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Análise / Luiz Antonio Cintra

Eike não me representa

por Luiz Antonio Cintra — publicado 31/10/2013 14h27, última modificação 26/06/2015 09h14
Ao contrário do que diz o NYT, a queda da OGX não explica o momento econômico brasileiro
Fábio Pozzebom/Agência Brasil
Eike Batista

O empresário Eike Batista

No embalo do pedido de recuperação judicial da OGX, de Eike Batista, o jornalista Dan Horch, do The New York Times, traça um paralelo entre a ascensão e queda do milionário brasileiro e o andamento da economia do País. A comparação é compreensível, particularmente aos olhos estrangeiro. É, porém, equivocada.

Desde os seus dias de glória, a partir de 2010, quando subia feito um rojão na lista de bilionários da Forbes, Eike Batista era apenas uma promessa de fortuna bilionária. Em busca do ganho rápido prometido pelas ações da petroleira, milhares de investidores toparam cacifá-lo, na expectativa de o óleo jorrar em grande quantidade. Como uma aposta de cassino, poderia ter dado certo. As chances de acerto, contudo, eram públicas, bastava uma busca na internet para saber, por exemplo, que a possibilidade de sucesso, na altura do lançamento das ações, era de cerca de 25%. Ou seja, havia uma probabilidade de dar com os burros n'água muito maior - ou 75%, na ponta do lápis.

O caso da economia brasileira é bem diferente e muito mais complexo, naturalmente. O jornalista do NYT acerta ao dizer que o País surfou na alta do preço do minério de ferro e da soja, principalmente entre 2003 e o agravamento da crise financeira internacional, a partir do início de 2009, no caso do minério de ferro. No caso da soja, a bonança segue a todo vapor. Uma volta pelo Mato Grosso ou Goiás levaria o jornalista a encontrar, inclusive, fazendeiros norte-americanos (mas também canadenses e europeus), que chegam ao Centro-Oeste para aproveitar o boom da agricultura local.

Mas o bom andamento da economia brasileira não se deve apenas às commodities. Ao ampliar os programas de transferência de renda, valorizar o salário mínimo e as aposentadorias, o dinamismo do mercado turbinou a geração de empregos com carteira assinada e incorporou ao mercado consumidor algumas dezenas de milhões de cidadãos.

Esse movimento encareceu os serviços, aumentou o movimento dos aeroportos, estradas e, diante dos estímulos à indústria automobilística, entupiu as cidades brasileiras com milhões de veículos particulares. Não por outro motivo, a mobilidade urbana entrou na agenda eleitoral com maior vigor a partir dos protestos de junho, cujo estopim, convém lembrar, foi o custo do transporte público na cidade de São Paulo.

A comparação do destino de Eike Batista com o da economia brasileira é ruim porque leva a crer que tudo no País não passa de uma bolha, semelhante à que inflou os preços das ações da OGX, um lance típico das bolsas de valores e com uma precária ligação com o “mundo real”.

Tanto é assim que as demais empresas do grupo X, a de portos, mineração e energia, rapidamente encontraram sócios dispostos a assumir os respectivos controles acionários, numa demonstração de confiança na economia brasileira. O mesmo raciocínio vale para o consórcio que assumiu o campo de Libra, com empresas chinesas e europeias, públicas e privadas, dispostas a realizar, com a Petrobras, um investimento de cerca de 80 bilhões de dólares na próxima década.

Ao contrário dos acionistas que acreditaram em Eike, elas sabem onde estão se metendo: sabem que a chance de acerto das reservas provadas do pré-sal, caso de Libra, é de 90%. No caso da economia brasileira, falta principalmente destravar os investimentos em infraestrutura, um nó econômico mas também político que, aos trancos, dá sinais de que será superado em alguns anos, após décadas de inação.