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Embaixador diz que situação está mal no Haiti um ano após terremoto

por Agência Brasil publicado 12/01/2011 18h01, última modificação 12/01/2011 18h48
O diplomata afirmou que as dificuldades derivam principalmente da burocracia, que impede o desbloqueio dos recursos doados pela comunidade internacional. Por Renata Giraldi

O diplomata afirmou que as dificuldades derivam principalmente da burocracia, que impede o desbloqueio dos recursos doados pela comunidade internacional
Por Renata Giraldi *
Brasília – Um ano depois do pior terremoto da história do Haiti, o país está longe do ideal. A conclusão é do embaixador do Haiti no Brasil, Idalbert Pierre-Jean, em entrevista à Agência Brasil. O diplomata afirmou que as dificuldades derivam principalmente da burocracia, que impede o desbloqueio dos recursos doados pela comunidade internacional.
Emocionado, o embaixador apelou para que os “países amigos do Haiti” - grupo criado após o terremoto – mantenham as doações. “Acho que dificilmente o governo brasileiro pode fazer mais do que já fez. Mas diante do que ocorre no Haiti, mantenho o pedido para que a ajuda ao povo haitiano continue. O Haiti é um país pobre que hoje depende da ajuda internacional.”
A seguir, os principais trechos da entrevista de Pierre-Jean à Agência Brasil:
Agência Brasil – Como está a situação hoje no Haiti?
Idalbert Pierre-Jean
– Objetivamente, a situação está muito mal. É preciso reconhecer e admitir. A situação só não está pior do que no dia 12 [quando houve o terremoto] e nos dias seguintes quando tudo estava muito destruído. O que vemos hoje é um pouco melhor do que naqueles dias [após o terremoto]: não estamos mais enterrando pessoas como antes, há menos gente nas ruas [por falta de moradia] e muitas pessoas conseguiram voltar para suas casas.
ABr – Há críticas sobre a lentidão no processo de reconstrução do país e também no que se refere à ajuda às vítimas. O que ocorre no Haiti?
Pierre-Jean
– Tudo que envolve fundos [de recursos] internacionais é complicado. Não se trata de falar mal [dos doadores]. Mas o dinheiro não está chegando. É fácil aprovar a doação de ajuda humanitária e de recursos. Mas não é simples desbloquear esses recursos. Não se pode confundir nem misturar o que é prometido com o que pode chegar ao país [que aguarda ajuda].
ABr – Esse tipo de crítica vale para o Brasil também?
Pierre-Jean
– Não, de jeito algum. O Brasil foi o primeiro país a enviar ajuda e entregar o prometido.
Cerca de US$ 60 milhões foram enviados do Brasil para o Haiti logo depois do terremoto. Mas é preciso também distinguir os recursos destinados ao orçamento do Haiti e aos projetos de reconstrução.
ABr – Organizações não governamentais e outras entidades afirmam que há suspeita de desvio de recursos e má gestão por parte do governo. Isso pode estar ocorrendo?
Pierre-Jean
– Não é atribuição das organizações não governamentais criticar a aplicação dos recursos no Haiti. Também há organizações não governamentais que merecem críticas, não falo a respeito da Cruz Vermelha Internacional, da Cruz Vermelha Brasil nem do Viva Rio e outras, mas de algumas que não são merecedoras de respeito ético nem moral. A organização do Haiti não está nas mãos dessas entidades.
ABr – Em relação às denúncias de violência sexual contra mulheres e meninas que vivem nos acampamentos provisórios no Haiti, como explicar isso?
Pierre-Jean
– É uma pena e ocorre porque ainda há uma situação de improviso, de muita gente morando em acampamentos. O governo do Haiti e as organizações não governamentais  estão muito preocupadas. [Depois das denúncias] aumentou a vigilância. Inicialmente, a preocupação era com a violência e o tráfico envolvendo crianças.
ABr – Paralelamente às suspeitas de violência sexual surgiu a epidemia de cólera. É uma situação agravando a outra.
Pierre-Jean
– O povo haitiano está acostumado a lutar, são mais de 200 anos de combate [os processos políticos e a guerra civil no país]. Mas não é fácil. Logo depois do terremoto, houve o ciclone que provocou enchentes no país, em seguida surgiu o cólera. A doença está baixando de intensidade, mas precisa de um tempo para ser erradicado. A falta de água, de saneamento básico e as más condições de higiene não favorecem o combate ao problema.
ABr – Com tudo isso, os haitianos vão às ruas protestar. Recentemente houve manifestações contra  a presença de alguns militares das forças de paz. O povo haitiano quer que os estrangeiros deixem o país?
Pierre-Jean
–  Em relação às forças de paz, elas cooperam muito com o Haiti, mas um dia terão de deixar o país. Não podem ficar lá para sempre. Os especialistas em segurança internacional saberão definir o momento certo [de elas deixarem o país]. As manifestações não eram contra os militares brasileiros, mas contra alguns integrantes da Minustah [a missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti].
ABr – Qual o apelo que o senhor faz para a comunidade internacional?
Pierre-Jean
– Não é momento de se dar as costas para o Haiti, peço que a comunidade internacional pense em [continuar a] ajudar o país. A situação no Haiti está um pouco melhor do que há um ano, mas há muito o que fazer no país. Como representante do Haiti no Brasil, acho que dificilmente o governo brasileiro pode fazer mais do que já fez. Mas, diante do que ocorre no Haiti, mantenho o pedido para que a ajuda ao povo haitiano continue. O Haiti é um país pobre que hoje depende da ajuda internacional.

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