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Do lado do poder

por Cynara Menezes — publicado 29/07/2010 15h51, última modificação 29/07/2010 15h51
Na maré das oportunidades eleitorais flutuam os aliados incômodos, mas “imprescindíveis”. Hoje quem está com o PT esteve com o PSDB. E vice-versa

Na maré das oportunidades eleitorais flutuam os aliados incômodos, mas “imprescindíveis”. Hoje quem está com o PT esteve com o PSDB. E vice-versa

Em uma manhã primaveril de 2004, a socióloga Maria Victoria Benevides, uma das fundadoras do PT, saiu à rua em São Paulo e deu de cara com uma Kombi de propaganda política em que apareciam, lado a lado, Marta Suplicy e Paulo Maluf. Inimigos históricos, naquele outubro de segundo turno da eleição para prefeito da capital, Maluf decidira engolir o orgulho e apoiar Marta à prefeitura. “Se vocês amam São Paulo, a solução está no presidente Lula e na sua candidata”, declarou o ex-governador em sua peculiar dicção, sem citar o nome da outrora desafeta. Um PT envergonhado omitia o apoio malufista no site de campanha, mas não nos carros de propaganda.
“Quase morri de infarto ao ver os dois juntos”, conta a professora, confessando os engulhos que sente ao encarar certas concessões da política – tanto as de seu partido quanto dos demais. Pudera. Quatro anos antes, quando foi derrotado por Marta Suplicy, o engenheiro Maluf, em um debate, chamou a então adversária de “desqualificada administrativamente”. Ouviu de volta um “cala a boca, Maluf”. Durante toda a campanha de 2000, o ex-prefeito provocara a adversária chamando-a depreciativamente de “dona Marta”. Ela o definia como “nefasto”.

Maluf integra um não muito seleto grupo de políticos que poderiam ser chamados de “moscas eleitorais”. Trata-se de nomes que perderam a chance de ocupar cargos majoritários ou que nunca chegaram a tê-la, mas que detêm algum patrimônio regional em termos de votos e de controle de máquinas partidárias. E que, atualmente, voejam em torno, sobretudo, do PSDB e do PT, revezando-se de um lado ou de outro, a depender da quantidade de açúcar para atraí-los. Por açúcar, leia-se cargos e influência em um provável futuro governo.

Continuemos com Maluf. Em 2004, além de apoiar Marta Suplicy, o hoje deputado federal pelo PP diria a seguinte frase: “Jamais votaria em Serra. Ele é o tipo de homem em que ninguém pode confiar”. A roda da fortuna girou mais uma vez e, agora, sobre quem Paulo “ficha mais limpa do Brasil” Maluf pousará na eleição para a Presidência da República? José Serra. Na ciranda dos apoios, o tucano também conta com os afagos de outra mosca política, Orestes Quércia, o mesmo que no passado do PMDB estava em campo oposto aos “éticos” Fernando Henrique Cardoso, Mário Covas, Franco Montoro e o próprio Serra, que decidiram fundar o PSDB.

Desde que a volta ao convívio foi selada, Quércia e Serra viraram amigos de infância e se derretem em elogios um ao outro. Ainda governador, Serra fez questão de cumprimentar o ex-arquirrival pelas benfeitorias nas estradas paulistas. “O Quércia duplicou a Rodovia Anhanguera e recapeou 1,2 mil quilômetros de estradas.” O peemedebista retribuiu com um artigo, publicado pelo jornal Folha de S.Paulo, em que garante ser Serra “infinitamente mais preparado para ocupar a Presidência” do que a petista Dilma Rousseff, candidata de Lula.

Em termos práticos, o que um político como Quércia trará para Serra? “O apoio de alguns prefeitos peemedebistas no interior e do diretório paulista para o tucano, contrariando a decisão nacional”, afirma o cientista político Rafael de Paula Cortez, autor de um estudo sobre estratégias do sistema partidário-eleitoral. “Sou cético em relação à chance de Quércia ser eleito senador. Não acredito que ainda tenha tantos votos.”

A composição entre Serra e Quércia começou a ser articulada em 2008, na eleição para prefeito de São Paulo. De olho na Presidência, o tucano tentou, até o último momento, evitar que seu companheiro de partido, Geraldo Alckmin, saísse candidato. Sem sucesso. Sua preferência por Gilberto Kassab não era segredo. Serra garantiu o apoio futuro de Quércia ao colocar, na vice de Kassab, Alda Marco Antonio, expoente do grupo quercista. Além disso, o ex-governador recebeu a promessa da indicação ao Senado em 2010.

“Alianças entre ex-desafetos fazem parte de um cálculo eleitoral, hoje idêntico tanto para o PSDB quanto para o PT”, diz Cortez. “Em troca, ganham-se palanques nos estados e mais tempo no horário gratuito. Mas é arriscado. No caso de Marta com Maluf, por exemplo, não funcionou. Ela tentou roubar votos dessa direita que se identificou com Maluf no passado e que hoje está representada por Kassab, mas faltou combinar com o eleitor.”
Neste ano, analisa Cortez, o espaço na televisão tornou-se ainda mais vital para o PT pelo fato de Dilma Rousseff ser infinitamente menos conhecida do eleitorado do que Lula. Daí a importância da aliança com o PMDB, para o qual petistas sempre torceram o nariz. Se os tucanos são criticados por trazerem Quércia de volta ao ninho, o presidente Lula e seu partido são acusados de incoerência por desfrutar da amizade e do apoio de expoentes do partido de quem foram inimigos radicais, entre os quais salta aos olhos o ex-presidente José Sarney.

Recentemente, para manter os Sarney a reboque de seu projeto nacional, o PT enquadrou o diretório do Maranhão, que havia decidido engrossar as fileiras de Flávio Dino, do PCdoB, contra Roseana Sarney. As críticas dentro do próprio PT foram duras. Ninguém esqueceu que Lula, quando oposição, chegou a dizer do então presidente Sarney que era “grileiro” e até “ladrão”.
Já aliados, no ano passado, quando o maranhense estava sob o fogo cerrado das denúncias no Senado, Lula defendeu o ex-presidente. “Sarney tem história no Brasil suficiente para que não seja tratado como se fosse uma pessoa comum”, argumentou o presidente, gastando parte do seu prestígio político em uma declaração infeliz.

Ao lado de Lula e de Dilma, há ainda Fernando Collor, o adversário da primeira eleição presidencial da democracia inacreditavelmente transformado em aliado. Inevitáveis náuseas incluídas, o que dizer de Joaquim Roriz, o ex-governador apontado como origem de todos os males do Distrito Federal, ao lado de Serra? Ou de Roberto Jefferson e seu PTB? “É pragmatismo puro”, analisa o cientista político Celso Roma, pesquisador do Centro de Estudos da Cultura Contemporânea (Cedec). “Com o sistema político fragmentado, os pequenos partidos, sem consistência ideológica, gravitam em torno dos maiores, hoje PSDB e PT. Como moscas, sim, e também como aqueles pequenos peixes que se alimentam dos restos dos tubarões.”

A exceção, segundo Roma, é o PMDB, um grande partido loteado entre lideranças regionais. “O PMDB é uma espécie de confederação de caciques. Não importa quem ganhe, o PMDB sempre vence. Dilma ou Serra, tanto faz. O PMDB estará lá.”

A complexidade da atual política brasileira dificulta um debate centrado na ética que muitos pretendem praticar. É possível, nesse caleidoscópio de alianças, estabelecer um ranking de moralidade? Só na cabeça dos mais obtusos militantes das legendas um Sarney pode valer mais ou menos do que um Maluf. Isso sem falar que, em termos de acordos eleitorais, um Quércia de hoje pode ser um Collor de amanhã.  

Um perfeito exemplo é o senador alagoano Renan Calheiros, hoje com Lula e Dilma, ontem ministro da Justiça de Fernando Henrique Cardoso, anteontem parceiro de Collor. Romero Jucá, líder do governo Lula no Senado, teve o mesmo cargo na administração FHC. Jader Barbalho foi FHC, foi Lula, e agora espera até o último momento para decidir entre Dilma e Serra.

O próprio vice da petista, Michel Temer, é um exímio vira-casaca. Poucos se lembram, mas esta será sua segunda tentativa de se tornar vice: em 2004, formou chapa com Luiza Erundina, do PSB, à prefeitura de São Paulo, quando confirmou a fama de ruim de voto. A dupla ficou em 4º lugar na disputa. Em 2002 e 2006 Temer apoiou Serra. Isso porque ele e seu maior adversário dentro do PMDB, Quércia, sempre navegaram em águas distintas dentro do partido.

Quando Temer era Serra, em 2002, Quércia era Lula. Em fevereiro, Temer conseguiu se reeleger presidente do PMDB, fortalecendo seu nome a vice de Dilma, e o grupo de Quércia tentou impugnar a convenção na Justiça. “Foi uma afronta ao partido, uma violência contra a democracia”, protestou o ex-governador então. Mesmo que não seja lá um grande arrebatador de multidões, Temer foi escolhido para vice porque, primeiro, não atrapalha. Segundo, por, em tese, ser capaz de segurar uma ala significativa do partido em torno de Dilma. Terceiro, por ter, ao lado de Sarney e Calheiros, garantido o que mais os petistas desejavam, os 6 minutos no horário eleitoral gratuito que darão à ex-ministra enorme vantagem sobre os adversários.

Ao longo dos últimos 20 anos, os políticos-mosca são sempre os mesmos, só muda a cabeça sobre a qual zumbem. Boas varejeiras que são, quem os consegue atrair recebe em troca o apoio de todo um enxame. “Isso não é realpolitik, realpolitik é uma expressão até pomposa para definir essas alianças espúrias”, afirma a socióloga Maria Victoria Benevides. “Tampouco acho que sejam imprescindíveis para garantir a tal governabilidade. Se são necessárias para vencer a eleição, fico pensando em qual será o preço a pagar depois.”

Uma coisa parece certa, porém: tanto o PMDB quanto o PSDB sempre acreditaram, não sem uma certa arrogância, serem capazes de conduzir esses grupos às mudanças. Seria a tal “modernização conservadora” que, em muitos episódios, nada tem de modernização. •

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