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Política

Crise no Planalto

'Dilma optou por não lutar contra os fatos'

por Willian Vieira — publicado 19/11/2011 08h19, última modificação 19/11/2011 10h45
A sociedade avalia além do tema moralidade, diz em entrevista o cientista político Fabiano Santos, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro
fabiano santos

O professor Fabiano Santos, da UERJ. Foto: Brizza Cavalcante/Agência Câmara

A avaliação do governo baseia-se em muitas variáveis e não apenas no tratamento
que se dá ao tema da moralidade”, afirma o cientista político Fabiano Santos,
da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Segundo ele, o ministério vem assumindo um perfil mais próximo do desejado por Dilma Rousseff.

 

CartaCapital: Se cair, Carlos Lupi (PDT) será o sexto ministro afastado por possível envolvimento com corrupção. O Brasil está acostumado a ver escândalos se esvaírem no ar, de cansaço, sem quedas. Por que isso não tem ocorrido com os ministros de Dilma, sem exceção?

Fabiano Santos: Porque os mecanismos de controle têm se aperfeiçoado e mudou o conceito a respeito daquilo que é politicamente sustentável. Trata-se de dupla evolução, nas instituições e na cultura política. Também porque os ministros que se foram não compunham o perfil desejado pela presidenta. Ou já vinham do governo anterior, com muito tempo de casa, sujeito a desgastes naturais, ou foram forçados pelo PMDB.

 

CC: Até agora, Dilma, com sua “faxina”, conseguiu isolar seu governo das máculas, ao que parece graças a um modus operandi, a uma lógica para lidar com os ministérios acusados de corrupção: ela não se pronuncia, deixa o ministro dizer que é inocente, depois parar na berlinda em uma defesa inquisitorial (da mídia, da oposição, dos próprios partidos), até se demitir. Foi essa a fórmula que fez o Planalto não se chamuscar com os casos?

FS: Dilma optou por não lutar contra os fatos. Até o momento, os que foram demitidos o foram por conta de fatos que acabaram por retirar sua sustentação política. Uma coisa é a culpabilidade individual de um político em um caso ou outro. O tempo e o devido processo legal acabarão por definir. Outra coisa é a sustentação política de um ministro. A presidenta tem de tratar, sobretudo, do segundo tipo de fato, e não do primeiro.

 

CC: O ônus recairá sobre a presidenta em algum momento?

FS: Minha impressão é que o “gabinete” vem assumindo um perfil mais próximo àquele que a presidenta Dilma desejaria desde o início. Se isto é verdade, a tendência é a estabilização do processo após a reforma ministerial do início do próximo ano. De toda forma, o ônus apenas recairá sobre a presidenta a partir do momento em que a capacidade do governo de lhe dar com as coisas importantes da vida for afetado de maneira significativa.
A avaliação do governo baseia-se em muitas variáveis e não apenas no tratamento que se dá ao tema da moralidade.

 

CC: Essa lógica deve mudar após a reforma ministerial prevista para janeiro, quando, ao menos em tese, Dilma poderá compor seu próprio gabinete?

FS: A lógica após janeiro será a da administração dos efeitos da crise econômica mundial. Conseguirá o governo manter o País crescendo? E os programas sociais, serão afetados?
E os programas de investimentos em infraestrutura, tendo em vista a Copa
e as Olimpíadas, adquirirão o ritmo adequado para chegar a bom termo? Sobre este último ponto, a “faxina”, pode até ser um sinal de que o governo terá pouca tolerância com desvios de finalidade no meio de tantos recursos canalizados para obras.

 

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