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Dois pesos e duas medidas

por Coluna do Leitor — publicado 09/11/2010 09h50, última modificação 09/11/2010 10h55
A desenvoltura política de Lula e de Aécio não obstrui o caminho de seus escolhidos na construção de grandes administrações com marca própria, tanto na instância federal quanto na estadual. Por Marcelo Borges

Por Marcelo Borges*

Os que criticam a alegada inexperiência política de Dilma, afirmando sua incapacidade de governar, são exatamente os mesmos que rendem homenagens e elogios à competência administrativa do governador eleito, Antônio Anastasia. Alguém que, como todos sabem, desempenhou funções tão técnicas nos dois mandatos do governo atual de Minas, quanto nossa presidente durante a Casa Civil.

Também fala-se por aí da influência exacerbada que o presidente Lula pode ter na gestão de Dilma, prejudicando a democracia e fragilizando a autonomia de sua sucessora. No final de semana, véspera da votação, recebi várias mensagens de telemarketing na secretária eletrônica perguntando se "Dilma dá conta do recado sem o Lula".

Para início de conversa Dilma não é garota de recado. E para as tantas leituras que se pode dar a esta pergunta, no mínimo rasteira, é que a oposição apoia-se na ideia de que Dilma é inexperiente, ou que ela é mera construção de Lula. Porém, mais que isso, talvez a motivação para essa pergunta, que se alimenta de profundos preconceitos inconfessos de nossa sociedade, é desqualificar nossa presidente eleita com a sugestão de que a mulher não tem nenhum poder sem um homem que lhe dê respaldo. O preconceito subliminar dessa pergunta reforça a justificativa de que Dilma é incapaz porque a mulher só tem condições de atuar se tiver um homem para garanti-la. Machismos? Fique a conclusão a cargo de quem lê.

Além disso, afirma-se inclusive que, construir um governo à sombra do líder que a antecedeu, fará do mandato de Dilma uma espécie de remendo entre os 8 anos de Lula e sua hipotética tentativa de retorno como presidente ao Planalto. Ou seja, mais uma vez Dilma, a mulher, é vista como uma auxiliar, alguém inferior ao homem e que só teria importância na medida em que viabiliza os objetivos de Lula. Nessa leitura não é concedida nenhuma capacidade de agir e pensar por conta própria de parte da presidente eleita.

O curioso, mais uma vez, é que os analistas que levantam estas questões se esquecem de olhar para o próprio território, onde Anastasia enfrenta o mesmíssimo desafio de Dilma. Afinal é inegável o peso dos nomes de Aécio e de Lula, assim como a certeza de que a atuação política e a influência desses homens não acabará pela sua saída do executivo. Não importa quais sejam seus sucessores, se homens, se mulheres, gays ou mesmo o E.T. de Varginha. A desenvoltura política de Lula e de Aécio não obstrui o caminho de seus escolhidos na construção de grandes administrações com marca própria, tanto na instância federal quanto na estadual.

Afinal, se Anastasia pode, a mulher também pode.

*Marcelo Borges é designer gráfico formado na UEMG e mestrando em Artes Visuais na UFMG.

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