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Inventor do biodiesel

Dilma lamenta morte de Parente

por Redação Carta Capital — publicado 14/09/2011 10h17, última modificação 14/09/2011 11h55
Engenheiro químico Expedito José de Sá Parente morreu em decorrência de complicações em cirurgia para tratar de diverticulite

A Presidência da República divulgou nota de pesar, nesta quarta-feira , pela morte, aos 70 anos, do engenheiro químico Expedito José de Sá Parente, inventor do biodiesel. Expedito Parente foi responsável pela primeira patente mundial da produção de combustível por meio da transesterificação, a partir de plantas oleaginosas. A tecnologia, pesquisada pelo cearense de modo pioneiro no final da década de 70 e patenteada nos anos 80, tardou a ser reconhecida no Brasil, tendo sido explorada no cenário internacional, o que rendeu a seu idealizador o reconhecimento da Organização das Nações Unidas (ONU), do governo norte-americano, de empresas como a Boeing e agências como a NASA, agência espacial norte-americana.

Parente morreu em decorrência de complicações durante uma cirurgia para tratar de diverticulite, após sofrer  hemorragia e infarto decorrentes da intervenção.

Assinada por Dilma Rousseff, a nota diz que o professor e pesquisador cearense era "motivo de orgulho para todos nós, brasileiros".

"Sua descoberta, patenteada no Brasil, teve amplo reconhecimento mundial e importância decisiva para o futuro do país. A dedicação de Expedito ao biodiesel, produzido a partir de matéria-prima desenvolvida por milhares de agricultores familiares, contribuiu para reduzir a pobreza no campo. Além disso, o biodiesel não polui o meio ambiente, representando um enorme avanço em relação a outros combustíveis".

Dilma lamentou a perda de um "grande brasileiro" e enviou um "abraço solidário a seus parentes, amigos e admiradores".

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva também se manifestou. Em nota assinada com a ex-primeira-dama, Marisa Letícia,Lula classificou o pesquisador como "um dos brasileiros mais brilhantes do nosso tempo e deu uma contribuição inestimável ao país".

"Ao inventar o biodiesel, criou uma alternativa menos poluente aos combustíveis fósseis, capaz de promover emprego e desenvolvimento. Conduziu suas pesquisas no Brasil, no seu Ceará, combinando criatividade, conhecimento da flora brasileira e compromisso social e ambiental por um mundo melhor. Nesse momento de grande perda, nos solidarizamos com sua família, amigos e alunos", escreveu o casal.

O corpo do pesquisador será cremado às 17h desta quarta-feira, no Jardim Metropolitano, em Fortaleza. Antes, está prevista a celebração de uma missa na capela da Funerária Ethernus, onde o corpo está sendo velado desde às 13h da terça-feira 13.

O reitor da Universidade Federal do Ceará (UFC), Jesualdo Farias, classificou o pesquisador, que era membro da galera dos professores notáveis da instituição, como alguém que “não se contentou em apenas formar, não se contentou em pesquisar". "Ele brigou por uma causa, a das energias alternativas, desde a década de 70, dando uma demonstração de como tinha visão de futuro”.

Em entrevista à revista “Universidade Pública”, na edição de janeiro/fevereiro de 2008, Expedito Parente, que preferia ser chamado de tecnologista e não cientista, deu ênfase ao fato de o biodiesel ser um “combustível coletivo, mais democrático, mais produtivo porque serve a motores grandes. É combustível que tem amplitude de uso muito plural”.

Contou, também, como teve a ideia do biodiesel, em dezembro de 1977, em seu sitio no Maciço de Baturité, perto de Pacoti, “tomando banho de cachoeira com uma cachacinha”. Achava que a descontração era condição fundamental para  ter boas inspirações. “Jamais se poderia inventar o biodiesel no trânsito de São Paulo”, complementava bem humorado.

Depois do banho, começou a prestar atenção no fruto de uma ingazeira, uma vagem linear com carocinhos, que lhe deu ideia de uma molécula, um éster linear. Na segunda-feira seguinte, foi ao laboratório do Centro de Tecnologia da UFC e processou a reação. Fez alguns ensaios e contou com a ajuda de um servidor aposentado, Bernardo Gondim, já bem idoso, que morava no campus, numa dependência onde tinha um motor antigo, recordou, dizendo que esse motor foi o primeiro a rodar com biodiesel no mundo.

Para ele, era importante a popularização da descoberta, em escala global, da tecnologia do biodiesel, combustível que, avaliava, tem três missões a cumprir: ambiental (substituindo os derivados de petróleo), estratégica (colocando o Brasil em  posição de destaque no cenário internacional na nova era da energia limpa) e, principalmente, social, “por se tratar de um combustível com potencial para gerar a paz, e não a guerra, além da distribuição da riqueza, ao invés de sua concentração”, como disse em entrevista concedida à revista Veja, em 2004.

Parente graduou-se na Escola Nacional de Química, hoje Universidade Federal do Rio de Janeiro, no ano de 1965, obtendo o mestrado em Ciências da Engenharia Química no ano seguinte, também na UFRJ. Concluiu cursos de especialização em Tecnologia de Óleos Vegetais e em Engenharia de Óleos Vegetais, no Instituto de Óleos do Ministério da Agricultura, e em Tecnologia de Couros, na École Française de Tannerie, em Lyon, na França.

Em 1967, Expedito Parente tornou-se professor assistente da UFC, em Fortaleza, passando a professor adjunto em 1975. Foi na UFC, no final da década de 1970, que desenvolveu o método de produção de biodiesel que viria a submeter ao INPI em 1980, tendo sido garantida em 1983 a patente PI – 8007957 ("Processo de Produção de Combustíveis a partir de Frutos ou Sementes Oleaginosas"), a primeira no mundo para um processo de produção em escala industrial de biodiesel.

Depois de sete anos aposentado da UFC, Expedito Parente criou a empresa Tecbio, hoje com mais de 60 funcionários, dos quais 40 são engenheiros, e passou a  lucrar  financeiramente com sua invenção. Tem clientes na Espanha, no Vietnã e nos Estados Unidos e possui representantes em outros países da América do Sul, do Caribe e África. Entre seus clientes está a Boeing, a maior fabricante de aviões comerciais do mundo, para a qual a Tecbio desenvolve o bioquerosene, exatamente como tentou fazer para a FAB há 30 anos.

Em entrevista que concedeu em 2001, disse que durante passeio com seu filho, pelo interior da Alemanha, viu uma bomba de biodiesel em um posto. “Fiquei alegre de ver minha invenção difundida, mas frustrado porque aquilo não estava ocorrendo ainda no Brasil”, comentou.

Parente era professor emérito da UFC desde 2006. Entre as muitas honrarias que recebeu, incluem-se a de Comendador Rio Branco, concedida pelo ex-Presidente Luiz Inácio Lula da Silva; prêmio Santos Dumont, do Ministério da Ciência e Tecnologia; Troféu Sereia de Ouro, do Sistema Verdes Mares de Comunicação; Comenda Engenheiro Vitalicio e Engenheiro do Brasil e do Ceará, concedida pela Federação Brasileira de Associações de Engenheiros (Febrae); Medalha do Conhecimento, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior; Troféu Coruja, da Associação do Professores do Ensino superior do Ceará; Troféu Blue Sky Award, da United Nations Industrial Developement Organization; diploma de International Celebrity on Technology; troféu José Pelúcio Pereira, concedido pelo Inep.

Também foi homenageado pela Embrapa; pela Federação da Agricultura e Pecuária do Estado do Ceará; pelo Departamento de Geologia da UFC, de qual recebeu a Palma de Prata; por todas as turmas de Engenharia Química da UFC, de 1970 a 1995 e pela primeira turma de concludentes de Engenharia Mecânica da Unifor; tem Diploma da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra; Comenda da Ordem do Mérito Aeronáutico e por serviços relevantes  do Conselho Federal de Química.

O Prof. Expedito Parente estava em plena atividade e desenvolvia atualmente projeto para transformar material recolhido dos esgotos da Cagece, em energia. Ele era natural de Fortaleza, onde nasceu dia 20 de outubro de 1940. Dos dois matrimônios, deixa quatro filhos.

*Com informações da Coordenadoria de Comunicação Social e Marketing Institucional da Universidade Federal do Ceará

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