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Bahia

Um jovem lutador na periferia de Salvador

por Manuca Ferreira — publicado 11/04/2015 07h21, última modificação 11/04/2015 09h41
Uma das principais vozes a denunciar a violência contra a juventude pobre e negra de Salvador, Enderson Araújo, 23 anos, já teve até que sair da cidade por conta de seu trabalho
Reprodução

De Salvador (BA)

Sussuarana, bairro da periferia de Salvador, é vizinho ao Centro Administrativo da Bahia. Construído na década de 1970 pelo então governador Antônio Carlos Magalhães, o CAB abriga as sedes dos poderes Legislativo, Executivo e Judiciário do Estado, formando uma espécie de Praça dos Três Poderes à baiana. A menos de 500 metros dali, a realidade é outra: vielas apertadas, casas sem reboco, e a falta de assistência do Estado, representados por aqueles que ocupam o CAB diariamente.

“Nosso bairro é carente de tudo, cara. O pessoal vem aqui só julgar e apontar, mas pra vir aqui ajudar, assim como ele tá fazendo, são poucos”, afirma Luís Mário, autônomo, sobre Sussuarana e Enderson Araújo, jovem, negro e criador do Blog Mídia Periférica.

Apesar das adversidades que envolvem morar em um bairro que passam ao largo dos olhos do Estado, Enderson resistiu às alternativas aparentemente mais fáceis e que estão presentes em lugares iguais a esse, como o tráfico de drogas. Em vez de sucumbir à realidade, fez dela um local de luta e busca mostrar que não é apenas a miséria e a violência que as caracteriza. Foi com este objetivo que criou o blog em 2010, após oficinas do Instituto Mídia Étnica.

“Às vezes eu chegava em casa e não tinha o que comer. A única oportunidade era vender droga, ir pra um outro lado, mas alguma coisa me segurava e dizia: 'olha, é melhor você segurar sua fome agora, porque lá na frente você vai poder usar ela como combustível para ajudar outras pessoas a não passarem por isso’”, disse Enderson a CartaCapital.

A voz de Enderson tem reverberado também denúncias contra ações do Estado, em especial a Polícia Militar. Para ele, há um genocídio em curso no país. “A gente já não tem oportunidade e aí quando coloca o negro e o pobre da periferia junto com o termo jovem é pior ainda porque o jovem negro passa por uma série de estereótipos e hoje, no Mapa da Violência, é o indivíduo que mais tá sendo assassinado. Não é morrendo por doença, nem por acidente, nem nada. Existe um processo de genocídio em curso no país”.

Foi denunciando a violência cometida contra os jovens negros que Enderson foi sendo reconhecido por seu trabalho. Ele diz que apenas passava adiante as denúncias feitas por amigos, mas o fato é que seus questionamentos começaram a incomodar. No último mês, ele teve que ficar 16 dias fora de Salvador, após ser ameaçado por um policial sem identificação. O estopim para a ameaça, segundo ele, foi um texto publicado no site de CartaCapital, onde denunciava uma chacina cometida por PMs no bairro da Cabula.

“Depois que aconteceu a operação na comunidade [a operação policial que aconteceu em Sussuarana, na mesma noite em que um jovem chamado Bruno foi executado na localidade], e eu divulgar isso nas redes sociais – os amigos que mandaram o que tava acontecendo nas baixadas, nos becos –, eu recebi uma ameaça policial, em que um policial se dirigiu a mim e falou que era melhor eu segurar o meu dedo e parar de criticar quem realmente fazia a segurança na comunidade, porque eu poderia acabar ficando sem ela”, afirmou.

A seguir alguns trechos da conversa:

Tivemos dois casos recentes de violência em Salvador nos quais você apareceu como um dos principais denunciantes: o caso de Davi Fiúza, que teria sido sequestrado pela Polícia em São Cristóvão, e a chacina do Cabula. Como você avalia a ação policial nas periferias?

Enderson Araújo: Percebemos que o governo do Estado assume um papel de extermínio da juventude negra quando o seu braço armado entra na comunidade ceifa a vida de jovens negros e não responde por isso. E a única posição do governador [Rui Costa, do PT] dá é que ele acredita na sua tropa. A versão oficial é aquela que a sua tropa traz. A versão das mães dão, como a mãe do Davi, não valem. Até hoje não temos uma resposta sobre onde está o Davi Fiúza. Na chacina do Cabula, os laudos comprovaram a execução sumária. Não foi uma troca de tiros, o direcionamento de onde as balas vieram mostrou isso. Então o governo precisa dar uma resposta. Acredito que não é dando mais armamento à polícia, mais aparato para a polícia. Está na hora de segurar um pouco e pensar também no lado social. Olhar pelos grupos que promovem ações de socialização dentro destas comunidades. Acredito que essa seja uma maneira de combater. Uma delas é efetivando o plano Juventude Viva do governo federal, que busca o enfrentamento da violência contra a juventude negra.

Como resolver essa relação da polícia com a periferia?

Falar sobre a PL 4471/2012 que tramita no Congresso, que é sobre o fim dos autos de resistência, é de suma importância para uma investigação mais apurada. Na chacina do Cabula houve uma investigação porque os movimentos, e à frente a Campanha Reaja, encamparam uma luta de proteger aquelas famílias, defender uma investigação, uma resposta sobre os crimes praticados. E esse problema é de todas as periferias. Recentemente teve o caso lá no Rio de Janeiro do menino Eduardo, de 10 anos, que recebeu um tiro de fuzil na porta de sua casa, no Alemão. O policial diz que ele estava com uma pistola na mão. A mãe dele contesta, diz que o menino tava com o celular na mão. Ele teria sido morto na porta de casa, com um celular na mão. E o celular, muitas das vezes, é a arma que nós comunicadores usamos para contrapor essas violências.

Por ser uma dessas vozes, você foi ameaçado. Saiu de Salvador, voltou. Como ficou essa questão? Você pediu inclusive proteção do Estado...

Passei 16 dias fora de Salvador e retornei. Hoje, percebo que as coisas deram uma esfriada. Mas, no momento em que recebemos ameaças, ficamos acuados, pensa nos nossos, nos familiares, nos amigos, em quem trabalha com a gente. Não quis falar naquele momento por questões de segurança e também para focar na questão da chacina do Cabula, uma questão mais importante, afinal as famílias estavam aqui, as mães ainda estavam em suas casas. Elas precisavam de uma atenção maior, de uma proteção maior.

Você tem um filho. O que é que você espera do futuro dele?...

Meu filho ainda tá pequeno ainda, tem seis meses... mas espero que possa dar a ele a minha militância. Que num futuro próximo ele possa ter uma educação de qualidade, uma educação pública. Que não precise de uma escola particular para ele ter uma educação de qualidade. Que ele possa também ser um jovem, uma pessoa, um adulto que possa impactar nas questões sociais. Minha militância vem disso, de não se preocupar somente comigo, se preocupar também com o que acontece com meus amigos pela comunidade. Minha formação vem da minha resiliência mesmo. Vem da minha resiliência enquanto jovem, negro, morador da periferia. [...] A minha luta é mesmo pra eu ver mais jovens mudando de vida e sendo propulsores dentro das comunidades. Não só na minha comunidade, mas em outras também. Que eles possam causar impacto e gerar mudança.