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Política

Líbia

Fúria sanguinária de Kadafi

por Wálter Maierovitch publicado 23/02/2011 17h12, última modificação 24/02/2011 09h23
Êxodo está em curso: União Européia estima 1,5 milhão de imigrantes. Balanços sobre os números de mortos são os mais díspares. Por Wálter Maierovitch

Balanço mostra 10 mil mortos e 50 mil feridos. Êxodo em curso e União Européia estima 1,5 milhão de imigrantes

--1. Imagens enviadas por um cinegrafista amador mostram, em Trípoli e vizinho ao mar, a abertura de fossas onde estão sendo enterrados os mortos da sangrenta repressão ordenada por Muammar Kadafi, aquele que, no seu Livro Verde, escreveu que na Líbia o povo é que governa pela Jamahiriya. Segundo a agência Al Arabyia, o número de mortos passa de 10 mil. São estimados 50 mil feridos. O balanço foi fechado com dados colhidos até ontem.

Na Líbia, não existe liberdade de expressão e nem de associação. Os que tentam se reunir ou se expressar são encarcerados ou mortos. Apenas a agência Al Jazeera, com sede no Catar, pode operar na Líbia. Dezenas e dezenas de fossa estão sendo abertas e os corpos, sem identificação, são jogados nelas e cobertos com areia e cimento.

Em Trípoli calcula-se que mais de mil revoltosos líbios foram executados pela polícia e pelos mercenários africanos contratados por Kadafi (os mastins de Kadafi, segundo o jargão popular). A Al Jazeera fala em êxodo, com 20 mil líbios em fuga para o Egito, pelo vale de Sallum. Para a União Européia o número é bem maior, ou seja, 1,5 milhão de imigrantes.

Dois navios líbios de guerra estão fundeados defronte a Bengasi e disparam quando os oficiais de marinha notam  aglomerações.

--2. Em entrevista dada em 1979 à saudosa jornalista Oriana Fallaci, o tirano Kadafi explicou que promoveu um golpe militar para a derrubada do soberano (1969) e, depois, o povo legitimou o seu ato e se iniciou a revolução.

Kadafi disse na entrevista que é apenas um consultor sem poder de decisão. Não impõe nada ao povo, que se autogoverna. Por isso, não é presidente, nem ministro: “Eu, particularmente, não faço nada mais do que apelar às massas, que governa sozinha. Digo ao meu povo o seguinte: se vocês me amam, escutem-me. E o povo governa sozinho. Por isso o povo me ama. Me ama porque ao contrário de Hitler, que falava fazer tudo pelo povo, eu falo o contrário ao povo, ou seja, façam vocês mesmos por vocês”.

A entrevista de dezembro de 1979 foi republicada hoje no site e nas páginas do jornal Corriere della Será: http://www.corriere.it/esteri/11_febbraio_23/e-a-oriana-diceva-voi-ci-massacrate-oriana-fallaci_4c8c7538-3f17-11e0-ad3f-823f69a8e285.shtml

Ontem, o povo, em Tripoli, destruiu o símbolo de Kaedafi fincou em lugar de destaque. O símbolo, que é o “livro verde”, foi destruído. E o tal "livro verde”, de poucas páginas, foi um marketing de Kadafi. Ele quis imitar o livro vermelho de Mao Tse Tung.  Só que para se ler o “livro verde” são necessários poucos minutos

--3. PANO RÁPIDO. Kadafi, pela força, retomou o controle de Trípoli. Aproveita-se de a revolta ter nascido de forma espontânea, entre jovens e sem liderança. Sua fúria vai encontrar a resistência tribal, que é organizada.
Enquanto isso, Kadafi ameaça a Europa no caso de represálias. Ou seja, ameaça abrir as portas do litoral líbio para a saída, em direção à Europa, de imigrantes  procedentes de toda a África.

Uma coisa é certa. Na Líbia existe um ditador tirânico, que usa a retórica que o país é governado pelo povo e não existe oposição.

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