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Análise

Todos os olhos para a presidenta

por Clara Roman — publicado 21/09/2011 12h13, última modificação 21/09/2011 12h28
Especialistas comentam as expectativas sobre a fala de Dilma Rousseff na Assembleia Geral da ONU na quarta-feira 21

Tradicionalmente, cabe ao  Brasil a missão de abrir, todos os anos, a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas. Mas, segundo o cientista político Sebastião Velasco, fazia tempo que um presidente brasileiro não chegava com tanta força para abrir o evento quanto Dilma Rousseff, que inaugurará a sessão nesta quarta-feira 21.

Dilma Rousseff traz consigo o peso de um país em crescimento. Já há alguns anos sob uma democracia estável, o Brasil se apresenta hoje com a economia fortalecida, em contraste com o cenário desolador da hiperinflação do final da década de 80. E os países desenvolvidos, de modo invertido, enfrentam uma de suas piores crises das últimas décadas. Segundo Velasco, o Brasil sempre teve projeção internacional, mas ela foi reduzida nas últimas décadas em razão da ditadura militar.

Todo esse contexto soma-se ao simbolismo representado pelo fato de a assembleia ter à frente, pela primeira vez, uma liderança feminina.

Ainda que não tenha o carisma de Lula, afirma o estudioso, Dilma representa uma liderança política que contrasta com outras personalidades que estarão na cerimônia. “Dilma viveu tudo o que podia viver e muito mais. Possui uma trajetória pessoal rara, foi presa, foi militante. Ela é uma raridade no mundo e tem estampa de grande estadista”, afirma Velasco.

Para Paulo Gilberto Vizentini, professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, o aprofundamento da crise econômica mundial exigiu de Dilma uma política externa mais afirmativa. Mas, diz ele, não houve ruptura em relação a Lula. Em sua análise, a presidenta chega muito bem para o evento.

“O Brasil não para de trazer surpresas para o mundo. Primeiro manda um operário que vira presidente [Lula], e agora enviamos uma mulher que está fazendo um bom trabalho”, diz Vizentini.

Antes mesmo do discurso, as atenções já estavam voltadas para a presidenta brasileira ao chegar em Nova York. Dilma foi capa da edição da revista americana Neewsweek dedicada a mulheres vitoriosas. “Dilma é a nova face do Brasil: segura de si, menos ansiosa em agradar, generosa, mas não bajuladora”, é o destaque da matéria. Dilma, segundo a revista, imprimiu seu estilo pessoal ao país de Lula. Quanto a isso, Vizentini é cético: “É uma tentativa de cooptar Dilma e trazer para o clube dos países ricos. Tentaram coptar o presidente Lula”, diz ele.

Na visão dos especialistas, nem mesmo a crise que Dilma enfrenta no âmbito nacional mancha sua imagem lá fora. “Ela está muito bem no Brasil. O que houve foi um início de governo marcado por uma sucessão de denúncias que atingiram ministros”, afirma Velasco.

Desempenho

Nos discursos já feitos desde que chegou a Nova York no domingo, Dilma já abordou a questão da saúde, destacando programas desenvolvidos no Brasil. Afirmou também que se sente orgulhosa como a primeira mulher a abrir uma Assembleia da ONU. Outros dois temas centrais são a crise mundial e o reconhecimento do estado palestino, ponto-chave do encontro.

Sobre a crise, Paulo Vizentini acredita que a presidenta levará o modo que o Brasil tem enfrentado a crise e de sua participação nos Brics, bloco de países em desenvolvimento composto pelo Brasil, Rússia, Índia, China e Áfria do Sul. Deve abordar também a reforma do Conselho de Segurança da ONU, do qual o Brasil é membro rotativo e cujo mandato acaba em dezembro.

Ao que tudo indica, Dilma manifestará apoio ao estado Palestino na ONU. A questão é delicada. A Autoridade Palestina pediu seu reconhecimento na Organização. A maioria dos países se mostra favorável, mas, devido aliança com Israel, os Estados Unidos já manifestaram que devem vetar aprovação. A decisão, que inviabiliza na prática o reconhecimento, terá um alto custo para a nação, isolada, e sem o mesmo peso político.

Dessa forma, o contraponto brasileiro, ainda que acompanhado de todos outros países, será mais contudente do que em outros momentos, onde os EUA possuiam apoio, como na reinclusão de Honduras na Organização dos Estados Americano depois do golpe de estado que derrubou o presidente Manuel Zelaya em 2009, situação em que tiveram apoio da Colômbia e Peru.

“[A decisão de Dilma] é a manutenção de uma pauta que é de busca de explorar as oportunidades de parceria, de boa convivência e disposição de explorar todas as possibilidades de coordenação e trabalho em comum”, diz Velasco. Nesse sentido, representa a continuidade em relação à política do presidente Lula. Mesmo assim, será o momento da presidenta mostrar o rosto em um grande evento.

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