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Está faltando liderança política

por Forum de Interesse Publico — publicado 20/06/2012 10h07, última modificação 06/06/2015 18h23
A economia vai bem, mas o vácuo político impede a busca por um horizonte necessário do desenvolvimento
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Haddad ao fundo, Lula e Maluf na casa do deputado federal, nesta segunda-feira 18. Foto: Rodrigo Coca/Fotoarena/Folhapress

Fernando Filgueiras

Dois elementos se apresentam ao debate público brasileiro: de um lado, o compromisso com o resgate do desenvolvimento e processos de inserção internacional do Brasil; de outro lado, o enfrentamento dos efeitos da crise e a busca de soluções para as contradições estruturais do Brasil.

No que tange ao primeiro fator, já é velha a confusão entre desenvolvimento e crescimento econômico. Cabeças de planilha atribuem ao crescimento econômico os termos do desenvolvimento brasileiro, sem que isso implique o enfrentamento de nossas históricas contradições e a superação das barreiras para a construção da igualdade. O Brasil precisa dar um passo a mais do que deu nos últimos anos. Precisamos ir além do Bolsa Família, ampliar os investimentos e mudar a base da infra-estrutura brasileira, de forma a consolidar um cenário mais promissor para a economia e para a sociedade.

Isso significa que o crescimento econômico, por si mesmo, não diz muita coisa sobre o desenvolvimento. Sem que haja investimento em educação e saúde, os incluídos do Bolsa Família não resistirão a uma eventual onda de recessão decorrente de crises internacionais. Da mesma forma, o governo não conseguirá manter números positivos do PIB apenas por meio de políticas de consumo. Não há motivos para louvar que os brasileiros passaram a tomar iogurte, como na era FHC, nem que agora podem comprar um carro em 81 prestações, na era Lula-Dilma. A única diferença é o valor desses bens. Alguns podem preferir o carro, por conta de seu status e fetiche. Mas a via do consumo beirando ao irresponsável não alimenta os mais pobres, nem reduz as desigualdades. Os carros apenas mudam, e os ricos continuarão com seus carrões importados, enquanto os pobres pagam as prestações de um carro popular com juros exorbitantes.

Alimentar o crescimento pela via do consumo não resolve os nossos problemas. E, ao que parece, o Brasil tem sido acometido pela sua antiga síndrome de potência. A Copa do Mundo e as Olimpíadas não promoverão a nossa inserção internacional: apenas favorecerão o balcão de negócios privados com dinheiro público. Além disso, não criaremos soluções mágicas para a corrupção que nos assola apenas pela pauta da mídia. Um governo que se paute pela mídia tende ao fracasso. E aí sim ele se corromperá.

Sem o investimento em ciência e tecnologia, em educação básica e em condições de bem-estar, pouco avançaremos em uma agenda real de desenvolvimento com equidade. Talvez a palavra que anda faltando no debate, pois a equidade não se cria com projetos mãe-cegonha, nem com auxílios diversos. Não há como haver desenvolvimento econômico sem o investimento real na capacidade de gestão do Estado. Políticas públicas não andam porque o Estado não consegue implementá-las. Ideias há. Recursos também. O que não há é condições reais no serviço público para implementá-las. O resultado da expansão da política pública de consumo – a única que parece possível visto que não depende tanto da estrutura do Estado, mas apenas dos incentivos corretos – é um estado de greve latente na maior parte do serviço público.

O debate sobre o que vem primeiro nas ciências sociais – a economia ou a política – parece mais atual do que nunca. Mas nesse momento, os economistas que me perdoem, mas a política vem primeiro. Não vale a frase “é a economia estúpido”, para explicar o atual momento do Brasil. Tem faltado liderança política para estabelecer o horizonte necessário do desenvolvimento. Uma das condições do desenvolvimento estamos cumprindo, sem dúvidas: a economia, por enquanto, vai bem. Mas falta liderança política que estabeleça a rota, o caminho necessário. O vácuo político decorrente do pragmatismo que nos assola à direita e à esquerda nos embriaga. Assim, vale qualquer aliança, mesmo com Maluf. No final, ninguém que se arvore no papel de líder sobreviverá com Maluf em sua cola. O problema é a política dos estúpidos!

*O Centro de Referência do Interesse Público (Crip), da UFMG, aborda temas como corrupção, democracia participativa, sociedade civil e instituições públicas

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