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Política

Conflito no campo

Funeral de casal extrativista reúne mil e fecha estrada no Pará

por Felipe Milanez publicado 26/05/2011 16h43, última modificação 03/06/2011 14h55
José Cláudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo foram executados na quarta-feira 24, após denunciarem a atuação de grupos madeireiros. Familiares temem que a impunidade prevaleça
Funeral de casal extrativista reúne mil e fecha estrada no Pará

José Cláudio e dona Maria foram executados após denunciarem a atuação de grupos madeireiros. Familiares temem que a impunidade prevaleça. Foto Rodolfo Oliveira/AG. Pará

Por Felipe Milanez, de Marabá*

O cortejo fúnebre e o enterro dos líderes extrativistas José Cláudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo da Silva, na manhã desta quinta-feira, em Marabá (PA), foi transformado em um grande ato público pela reforma agrária, que fechou uma rodovia e a Estrada de Ferro de Carajás por ao menos seis horas. Cerca de mil pessoas participaram do funeral do casal, executado a tiros na manhã da quarta-feira 24, em Nova Ipixuna, município a 390 quilômetros de Belém, a capital paraense.

O velório foi realizado na casa de um irmão de José Claudio, num espaço que, em dias comuns, funciona um bar. De lá, centenas de pessoas percorreram um trajeto com pouco mais de 6 quilômetros até o Cemitério da Saudade, em Marabá, a quarta cidade mais violenta do Brasil, com taxa de 125 homicídios para cada 100 mil habitantes, segundo o “Mapa da Violência 2011”. O grupo parou a rodovia PA 150, a mesma que, a quilômetros dali, foi palco da morte de 19 trabalhadores sem-terra em 1996, no episódio que ficou conhecido como Massacre de Eldorado dos Carajás. O cortejo também passou pela ponte sobre o rio Tocantins, onde, em 1986, nove garimpeiros foram mortos pela Polícia Militar.

Sob sol forte, algumas pessoas passaram mal e uma senhora chegou a desmaiar. Em meio às manifestações de tristeza e revolta, uma mulher tomou o microfone para dizer: “Agora, caiu Maria e caiu Zé Cláudio. Mas, ao mesmo tempo, se levantaram outras cem Marias e ouros cem Zé Cláudios para dar continuidade ao trabalho deles, para defender a floresta.”

Após o funeral, estava prevista uma reunião entre autoridades do governo e líderes de movimentos sociais no assentamento em que o casal assassinado vivia. Entre os amigos e parentes, o temor é que a impunidade prevaleça. Sobretudo após a Secretaria de Segurança Pública do Pará afirmar que desconhecia as ameaças contra José Cláudio, apesar de a imprensa ter noticiado o fato. O ouvidor agrário nacional, Gercino José da Silva Filho, também disse que o casal não constava em nenhuma relação de ameaçados em conflitos agrários. "Ele e seu advogado nos procuraram em novembro do ano passado, mas quando íamos nos reunir, eles cancelaram. Depois não marcaram outra data. O assunto morreu.”

As declarações geraram desconforto entre os participantes do funeral. “Nosso cotidiano era de ameaça permanente. Acordávamos quase todo dia com os cachorros assustados, com picapes rondando a casa”, comenta Laísa Santos Sampaio, de 45 anos, irmã de Maria e vizinha do casal assassinado.

Também ameaçado de morte, Charles Trocate, líder do Movimento Sem Terra (MST) na região, manifestou pesar e preocupação. “Ninguém deseja morrer, muito menos por morte mandada, morte executada por profissionais da morte.” O advogado da Comissão Pastoral da Terra (CPT) José Batista diz que as organizações sociais vão continuar pressionando o governo para denunciar os crimes ambientais e os conflitos fundiários na região. “A luta agora é para que não haja impunidade.”

A ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, enviou um comunicado de condolências à família, mas não compareceu ao velório. Para justificar a ausência, comunicou que estaria à frente de uma operação de combate ao desmatamento em Sinop, no Mato Grosso. Como representante da pasta, o secretário nacional de Extrativismo e Desenvolvimento Rural Sustentável, Roberto Vizentin, declarou “absoluto repúdio” à morte do casal ambientalista. “Eles viviam num assentamento agroextrativista, especialmente criado para o manejo sustentável dos recursos florestais, mas não era bem assim que as coisas funcionavam. O casal sempre denunciou a atuação de madeireiras na região.”

Entre as medidas anunciadas pelo secretário está a intensificação das ações de fiscalização em Nova Ipixuna. “Não se trata de promover uma caça-às-bruxas aos assentados que são pagos para derrubar a floresta, até porque eles constituem o elo mais fraco dessa criminosa cadeia produtiva. Mas vamos fechar o cerco àqueles dispostos a comprar e revender as árvores derrubadas”, afirmou Vizentin a CartaCapital. “Para os assentados, a estratégia é desenvolver ações para fortalecer a economia florestal sustentável, para que esses trabalhadores tenham uma fonte segura de renda e não precisem derrubar a mata para sobreviver.”

Para Laísa, o exemplo da irmã e do cunhado prova ser possível viver da floresta sem destruí-la. “Eles eram filhos de castanheiros extrativistas. A raiz deles era a ideologia da floresta. Minha irmã sempre dizia que a economia da floresta era viável. Cada árvore derrubada vale de 80 a 100 reais, ao passo que um litro de óleo de castanha vale bem mais, pode custar até 150 reais”, comenta.

Impunidade
Nos últimos 25 anos, 1.614 pessoas foram assassinadas no Brasil em decorrência de conflitos no campo. Até hoje, apenas 91 casos foram julgados - e resultaram na condenação de 21 mandantes e 72 executores. Isso significa que a Justiça no Brasil levou às grades um criminoso para cada 17 pessoas assassinadas em todos esses anos.

O levantamento, feito pela reportagem de CartaCapital com base em números fornecidos pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), indica a situção de impunidade existente no País. Os números contabilizados se referem aos crimes ocorridos entre 1985 e 2010.

Somente na última década, 376 pessoas foram assassinadas em decorrência de conflitos no campo motivados denúncias como desmatamento e assentamentos. O Pará é, disparado, o recordista de ocorrências: entre 1985 e 2010 foram registrados 408 casos (cerca de 35% dos incidentes no Brasil), com 621 vítimas. Destes casos, apenas 15 tiveram julgamentos, com 11 mandantes e 13 executores condenados. Hoje, porém, apenas o fazendeiro Vitalmiro Bastos de Moura, que encomendou a morte da missionária americana Dorothy Stang em 2005, está preso por estes crimes.

Suspeito de ser o mentor do crime, Regivaldo Pereira Galvão foi condenado a 30 anos de prisão, mas aguarda o recurso apresentado em sua defesa em liberdade. O pistoleiro Rayfran das Neves Sales, condenado a 28 anos de prisão, acusado de ser o executor do assassinato, cumpre pena em regime semi-aberto desde 2010.

História que se repete
O assassinato dos extrativistas José Cláudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo da Silva são os mais recentes casos de ocorrências envolvendo conflitos de terra no estado. O casal foi alvejado em Nova Ipixuna, a 390 quilômetros de Belém, região onde vivia há 24 anos.

Integrantes do Conselho Nacional das Populações Extrativistas, organização criada pelo ambientalista Chico Mendes – morto em 1988 pelo fazendeiro Darly Alves da Silva e seu filho, Derli -, defendiam o manejo sustentável da floresta, denunciando extração ilegal de madeira, desmatamento e carvoarias ilegais.

AmeaçasHá cerca de um mês, um grupo suspeito teria invadido a propriedade do casal e disparado tiros para o alto e contra animais. Além disso, em um vídeo de novembro de 2010, gravado durante uma palestra sobre a preservação da floresta amazônica, José Cláudio afirmou que sofria ameaças.

“A mesma coisa que fizeram no Acre com Chico Mendes querem fazer comigo. A mesma coisa que fizeram com a Irmã Dorothy querem fazer comigo. Eu estou aqui conversando com vocês, daqui um mês vocês podem saber a notícia que eu desapareci. Me perguntam: tenho medo? Tenho, sou ser humano, mas o meu medo não me cala. Enquanto eu tiver força pra andar eu estarei denunciando aquele que prejudica a floresta”, disse.

*Colaborou Gabriel Bonis, Matheus Pichonelli e Rodrigo Martins.

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