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Política

Entrevista

Eduardo Campos, um apoio decisivo para Dilma

por Celso Calheiros, de Recife — publicado 02/11/2010 18h10, última modificação 03/11/2010 10h05
Governador de Pernambuco foi um dos grandes vitoriosos das eleições. Seu PSB também
Eduardo Campos, um apoio decisivo para Dilma

Governador de Pernambuco foi um dos grandes vitoriosos das eleições. A Celso Calheiros. Foto: Alexandre Severo/Folhapress

O governador de Pernambuco, Eduardo Campos, vive um momento especial na presidência do PSB. Ele próprio foi reeleito com o maior porcentual de votos obtidos por um candidato a cargo majoritário nestas eleições: 82,84%. O segundo mais votado também é filiado ao partido, Renato Casagrande, escolhido no Espírito Santo por 82,3% dos eleitores. No fim das contas, a legenda elegeu seis governadores e viu sua bancada no Congresso crescer: agora são três senadores e 34 deputados federais. “O PSB está construindo uma marca que inclui a participação da sociedade”, afirma Campos, que emerge da disputa eleitoral como um dos mais promissores quadros da política nacional.

CartaCapital: Como o senhor explica o resultado da eleição 2010 para o PSB?
Eduardo Campos
: Tivemos um crescimento consistente e atingimos outro patamar. Elegemos seis governadores e a bancada federal cresceu em quantidade e expressão política. O partido sai maior da eleição e com mais responsabilidades.

CC: E o fato de ter os dois governadores proporcionalmente mais votados?
EC:
Acho que o PSB está construindo uma marca que inclui a participação da sociedade, que escolhe as prioridades e tem capacidade de realizá-las. É o discurso junto à ação concreta. Fazemos inovações na gestão pública, garantindo dessa forma que o Estado fique mais próximo de quem precisa da escola pública que funciona, da saúde que funciona, de uma segurança pública melhor. Ou seja, não é só fazer obras, mas fazer funcionar o serviço público de forma que melhore a vida das pessoas. Estamos construindo essa marca nos governos do PSB Brasil afora.

CC: O crescimento do partido não pode causar mal-estar aos demais aliados e legendas de esquerda?
EC:
Acho que não. Pode gerar um exemplo: como nós aprendemos com tantas outras forças políticas. Fomos buscar, sem preconceito, experiências em administração de aliados e de adversários. Hoje o PSB tem experiência na implantação de escola em tempo integral, capacitação de jovens e adultos em cursos técnicos com êxito. Algumas coisas o PSB foi lá e procurou. Outras desenvolvemos nas nossas administrações.

CC: Em quais governos vocês se inspiraram?
EC:
Em governos do PT, PDT, PSDB. Fomos ver coisas que efetivamente estavam funcionando. Quando fomos fazer, em Pernambuco, o Pacto pela Vida (programa de combate à violência), efetivamente antes do Pronasci (Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania), fomos ver o que estava sendo desenvolvido no Rio de Janeiro, na gestão do PMDB; em Minas Gerais, na administração do PSDB:, em São Paulo, em prefeituras do PT. O resultado é que em três anos reduzimos o número de homicídios na capital em 40%.

CC: Qual a marca do partido?
EC:
Compromisso com gestões democráticas, que apostam na transparência. É iniciativa do (João) Capiberibe (PSB-AP) a lei da transparência que foi sancionada pelo presidente Lula. Queremos a participação da população, a transparência na gestão, modelos que busquem metas, o fortalecimento de carreiras do serviço público pactuado com resultados.

CC: O PSB que vai se apresentar para o próximo governo é diferente do PSB que se apresentou para o governo do presidente Lula. Como será a participação do partido no próximo governo?
EC:
Esse assunto diz respeito à presidente eleita, não diz respeito ao partido. Queremos ajudar a Dilma (Rousseff) a fazer um grande governo, para ela aprofundar as mudanças iniciadas pelo governo Lula. Ela sabe qual é a natureza da contribuição do PSB. Ela viu ao longo desses oito anos a relação republicana que o PSB sempre teve com o presidente Lula. Nós vamos manter o padrão dessa relação. Uma relação de muito respeito, pautada pelos mais elevados interesses do País, uma relação de companheirismo, lealdade, correção. Estamos aí para ajudá-la nesta missão, que não é fácil.

CC: Pela própria natureza da relação republicana, a participação de quadros do PSB será maior do que a que o presidente Lula teve?
EC:
Acho que o PSB ampliou a sua expressão no Brasil, mas a participação que vamos ter diz respeito a ela. Que governo ela vai poder formar, como ela vai poder formar. Nós queremos contribuir com ideias, com projetos. Ela sabe que o PSB é um partido que tem quadros com experiência, mas o nosso apoio não passa pela barganha de cargos. Participamos quando chamados e procuramos apontar companheiros que se portaram com muita correção, ajudando o governo. Passadas as eleições, vai ter o processo de transição. A presidente, quando entender que é chegada a hora, vai iniciar essa conversa com naturalidade. Ela sabe que nós estaremos prontos para ajudá-la.

CC: O PSB apresenta-se como um partido de esquerda no governo Dilma?
EC:
Em um governo de frente são naturais os pesos e contrapesos. Nós queremos ajudar com as forças que temos mais identidade. Queremos puxar o governo para o caminho de avanço, de transformação. É bom para ela e para o governo dela.

CC: O PSB é um partido que se relaciona bem com o PSDB não paulista. O senador eleito Aécio Neves teve o apoio do PSB no governo dele.
EC:
E nós tivemos o apoio dele para governar a capital, Belo Horizonte. O apoio do PSDB e do PT para ganharmos a capital.

CC: Em Curitiba também.
EC:
Fomos o vice do (governador eleito) Beto Richa (PSDB-PR), que deixou a prefeitura de Curitiba sob o comando de um quadro do PSB, que é Luciano Ducci.

CC: Existe uma facilidade de diálogo com o PSDB não paulista?
EC:
Sempre fomos um partido de diálogo. Entendemos que existem as circunstâncias históricas e políticas. Muitas vezes São Paulo exporta diferenças que não são da realidade política nacional. Às vezes a gente convive com forças que estão mais distantes do ponto de vista ideológico, do ponto de vista político, do que muitos quadros do PSDB, com quem a gente militou, para construir a democracia, com quem a gente desenvolveu, durante anos, causas importantes: como a causa da anistia, a causa da eleição direta, a consolidação do SUS, a causa pela educação pública gratuita de qualidade. Nós mantemos essa relação. Precisamos deixar os traumas de uma campanha profundamente despolitizada no passado. Ganhamos as eleições para presidente da República. Nós, do PSB, ganhamos em seis estados, o PT ganhou em estados importantes, mas o PSDB, que perdeu a eleição presidencial, ganhou em estados muito importantes da Federação. Acredito que o diálogo é do interesse desses governadores eleitos. Desmontar os palanques e dialogar.

CC: A reforma política deve estar na pauta da próxima legislatura no Congresso. Que contribuições o PSB pretende dar?
EC:
Essa é uma das reformas que o Brasil deve ao seu futuro, à sociedade. A reforma tributária ampla e a reforma política são estratégicas. O Brasil tem aí o maior período democrático de sua história republicana. Não são muitos anos. E a cada eleição temos uma regra. Seja votada de última hora no Congresso, seja uma regra que nem é votada, uma resolução da Justiça Eleitoral. Isso já cansou o Brasil. O Código Eleitoral é de 1965, da ditadura. Precisamos fazer uma reforma que fortaleça os partidos, garanta o financiamento público de campanha e que aproxime a população da política.

CC: É um momento oportuno para novas acomodações partidárias?
EC:
Não vejo a reforma política por isso. Tem gente que vê uma janela para a fusão de partidos. Talvez isso seja o produto menos valioso da reforma política. Uma reforma política que esteja à altura do tamanho que esse País tem hoje no conceito internacional não pode ser feita para a próxima eleição. A gente precisa fazer duas reformas, a política e a tributária, para a próxima década. Fazer a implantação de maneira que tire o sujeito que vai votar. Pensar na sobrevivência política é compreensível, mas ela nem sempre conduz ao melhor voto, à melhor atitude. Às vezes gera uma atitude conservadora. Precisa de um amortecimento no tempo. Se a gente tivesse feito isso na reforma tributária, hoje não se teria essa maluquice do sistema tributário do Brasil, que não serve para quem compra, para quem paga ou para quem cobra. Serve para os advogados ou para quem sonega, que derruba, na concorrência, quem cumpre suas obrigações.

CC: O PSB estaria aberto para nomes como de Aécio Neves?
EC:
O PSB tem as portas abertas para pessoas como Aécio. Temos uma boa relação com ele. Mas ele tem declarado que está bem no PSDB. Ele sabe que no PSB tem muitos amigos.

CC: Que outros temas seriam interessantes na reforma política?
EC:
Calendário eleitoral único, como eleições municipais, estaduais e federais. Fim da reeleição. O PSB já se posicionou contra a reeleição e favorável ao mandato de cinco anos.

CC: Qual sua avaliação da campanha eleitoral de 2010?
EC:
Acho que ela serve de exemplo de como não se deve fazer uma campanha, sobretudo, para as forças que perderam a eleição. Existem duas formas de se perder uma eleição: eleitoralmente e na política. A oposição perdeu na política e é a forma mais grave. Passada a eleição, não fica o legado de teses, de ideias, de projetos defendidos. A campanha derivou para temas e fatos isolados que efetivamente não guardam nem coerência com a biografia do próprio candidato da oposição.

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