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Repórter que denunciou grampos é encontrado morto

por Redação Carta Capital — publicado 18/07/2011 15h23, última modificação 06/06/2015 18h16
Sean Hoare foi o primeiro jornalista a declarar, em entrevistas, que ex-editor sabia dos grampos ilegais

Sean Hoare, primeiro repórter do News of The World que acusou formalmente o ex-editor Andy Coulson de incentivar o uso grampos ilegais em sua equipe para obter reportagens, foi encontrado morto nesta segunda-feira em sua casa em Watford. Ele trabalhou nos jornais Sun e no News of the World, ambos do magnata das comunicações Rupert Murdoch.

A informação foi divulgada no início da tarde (horário de Brasília) pelo site do jornal britânico The Guardian. De acordo com o site, a polícia ainda não confirmou se o corpo encontrado é de Hoare. As causas da morte também não foram divulgadas.

Ex-repórter de showbizz do tabloide, Hoare havia sido demitido por problemas relacionados a álcool e drogas.

Hoare foi o primeiro profissional do tabloide a dizer, em entrevista à rede BBC, que Coulson mentia ao dizer que desconhecia as práticas ilegais.

Antes do escândalo, Hoare e Coulson eram grandes amigos, de acordo com o New York Times. No diário, que foi fechado na esteira das denúncias, Hoare afirmava que era continuamente incentivado pelo colega a conseguir informações por meio de grampos ilegais.

Hoare voltou ao noticiário na semana passada, após declarar em entrevista ao New York Times que os jornalistas do tabloide britânico eram capazes de usar tecnologia policial para captar sinais de telefones celulares das vítimas por meio do pagamento a autoridades policiais.

No começo desta semana, as novas revelações levaram à queda das duas principais autoridades da Scotland Yard, a polícia metropolitana de Londres. O chefe da polícia, Paul Stephenson, renunciou ao cargo, após a revelação de que a polícia havia contratado como consultor um editor-executivo do tabloide, Neil Wallis, também implicado no escândalo dos grampos.

Na segunda-feira 18, o comissário-assistente da Scotland Yard, número dois da organização, John Yates, também não resistiu à pressão e se demitiu. Ele também vem sendo questionado sobre a maneira como lidou com o escândalo dos grampos e sua relação com Wallis.

A situação elevou ainda mais a pressão sobre o primeiro-ministro britânico, David Cameron. De acordo com o site da BBC Brasil, um dos ex-editores do jornal varrido pelo escândalo, Andy Coulson, era porta voz do premiê até janeiro deste ano.

As novas revelações deram munição à oposição. Ainda de acordo com a BBC, lideranças do Partido Trabalhista pretendem questionar acerca de sua decisão de contratar Andy Coulson como porta-voz mesmo após as primeiras revelações de escutas ilegais.

Cameron afirmou respeitar a decisão de Stephenson de deixar o cargo e pediu que a polícia metropolitana siga fazendo “todo o possível” para continuar com as investigações sobre os grampos.

Também no domingo, uma ex-editora do News of the World, Rebekah Brooks, foi detida em razão dos escândalos, mas logo em seguida foi libertada sob fiança após prestar depoimento sobre o caso.

Brooks renunciou na sexta-feira ao cargo de presidente-executiva da News International, braço britânico do grupo de Rupert Murdoch – que conta ainda com veículos como o The Sun, o The Times, o The Sunday Times e a rede de TV Sky.

O escândalo levou ao fechamento do News of the World, que chegava a vender 2,7 milhões de exemplares aos domingos, e circulou pela última vez na semana passada.

Os profissionais do jornal são acusados de terem acessado ilegalmente mensagens de celulares de mais de 4 mil pessoas, entre celebridades e vítimas de tragédias – como o atentado terrorista no metrô de Londres e familiares do brasileiro Jean Charles – em busca de informações exclusivas para reportagens.

Hoare deu mais detalhes sobre o uso de "pinging" para o Guardian, na semana passada. Ele descreveu como repórteres pediriam ao editor executivo para obter a localização de um alvo. Em cerca de 15 a 30 minutos alguém na redação saberia dizer 'é exatamente aqui onde eles estão'".

Ele disse: "Você tinha acabado de ir para a redação e eles tinham acabado de voltar para você. Você não pergunta nada. E considera seu trabalho feito. A cadeia de comando é uma disciplina absoluta e é por isso que eu nunca acreditei muito nisso, como com Andy dizendo que ele não estava ciente disso tudo. Isso é besteira. "

Ele disse que estaria confiante sobre o que ele tinha dito ao New York Times sobre "pinging". "Eu não sei quantas vezes isso aconteceu. Poderia ser um erro da minha parte. Mas se eu tivesse acesso como repórter humilde ..."

Ele admitiu que teve problemas com bebida e drogas e que estava em reabilitação. "Mas isso é irrelevante", disse ele. "Não há mais para vir. Isso não vai ir embora."

Hoare nomeou um investigador particular que ele disse que tinha ligações com o News of the World, e acrescentou: "Ele pode querer falar agora, porque eu acho que o que você encontrará agora é um monte de gente vai querer cobrir seus traseiros."

Em conversa com outra jornalista do Guardian, na semana passada, Hoare expressou repetidamente a esperança de que o escândalo de escutas levaria ao jornalismo em geral sendo limpo e disse que tinha decidido denunciar as atividades de alguns de seus ex-colegas do News of the World com aquele objetivo em mente.

Ele também disse que tinha sido ferido no fim de semana anterior, enquanto retirava uma marquise de uma festa infantil. Ele disse que tinha quebrado o nariz e machucou o pé quando um parente acidentalmente feriu com uma coluna pesado ​​da marquise.

Hoare também enfatizou que ele não estava ganhando nenhum dinheiro ao contar sua história. Ele vinha se tratando por problemas de drogas e álcool, relembrou a festa com o ex-estrelas pop e disse que sentia falta dos dias em que ele podia sair pela cidade.