sobre a real natureza desses meios de comunicação, que não cessam de lutar contra o projeto político em andamento no Brasil desde que Lula venceu as eleições em 2002.

Quase um exilado em seu país. Quase confinado em sua modesta casa do Butantã, em São Paulo, onde o visitei. Contando com a solidariedade da família, de seus amigos, reafirmando a lealdade ao seu partido e aos seus companheiros, segue refletindo sobre o quanto são difíceis as condições da luta democrática no Brasil, o quanto é necessário de persistência para prosseguir com a revolução democrática em andamento no Brasil, as impressionantes resistências contra ela oferecidas pelas sólidas casamatas do que poderíamos chamar de Estado ampliado – a mídia, de modo especial, mas não só ela.

Como é possível admitir um julgamento como o último, que dispensou provas, que recorreu, em alguns casos, apenas “à literatura jurídica”, que pretendeu explicitamente condenar o projeto político em andamento usando para isso da condenação marcada pelo subjetivismo? Na mídia hegemônica, não há quem ouça isso. Foi um tribunal antecipatório, na sua sanha antipetista.

Certamente, são reflexões que ele tem feito nesses anos, desde que desceu aos infernos. Tão forte o sofrimento, desde 2005, que ele chega a admitir ter experimentado “pensamentos extremos”, como revela no livro O sonho e o poder, fruto de depoimento dado a Denise Paraná, de 2006. Porque a sensação noturna de ser inocente e estar condenado não é de agora, vem desde lá, quando o financiamento de campanhas com o caixa dois, resultado de uma legislação e uma estrutura política superadas, o jogou nesse vendaval sem fim.

Não quis perguntar tudo o que me vinha à mente, nem cabia. Em mim, cresceu o sentimento de solidariedade e companheirismo ao conviver com ele um pouco de tempo, nas presenças de Rioko, sua mulher, e Miruna, sua filha. E cresceu a certeza de sua inocência. Besteira essa coisa de que decisões judiciárias não se discutem. Como diria a presidenta Dilma a respeito desse julgamento, não há ninguém acima das paixões humanas, quanto mais se açuladas por uma mídia determinada, partidarizada, disposta a condenar.

Creio que, diante desse massacre midiático, desse julgamento tão inovador, onde não importavam as provas, e no caso dele, isso é escandaloso, uma pergunta se insinuava: onde, ao menos, aqueles direitos elementares nascidos no Iluminismo?

Onde o direito ao menos de falar? Como opor-se a essa impressionante intolerância presente na mídia e no próprio Judiciário? Como recorrer se nesse julgamento, à diferença de procedimentos anteriores do próprio STF, a única instância foi a última?  A sociedade da intolerância midiática, a sociedade da espetacularização partidarizada, cortou-lhe a voz, condenou-o ao quase anonimato, salvo para ser guilhotinado pela última instância, última e única, sacrossanta.

À mente, assomam-lhe lembranças da leitura de J´Accuse, lembra-se do capitão Dreyfus, e tem consciência de que alguns poucos jornalistas tentaram fazer o papel de Zola sem que, no entanto, suas palavras fossem ouvidas porque a última instância não pode aceitar que errou.

A carta de sua filha Miruna, que tive a alegria de abraçar em minha visita, talvez seja o momento mais emocionante de sua defesa, sem que, naturalmente, a mídia hegemônica tenha lhe dado destaque, até porque não lhe interessa. Sobretudo pela sua impressionante reprimenda à velha mídia, que certamente fez cara de paisagem diante das perguntas dela:

Você teria coragem de assumir como profissão a manipulação das informações e a especulação? Se sentiria feliz, praticamente em êxtase, em poder noticiar a tragédia de um político honrado? Acharia uma excelente idéia congregar 200 pessoas na porta de uma casa familiar em nome de causar um pânico na televisão? Teria coragem de mandar um fotógrafo às portas de um hospital no dia de um político realizar um procedimento cardíaco? Dedicaria suas energias a colocar-se em dia de eleição a falar, com a boca colada na orelha de uma pessoa, sobre o medo a uma prisão que essa mesma pessoa já vivenciou nos piores anos do Brasil?

Pois, Miruna concluirá, os meios de comunicação do país tiveram coragem de fazer tudo isso e muito mais. É do seu DNA, é de sua prática corriqueira, salvo para Serra, FHC e seus partidos preferidos. Afinal, há algum escândalo quando da revelação da privataria tucana no livro de Amauri Júnior, condenado por tais meios ao ostracismo, apesar de fenômeno de vendagem?

Miruna conclui dizendo que o pai lutará sempre para demonstrar sua inocência, da qual estamos convictos. Genoino sabe que o alvo é ele, mas mais do que ele e os demais companheiros do PT condenados, tudo isso se dirige, como alguns ministros do STF o disseram sem qualquer temor de romper as regras republicanas do Estado de Direito, ao projeto político em andamento no País, e de modo especial ao ex-presidente Lula, que a mídia insiste em demonizar.

Se nada é acaso, vamos lembrar que Genoino vem do Encantado, distrito de Quixeramobim, no Ceará. É como um homem encantado, que já enfrentou de tudo na vida, que ele seguirá sua vida, ao lado de seus filhos, de sua mulher, que cruzou com ele desde a guerrilha do Araguaia. E ao lado de seus companheiros, de seu partido.

Seguirá de cabeça erguida, certo de que essa condenação é absolutamente injusta, mesmo que formalmente venha a prevalecer, como parece. Tenha certeza, companheiro, que não estará só no esforço para provar sua inocência, para além dos variados tribunais.