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Walter Maierovitch

Elas fizeram a diferença

por Wálter Maierovitch publicado 16/10/2011 10h00, última modificação 16/10/2011 10h01
A atual presidenta da Libéria e uma ativista ganharam o Nobel da Paz. Foram fundamentais na pacificação do país africano

A Libéria proclamou a sua independência em 1847 e adotou uma constituição no modelo daquela dos Estados Unidos. Sua fundação remonta a 1822 e baseia-se na organização humanitária norte-americana chamada American Colonization Society. A sociedade batia-se pela libertação dos escravos afro--americanos e o seu envio de volta à África.

A partir de 1980, quando do golpe militar que levou ao poder Samuel Doe, a Libéria mergulhou em guerras civis e atrocidades. O último ditador, sanguinário e corrupto, foi Charles Taylor que, preso em 2006, depois de fugir para a Nigéria, responde a processo por crimes contra a humanidade no Tribunal Penal Internacional. Durante a ditadura Taylor, iniciada em 1989 e derrubada em 2003 pelos rebeldes do Liberianos Unidos pela Reconciliação e Democracia (Lurd), a Libéria também se transformou em um narco-Estado.

A pacificação liberiana veio com o Tratado de Acra (nome da capital de Gana onde foi firmado) de agosto de 2003 e duas mulheres tiveram fundamental força de pressão: Ellen Johnson-Sirleaf, atual presidente, e Leymah Gbowee, advogada e ativista. Ambas, na sexta-feira 7, ganharam o Prêmio Nobel da Paz, ao lado da ativista iemenita Tawakkol Karman.

A Libéria deixa assim uma história de sangrentas guerras civis e intromissões militares em Serra Leoa para se apresentar como a nação de duas mulheres que lutaram contra as guerras, as injustiças e a corrupção.

O Nobel da Paz foi outorgado pela primeira vez em 1905 e até agora conta com 15 vencedoras. Pela primeira vez o prêmio foi coletivo e atendeu ao aspirado no Fórum Social Mundial de Dacar (Senegal), ocorrido em fevereiro. Nele, foram exibidas faixas para se premiar mulheres africanas pela paz.

Sirleaf, formada em economia na Universidade do Colorado e ex-ministra das Finanças, foi eleita presidente da Libéria em 2006 e, nos seis anos de governo, acalmou as etnias e reprimiu a corrupção institucionalizada desde os tempos de Doe e Taylor. Na sua primeira eleição, surpreendeu ao vencer o idolatrado Geor-ge Weah, considerado em 1995, e quando jogava pelo Milan, o melhor futebolista do mundo (ganhou a Bola de Ouro). Como se percebeu, os liberianos optaram pela candidata que prometia a paz e o combate à corrupção em vez do consagrado esportista.

A outra liberiana, Gbowee, criou em 2002 um empolgante movimento de mulheres a orar e cantar pela paz. Foi dela a iniciativa da greve de sexo de conviventes envolvidos na guerrilha. Sua biografia, recém-lançada nos EUA, tem o título Mighty Be Our Powers: How sisterhood, prayer and sex changed a nation at war.

Inspirada no movimento popular da Tunísia que se multiplicou com o nome de Primavera Árabe, a jornalista e ativista Karman virou a “mãe da revolução do Iêmen”, que, apenas temporariamente, se livrou do ditador Abdullah Saleh, no poder desde maio de 1990. Karman preside a organização Jornalistas sem Algemas e abdicou do niqab (véu com abertura apenas nos olhos) por entendê-lo incompatível a uma ativista que precisa ter a imagem conhecida.

No comunicado expedido pelo comitê norueguês está ressaltado o desejo de o prêmio poder: 1. Ajudar a colocar fim à repressão contra as mulheres ainda presente em muitos paí-ses. 2. Reconhecer o grande potencial condutor das mulheres à democracia e à paz.

Tal comunicado não alcança ou sensibiliza o obscurantista presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, e o líder supremo, aiatolá Ali Khamenei. A advogada iraniana Shirin Ebadi, Nobel da Paz em 2003 pela luta por direitos humanos, teve até de se exilar em 2009 no Canadá.

No Irã, que deixou o regime do corrupto xá Reza Pahlavi para migrar ao fundamentalismo xiita, a atriz Marzieh Vafamehr acaba de ser condenada a 90 chibatadas e um ano de prisão fechada. Ela não teve a mesma sorte da atriz Golshifeth- Farahani, que conseguiu, depois de condenada a seis anos de cárcere e uma centena de chibatadas, fugir para Paris.

Vafamehr está presa desde julho e foi acusada de participar de filmagem sem autorização e de exibir o rosto e a cabeça descobertos. A condenação, sujeita a apelação, teve um efeito inesperado para o governo e os aiatolás. Cópias piratas do filme circulam clandestinamente pelo teocrático Irã e se difundem como a força da Primavera Árabe. O filme leva o título de My Tehran for Sale (Minha Teerã em Liquidação) e conta a história de uma jovem que, depois do fechamento do seu teatro pela polícia dos costumes, passa a viver na clandestinidade a fim de poder se expressar artisticamente.

O filme enraiveceu a polícia dos costumes, Ahmadinejad e Khamanei logo na primeira cena. Ela mostra a chegada de policiais a uma festa de jovens que dançavam, bebiam e fumavam. No filme, um dos policiais berra às jovens: “Vocês pensam que estão na Europa? Cubram-se já e afastem-se dos homens”.

As mulheres têm feito a -diferença. •

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