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Política

Eleição e 'mensalão'

por Mauricio Dias publicado 22/09/2012 11h28, última modificação 22/09/2012 11h28
Comparada às anteriores, a campanha de 2012 tem sinais de que falta dinheiro tanto no caixa 1 (oficial) quanto no amaldiçoado caixa 2
Marcos Valério

O empresário Marcos Valério. Foto: Marcelo Prates/Hoje em Dia/AE

É possível notar na propaganda eleitoral nas ruas do Rio de Janeiro a força política da gigantesca aliança de 20 agremiações para sustentação da candidatura à reeleição do prefeito Eduardo Paes (PMDB). Curioso é como alguns candidatos petistas à vereança, integrantes dessa coligação, se apresentam: “Candidato do partido do Lula”.

Mais do que a carona na popularidade do ex-presidente, que, como se sabe, é maior do que o “partido do Lula”, há reação clara quanto ao possível efeito negativo do chamado “mensalão”. Se a supressão da sigla do PT nos estandartes eleitorais é uma suposição que ainda não se confirmou, há um efeito bem mais perceptível: a campanha de 2012, comparada às anteriores, tem sinais de que falta dinheiro tanto no caixa 1 (oficial) quanto no amaldiçoado caixa 2.

“Está assim em todo o País”, afirma um especialista de larga experiência no ramo, hoje aposentado após longa folha de serviços prestados ao PSDB. Mesmo nos primeiros dias da propaganda eleitoral gratuita não há rastro de uso do dito mensalão como mote dos adversários dos petistas. E talvez esse problema seja esquecido, mesmo em cidades onde o PT possui candidaturas eleitoralmente relevantes e com chances de vitória. Afinal, quando se trata de caixa 2, uns e outros são farinha do mesmo saco.

Quem faz barulho com o julgamento no STF é a mídia. Ela fala pela oposição. Vê nisso a oportunidade de, mais uma vez, sangrar Lula e o PT, revivendo, em 2012, o que, em 2005, foi pintado por ela como algo próximo ao maior espetáculo da Terra ou, pelo menos, como o maior escândalo de corrupção da República. O objetivo dessas metáforas é óbvio.

Um pouco de história ajuda a compreender essa obsessão. Lula entrou inesperadamente no ambiente que FHC, em ensaio acadêmico conhecido, chamou de Clube de Eleitos. Era uma sociedade até então muito restrita. Antes do torneiro mecânico, só se entrava nela com um diploma de bacharel ou com a espada na mão. Considerando somente os presidentes eleitos pelo voto popular foram 12 advogados, dois militares, um medico, um economista e dois sociólogos.

Ao longo do tempo houve muitas transformações no sistema de caça ao voto. Um processo eleitoral subvertido pela denúncia contida em duas frases do romancista José de Alencar: “O punho cerrado da violência” e “O dedo flexível da fraude”.

Começou assim. O crescimento natural do eleitorado e, mais, a extensão democrática do direito de voto ao analfabeto, além da redução da idade mínima do eleitor para 16 anos, tornaram a eleição mais onerosa. Surgiu o Horário Eleitoral e, com ele, o marqueteiro. Deu chabu. O que foi feito para baratear terminou encarecendo o processo.

A competição, então, transformou-se em fato econômico. Nesse contexto despontou o publicitário Marcos Valério. Ele fazia o dinheiro aparecer. Inicialmente para o PSDB e, posteriormente, para o PT. A base era Minas Gerais.

Antes do PSDB e do PT houve o caixa 2 de Ademar, de JK, de Collor, de Tancredo/Sarney (mesmo em eleição indireta) e de FHC. Todas já rastreadas e registradas por diversos pesquisadores. Enfim, com o PT, o sistema caiu nas malhas da Justiça.

Políticos e a mídia conviviam com essa situação. Era admitida, então, como uma espécie de contravenção penal. Um crime menor. Que todos sejam julgados, punidos ou absolvidos conforme as leis.

O problema é que o moralismo de agora é de ocasião. Tem validade até o momento que o poder trocar de mãos. Nesse caso, tudo será como antes amanhã.

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