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Entrevistas com Itamar

por Luis Nassif Online — publicado 05/07/2011 12h14, última modificação 05/07/2011 15h29
"FHC buscou a cedulazinha e a mostrou como se ele fosse o dono do plano. E deixei porque era nosso candidato", disse Itamar em 2000

Por Florestan Fernandes Jr*

Em 2000, realizei várias entrevistas para um projeto que virou uma série de documentários para a televisão, e a publicação de três volumes sobre a politica brasileira. "Histórias do Poder: 100 anos de política no Brasil", Alberto Dines, Florestan Fernandes Jr e Nelma Salomão, editora 34. Publico aqui alguns trechos do depoimento de Itamar Franco, o homem que teve "topete" para implantar o Plano Real e acabar com a inflação no Brasil.

Sobre a política

"A política é, durante um certo período da vida, uma paixão. Tão forte como se fosse uma paixão. Não digo tão forte como uma paixão por uma mulher, porque a paixão por uma mulher é sempre mais forte."

"Áquela época (anos 70) o programa eleitoral era ao vivo, sem qualquer gravação. ...Aconteceu que o candidato da situação ao Senado colocava uma cadeira vazia, e dizia: Ah, o homem não tem capacidade para vir debater, não conhece o que é o Senado, não conhece as leis do país, sequer conhece a Constituição. Aquilo foi me aborrecendo...Um dia por sorte entrei no estúdio e a porta não estava fechada. Meti o pé na porta e sentei na cadeira vazia e disse para o locutor: Cadê o seu candidato?. E o locutor da Arena disse: O senhor esta fazendo isso porque o nosso candidato está viajando. De repente o estúdio encheu de gente, tanto do meu lado quanto do outro. E puxa revólver para cá e para lá, até que apareceu o candidato com um pedaço de pau e quis me bater. Foi aquele corre-corre, e mesmo o estúdio sendo pequenininho, ele não conseguiu me atingir. Por sorte estava lá um fotógrafo da Veja. Essa Veja que hoje tem umas diferenças comigo. Essa cena saiu na revista e a fotografia foi espalhada num jogo do Atlético Mineiro. As pessoas ficaram tão empolgadas que quando entrei no estádio elas vibraram de alegria."

A chapa com Fernando Collor

"Acreditei que o Fernando Collor pudesse fazer algumas modificações que pensava que o Brasil ja poderia ter feito antes. E aceitei então ser vice dele. Acredito que antes de mim ele deve ter pensado em duzentas ou trezentas pessoas. Aceitei até por força do destino."

Sobre o Real, o PT, e a mágoa com FHC

"O PT cometeu um erro. Quando nós convidamos a ministra Erundina para fazer parte do governo foi um deus-nos-acuda. Olhei para o PT e o PT não entendeu o Plano Real. O Plano Real que não era do presidente Cardoso. O ministro Paulo Haddad foi quem começou e depois veio o ministro Eliseu Resende. O ministro Fernando Henrique organizou uma boa equipe, vou ter que fazer justiça, uma equipe intelectualmente preparada."

"O homem se gaba hoje que acabou com a inlfação... Quem tinha coragem de colocar um sociólogo na economia? Que entende menos de matemática que eu. Que entende tanto de economia quanto eu. Eu talvez até entenda mais de economia do que ele."

"Algumas revistas, alguns jornais acham que o senhor Fernando Henrique saiu do espaço, foi um espírito que deu a faixa a ele, não eu."

Outro dia, é incrível, chegou uma jovenzita para mim e falou: "Dizem que o senhor foi presidente, mas olha aqui, no meu livro de história, não tem o seu nome. Pula do presidente Collor para o presidente Fernando Henrique."

Sobre a sucessão presidencial

"Tenho uma pesquisa guardada até hoje. Chamei o ministro Antonio Britto, em julho e disse: Britto, olha aqui a pesquisa: doutor Cardoso tem 2%, você tem 19% e o Lula 44%. Não acha melhor você ser o candidato? Não, Itamar, sou muito moço, quero governar o meu Estado."

"A medida provissória não foi assinada pelo senhor Cardoso, que nem assistiu à reunião do lançamento do Plano Real. Mas foi no meio da rua, buscou a cedulazinha e a mostrou como se ele fosse o dono do plano. E deixei por quê? Porque era nosso candidato. Se eu não deixar que ele inventou o plano, o Lula vai vencer as eleições."

Matéria originalmente publicada em Luis Nassif Online

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