Você está aqui: Página Inicial / Política / Fechar para balanço

Política

Senado

Fechar para balanço

por Celso Marcondes — publicado 25/03/2009 17h48, última modificação 19/08/2010 17h50
A cada dia que passa o Senado brasileiro fica mais desmoralizado.

A cada dia que passa o Senado brasileiro fica mais desmoralizado. Na tevê, no rádio, nos jornais, abundam números e dados estarrecedores. Ficamos sabendo – eu, pelo menos, confesso aqui minha ignorância – que nosso Senado tem cerca de 10 mil servidores (o equivalente a cinco vezes o que tem o BNDES, por exemplo) para atender a.....81 senadores. Dá 123 servidores para cada um. Destes, cerca de quatro mil são “comissionados”, ou seja, indicados pelos parlamentares, sem concurso (no BNDES são cerca de 20, dos dois mil, que são indicados pela presidência). Cerca de 3.500 são terceirizados e apenas 3.500 concursados. A folha salarial da Casa subiu de R$ 2,1 bilhões em 2007 para previsíveis três bilhões em 2009.

Deste total, 181 são diretores. Ou “eram diretores” porque ontem, dia 24, depois de dez dias de escândalo na imprensa, o diretor-geral do Senado, Alexandre Gazíneo, nos esclarece que houve “um erro”. Seriam apenas 38 diretores. Os demais 143 seriam cargos de “assessoramento superior”, equivocadamente denominados de “diretor”. Esclarecimento: só a ascensão ao cargo de “diretor” garante um adicional de cerca de R$ 2 mil.

Um diretor (ou “assessor superior”) ganharia entre seis e 12 mil reais, mas há quem ganhe mais de R$ 20 mil. Durante o mês de janeiro, todo mundo ganhou mais de R$ 2 mil de horas extras. Curiosamente, quando o Senado estava em recesso.

Tem diretor para tudo, na média 2,2 para cada parlamentar. Diretor de xérox, diretor de acompanhamento ao aeroporto, diretor de serviços gerais. Tem também quatro diretores para o Setor de Taquigrafia. Neste setor, o Senado conta com 100 taquígrafos concursados. Mas... tem também um contrato no valor de R$2,25 milhões por ano com uma empresa terceirizada.

A estória começa a se esclarecer quando lembramos os nomes dos últimos presidentes do Senado. Está preparado? Vai lá: de 1995 para cá, José Sarney, depois Antonio Carlos Magalhães, depois Jader Barbalho, Edison Lobão, Ramez Tebet, José Sarney (de novo), Renan Calheiros (lembra?), Tião Viana, Garibaldi Alves Filho e... José Sarney. Turma boa, não é? (“olha o naipe das figuras”, diria meu sobrinho). Segundo a Folha, a multiplicação de cargos começou na primeira gestão de Sarney e continuou basicamente nas de ACM e de Renan. Trio Ternura, diriam os antigos.

Estarreceu? Calma, tem mais. O Estadão de hoje, dia 25, tem um “furo”. Ele diz que a Assembleia Legislativa de São Paulo tem......67 diretores. Ou dois diretores para cada três deputados (eles são 94). Tem diretor de fotocópia (conhecido lá por “Serviço de Fotomicrografia”), de controle de frota, de serviço de painel, de “Serviço Técnico de Saúde Bucal da Casa” (no mundo exterior conhecemos por “dentista”). Salários? De R$ 6.280 a R$ 12 mil. O presidente da Casa, Barros Munhoz, do PSDB, esclarece que 59 dos diretores são concursados, mas admite que a estrutura esteja “superdimensionada”. A folha de pagamento de 2008 chegou a R$ 468 milhões.

O ano está animado. Depois das eleições de Sarney e Temer para as presidências da Câmara e do Senado, do castelo de R$ 25 milhões do ex-corredor da Câmara, Edmar Moreira, depois da casa de R$ 5 milhões do diretor-geral do Senado Agaciel Maia, depois da eleição de Collor para a poderosa Comissão de Infraestrutura do Senado, depois da revelação dos gastos de R$ 6 milhões com horas extras em janeiro para os funcionários do Senado, depois do “deslize” do senador Tião Viana – que emprestou o celular do Senado para a filha em viagem pelo México – finalmente, a Assembléia Legislativa de São Paulo nos ajuda a mudar de assunto.

Enquanto nenhum, repito, nenhum senador pega este boi pelo chifre, eu ia propor aqui que o Senado entrasse de novo em recesso para que fosse feito um balanço. Talvez a medida tenha que ser ampliada para as assembleias legislativas. E para as câmaras municipais. O leitor sabe quantos diretores e servidores tem o legislativo em sua cidade e estado? Nem eu.

Enquanto aguardo novas investigações vou até a copa tomar um café, porque a diretora de cafezinho daCartaCapital está demorando muito.