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Disputa insossa

por Paulo Cezar da Rosa — publicado 15/03/2010 17h53, última modificação 07/09/2010 18h02
Pela primeira vez nos últimos 20 anos vai faltar paixão na disputa.

Há uma mudança radical na eleição gaúcha de 2010. Pela primeira vez nos últimos 20 anos vai faltar paixão na disputa. O cenário foi dominado pela racionalidade e pela lógica do jogo de forças. Os candidatos são todos "racionais". Lutam por alianças e apoios achando que isso será decisivo. A única dúvida é saber se o eleitor gaúcho vai se comportar como os partidos esperam.

Em outubro, a cédula da votação vai apresentar alternativas aparentemente muito diferentes, mas ao mesmo tempo muito iguais. Se a eleição fosse hoje, no primeiro turno no Rio Grande do Sul haveria pelo menos seis candidatos. Eles têm trajetórias e experiências distintas, representam forças políticas contrárias. Todavia, olhando pelo viés do novo eleitor que vai às urnas em 2010, os seis têm muito em comum.

Vinhos da mesma pipa?

Sei, você pode estar se perguntando: O quê, mesmo, Yeda Crusius (PSDB), Tarso Genro (PT), José Fogaça (PMDB), Pedro Ruas (PSOL), Beto Albuquerque (PSB), Luis Augusto Lara (PTB) podem ter em comum? Veja bem, para começar eles têm uma grande semelhança em termos de perfil e de horizonte que pretendem imprimir ao governo gaúcho caso sejam eleitos. Nenhum deles representa uma mudança significativa nos rumos do Estado. Todos têm falado muito em união, superação, renovação, mas nenhum sinaliza com mudanças estruturais na economia ou na política gaúcha.

Sei! O PSOL se apresenta como a verdadeira maionese, e o PSB e o PTB como a renovação. Mas não é no campo da retórica radical ou renovadora que o eleitor tem buscado arternativas. Além disso, de fato, os três candidatos das siglas menores têm muito em comum. Pedro Ruas é advogado, assim como Beto Albuquerque. Luis Augusto Lara é contador. Os três são relativamente jovens, mas os três também são políticos de carreira. Nunca ninguém os viu fazendo outra coisa que não política no sentido mais tradicional do termo. Talvez por isso suas plataformas, ainda que tenham seguidores fiéis, não adquirem credibilidade aos olhos da maioria dos eleitores.

Numa disputa em que os advogados são maioria na série B, o mesmo ocorre no primeiro escalão. Yeda Crusius é economista, mas Tarso Genro e José Fogaça são advogados. Fogaça tem um viés de professor e poeta em sua biografia na juventude, o que lhe dá uma tonalidade de "out sider" na política. Mas o prefeito de Porto Alegre também é político de carreira desde 1978, quando elegeu-se deputado estadual, depois federal, senador por 16 anos, líder do governo FHC no Senado, prefeito de Porto Alegre.... Tarso Genro tem trajetória parecida. Foi vereador de Santa Maria pelo MDB (1968), vice prefeito de Porto Alegre em 1988 (com Olívio Dutra), deputado federal, prefeito de Porto Alegre, ministro do governo Lula em três pastas diferentes.

Políticos tradicionais

O mais importante, contudo, é que todos os candidatos ao governo gaúcho são hoje, aos olhos do eleitor, políticos tradicionais. Mesmo os que pretendem ser a mudança ou a renovação como Ruas, Beto e Lara. Nenhum, até agora, por maior que tenha sido o esforço neste sentido, conseguiu sinalizar para a sociedade gaúcha um projeto capaz de alterar o quadro de crise e - por quê não admitir? - decadência em que o Rio Grande se encontra.

Quando situações deste tipo acontecem - a sociedade tem um desejo de mudança mas os partidos lhes oferecem um cardápio tradicional - a tendência do eleitor é escolher o menos pior. Não significa que ele vá ficar satisfeito. Significa apenas que ele escolhe o prato menos indigesto. Provar que a sua receita é a melhor pedida é o desafio dos partidos, do marketing e dos candidatos em 2010.