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Entenda o caso no qual Feliciano é acusado de tentativa de estupro

por Marsílea Gombata publicado 09/08/2016 00h00, última modificação 15/08/2016 12h56
Jovem militante do PSC afirma que deputado federal a agrediu e aliados buscaram comprar seu silêncio
Zeca Ribeiro/ Câmara dos Deputados
feliciano

Feliciano teria oferecido emprego e salário de 15 mil reais à jovem

Desde que veio à tona na semana passada, o caso da estudante de jornalismo Patrícia Lélis, que acusa o pastor e deputado federal Marco Feliciano (PSC-SP) de tentativa de estupro e agressão, está envolto em controvérsias e polêmicas. A versões se contradizem e ainda há muito a ser investigado pela polícia. Veja o que se sabe até aqui:

Qual é a principal acusação contra Marco Feliciano (PSC-SP)?

A jovem de 22 anos Patrícia Lélis acusa Feliciano de tentar estuprá-la. O crime, de acordo com o boletim de ocorrência registrado no 3o DP da Polícia Civil, no centro de São Paulo, teria ocorrido na manhã de 15 de junho. Segundo Patrícia, o deputado a havia convidado para uma reunião em seu apartamento funcional em Brasília.

Quando chegou lá, Feliciano estava sozinho e teria dito que desejava conversar com ela a sós. Segundo afirmou Patrícia, o parlamentar propôs que ela fosse sua amante em troca de um salário de 15 mil mensais para ocupar um cargo de confiança. Porém, atesta o B.O., o parlamentar “passou a se exaltar e tentou arrancar o vestido da vítima com emprego de violência”.

Encontrando resistência, teria dado “um soco na boca e um chute na perna” de Patrícia, obrigando-a a se despir. Ela disse só ter conseguido escapar quando uma vizinha ouviu seus gritos e tocou a campainha para saber se estava tudo bem.

Quem é a estudante que o acusa?

Patrícia Lélis tem 22 anos e é estudante de jornalismo. Filiada ao Partido Social Cristão (PSC) desde março, é conhecida no YouTube por ser conservadora, religiosa e anti-feminista.

Além das acusações contra Feliciano, quem mais está envolvido?

No boletim de ocorrência que Patrícia fez na sexta-feira dia 5 constam nomes como o de Talma Bauer, chefe de gabinete de Feliciano, Emerson Biazon, assessor do Partido Republicano Brasileiro (PRB), do Pastor Everaldo, presidente nacional do PSC, e de Gilberto Nascimento, deputado federal do PSC por São Paulo. 

Patrícia conta que Bauer tentou comprar o seu silêncio, assim como o Pastor Everaldo, que teria oferecido dinheiro para que não denunciasse Feliciano em uma reunião em Brasília com outros nomes do PSC. "Bauer ofereceu dinheiro para eu ficar quieta e também o pastor Everaldo. Não sei estimar a quantia, porque estava dentro de um saco", explicou em entrevista coletiva na segunda-feira 8. "Dentro de um partido que defende que o criminoso seja punido, eu achei que fossem ajudar e tomar as medidas cabíveis junto comigo. Mas não foi bem assim."

O enredo começa a se complicar quando Patrícia viaja para São Paulo, onde diz ter sido sequestrada e ficado em cárcere privado. A viagem teria ocorrido a convite de Biazon para uma entrevista de emprego. Ao chegar ao hotel San Raphael, no Largo do Arouche, Patrícia conta no B.O. ter sido procurada por Bauer e obrigada a falar onde estava sob ameaça de que ele mataria sua família. Câmeras de segurança internas do hotel, no entanto, mostram o encontro de Patrícia com Bauer no lobby do hotel, ainda no check in, quando os dois se abraçam. 

O que diz Feliciano?

Ao lado da mulher Edileusa, Feliciano gravou um vídeo no sábado 6 no qual buscou desmentir as acusações. “A justiça dos homens inúmeras vezes me inocentou, mesmo depois de eu ter sido escrachado publicamente”, afirmou. “Como não conseguem nunca me pegar em nada nesse País, não sou corrupto, não sou uma pessoa má, agora tocaram no meu moral. Mas tenho certeza que a justiça vai vir à tona.” 

O deputado do PSC, entusiasta de projetos como “cura gay” ou “castração química para estupradores”, fez ainda um apelo ao público para que não o “condenem antes do tempo” e disse perdoar Patrícia. “Embora eu esteja com o coração quebrado e machucado, com a minha família sofrendo, eu não vou julgar essa moça, eu perdoo ela. Embora eu espere que ela seja responsabilizada pela falsa comunicação do crime, eu perdoo.” 

Em entrevista ao SBT no domingo 14, o deputado se defendeu e disse que estava com o ministro do Trabalho, Ronaldo Nogueira, no dia 15 de junho, manhã do suposto crime denunciado por Patrícia. Feliciano teria ficado até 9h esperando o ministro. Na Câmara, onde tinha reuniões em comissões logo em seguida, há registro de 'ausência não justificada' para Feliciano em três comissões, de acordo com a Coluna Esplanada, do UOL.

A assessoria de Nogueira afirma que Feliciano esteve com o ministro extra-agenda, mas não há como provar além de uma foto postada no Twitter por Bauer, assessor de Feliciano. Imagens de segurança do edifício onde vive o parlamentar, no entanto, podem esclarecer esse impasse.

 

Se a jovem fez as acusações, o que falta para a detenção provisória de Feliciano e os outros envolvidos?

Alguns pontos do caso ainda não estão esclarecidos. Por exemplo, por que a jovem aceitou o convite para ir para São Paulo ou por que gravou vídeos posteriores no qual desmentia as acusações contra Feliciano. Ao mesmo tempo, não fica claro como Bauer chegou ao hotel no Arouche – Patrícia diz que foi obrigada a passar o endereço do San Raphael para ele ao telefone, sob ameaça de que ele mataria seus parentes. Imagens da câmera de segurança, por sua vez, mostram Patrícia abraçando Bauer quando o encontra no momento do check in. Patrícia conta que Bauer estava no hotel armado e a obrigou fazer vídeos desmentindo toda a história.

Um vídeo divulgado recentemente mostra ainda Patrícia conversando com um outro homem, enquanto Bauer está ao telefone, sobre quantias a serem pagas. "O valor é os dez (sic), pode falar isso para ele. Pilantra, safado. Quer passar a perna em mim?  Eu quero pegar ele, quero arrastar a cara dele no chão'', diz Patrícia no vídeo gravado aparentemente no saguão do hotel no Arouche.

Além dessas imagens e de um outro vídeo que mostra uma suposta conversa entre Patrícia e Bauer, outra prova de que houve negociações envolvendo dinheiro são os 20 mil reais apreendidos por agentes do 3º DP entregues por Biazon, que seriam parte da primeira de seis parcelas de 50 mil reais, em um acordo de 300 mil reais. 

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Patrícia diz ter sido agredida pelo parlamentar em seu apartamento (Foto: Fabio Rodrigues Pozzebon / Agência Brasil)

Como seguem as investigações? 

Se antes acatava a tese de sequestro e cárcere privado, o delegado Luis Roberto Faria Hellmeister hoje crê que Patrícia mentiu sobre os dias em São Paulo. O B.O. da sexta-feira 5 fala nos crimes de tentativa de estupro, coação no curso do processo. e sequestro e cárcere privado, agora descartada pelo delegado do 3º DP.

“Já descartei. Qualquer ser de inteligência mediana entende que isso não aconteceu. Poxa, comeram no Boi na Brasa, no Gato que Ri. Ela foi ao shopping e gastou 700 reais em maquiagem. Que cárcere privado é esse? Eu jogo 40 anos de polícia na privada se não for isso o que estou dizendo”, contesta Hellmeister ao garantir que o esteve hospedado com Patrícia o seu então namorado, Rodrigo Simonsen.

Inquieto, o delegado revela prints de uma troca de mensagens de um celular que seria de Biazon. Na conversa com Patrícia, o dono do aparelho parece falar sobre valores a serem negociados com uma terceira pessoa. “Ela veio para São Paulo receber dinheiro, e eu me fiz de bobo ao acreditar na sua primeira versão”, martiriza-se Hellmeister. 

Além do 3º DP da Polícia Civil de São Paulo investigam o caso a Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher, na Asa Sul de Brasília, onde Patrícia também fez um boletim de ocorrência, e a Procuradoria Geral da República que entra na história para pedir à Polícia Legislativa as imagens de vídeos das câmeras instaladas no prédio, corredores e elevadores onde mora o parlamentar. 

Quais os próximos passos no caso? O parlamentar pode ser afastado ou punido?

A senadora Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM), procuradora especial da Mulher no Senado, protocolou junto ao Ministério Público do Distrito Federal um ofício no qual solicita que Feliciano seja investigado pela suposta tentativa de estupro. “A denúncia é mais um caso de assédio sexual, praticado por figura tida como zelador de direitos e garantias individuais, e mais uma demonstração do cenário machista que compõe nosso parlamento e sociedade. O grave relato da estudante que foi pressionada a sair de Brasília evitando um escândalo precisa ser investigado e a culpa atribuída ao autor do fato”, escreveu a senadora no documento.

Em meio à polêmica, o PSC decidiu manter Feliciano à frente da liderança do partido na Câmara, o que é visto por alguns como tentativa de desgastar a imagem do parlamentar e abrir espaço para Gilberto Nascimento, deputado federal do PSC e ex-delegado, que também teria estado presente à reunião na qual o Pastor Everaldo ofereceu dinheiro a Patrícia.

Fontes afirmam que Nascimento ainda é bastante influente na Polícia Civil, que estaria buscando abafar o caso a fim de não macular a imagem do PSC. Bauer, que chegou a ser detido por algumas horas na sexta-feira 5, trabalhava na Polícia Civil como investigador. 

“É uma história cheia de controvérsias, reviravoltas, que indicam que não há isentos. Estamos assistindo a uma intrigante situação que só reforça a interpretação de que o quadro da política partidária no Brasil cada vez mais gera repulsa, em especial quando religiosos, propagadores de bandeiras da moral e da tradição, são envolvidos”, avalia Magali Cunha, da Universidade Metodista de São Paulo.