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Embaixador dos EUA relatou “crise de identidade” da Abin em telegrama

por Felipe Corazza — publicado 20/02/2011 10h12, última modificação 21/02/2011 11h03
Em correspondência revelada pelo WikiLeaks, Clifford Sobel afirma a seus superiores que a agência é incapaz de se adaptar às “realidades do regime pós-militar”

Em correspondência revelada pelo WikiLeaks, Clifford Sobel afirma a seus superiores que a agência é incapaz de se adaptar às “realidades do regime pós-militar”

As correspondências diplomáticas reveladas pelo WikiLeaks já demonstraram, por diversas vezes, o tom de crítica de botequim adotado pelos embaixadores dos Estados Unidos na análise dos países onde estavam sediados. Dessa vez, o site divulga um documento do embaixador no Brasil, Clifford Sobel, comentando a atuação da Abin, a estratégia nacional de defesa e relatando a cobertura da imprensa no caso do “grampo” do telefone de Gilmar Mendes, então presidente do STF. O telegrama, de código 08BRASÍLIA1314, foi produzido em outubro de 2008.

No telegrama enviado a seus superiores no Departamento de Estado americano, Sobel relata o que foi divulgado pela grande imprensa na época do grampo que nunca veio à tona. A informação repassada pelo embaixador baseia-se na leitura das matérias publicadas à época e nas declarações de Mendes e do senador Demóstenes Torres – com quem Gilmar teria conversado na conversa que alegou estar grampeada.

Comprando o mesmo tom das publicações em que se informou, Sobel parte do princípio de que houve mesmo um grampo – mesmo sem qualquer prova material deste delito – e atribui a autoria à Abin, como parte da operação Satiagraha. Sem, em nenhum momento, admitir a hipótese de não ter havido grampo algum, o embaixador parte, então, para seu comentário sobre a Agência Brasileira de Inteligência. Segundo ele, “a Abin, que nunca foi um peso-pesado, agora sofreu um golpe devastador”.

Tal golpe, para Sobel, foi fruto de uma certa “incapacidade da Abin de se adaptar às realidades do regime pós-militar e de achar um equilíbrio confortável entre interesses conflitantes na esfera de segurança do governo brasileiro”. Segue o embaixador dizendo que tal “incapacidade” reduziu o setor de inteligências a “um ator institucional peso-galo”.

O quadro pintado pelo embaixador sobre a área de inteligência brasileira desemboca na ideia fixa dos EUA desde 2001: a “guerra ao terror”. Já tendo feito comentários em telegramas passados sobre a “incapacidade” brasileira de lidar com o terrorismo, Sobel coloca mais essa na conta da Abin: “Junto com a esperança de que a Abin pudesse ter um papel mais robusto na luta contra o terrorismo, a reforma e a renovação na Abin terão de aguardar uma nova liderança e agora podem ser mais do que a agência pode almejar”.

Em trecho ainda mais duro, o embaixador afirma que o país ainda não aprendeu a lidar com a segurança nacional após o término do regime militar. Sem apontar exatamente quais são os líderes que falham em tal tarefa – nem , tampouco, fazer qualquer observação sobre quão maléfico foi para o país o comando dos militares -, o argumento de Sobel aponta no comentário: “A crise de identidade de Abin é em parte um sintoma de um problema maior, a incapacidade dos líderes do Brasil, desde o fim do regime militar, de articular uma estratégia de segurança nacional coesa e confiável que delineie as ameaças que a agência de inteligência do Brasil deveria monitorar”.

Por fim o representante diplomático dos Estados Unidos avalia que o presidente Lula “abafou o escândalo” do grampo – ainda não comprovado – na tentativa de se livrar da liderança da Abin, exercida, então, por Paulo Lacerda, exonerado em dezembro de 2008. “Politicamente, Lula parece ter coibido este novo escândalo agindo rapidamente no sentido de se livrar da liderança da Abin, embora o Supremo Tribunal e muitos no Congresso tenham começado a examinar a questão maior dos grampos telefônicos e possam estar se abstendo de agir nesse caso, na expectativa de que o governo Lula tome medidas para frear a aparente politização das atividades da Abin”, conclui Sobel.

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