Você está aqui: Página Inicial / Política / Diferenças, regras e promessas

Política

Futebol

Diferenças, regras e promessas

por Socrates — publicado 13/11/2010 17h40, última modificação 15/11/2010 13h35
O futebol brasileiro virou uma terra de horrores e de ninguém. Uma estrutura sem controle ou caráter. Escola e hábitat de criaturas despojadas de vergonha

O futebol brasileiro virou uma terra de horrores e de ninguém. Uma estrutura sem controle ou caráter. Escola e hábitat de criaturas despojadas de vergonha

A torcida do fluminense aplaudiu de pé seus jogadores e teve como retribuição a alegria dos mesmos e a permanência em campo por muito tempo, mesmo depois da suada vitória sobre o Vasco da Gama. Ao vencer, o tricolor carioca manteve-se no topo da classificação deste Brasileiro – a cena da comemoração é a plena expressão da sintonia entre os diversos atores das Laranjeiras.

Para que isso tenha ocorrido, há um personagem de fundamental importância: Muricy Ramalho, o treinador do Fluminense. Muitos o veem como mal-educado, de pavio curto, seco e agressivo. Eu diria que ele é autêntico, um autêntico brasileiro e, principalmente, por esse motivo a maior parte da nação identifica-se com ele.

Há uma afinidade, proximidade e coerência que geram vários polos de atratividade com a torcida do time, o que só pode gerar frutos positivos. Não por outro motivo, é um dos mais conceituados técnicos do País, pois associa seu comportamento a uma boa visão do que é futebol e dos seres envolvidos nessa história. Aqui existe respeito à cultura futebolística nacional.

Exatamente o inverso do que acontece com treinadores de outros grandes times cariocas, sempre distantes de -suas torcidas. Ali vemos criaturas que renegam o que são e sonham se tornar maiores do que podem. Comportam-se, vestem-se, apresentam-se como se não fossem brasileiros, ainda que ao abrir a boca deixem transparecer que estão a anos-luz dos seus objetivos.

Cofres

Após a derrota do Goiás para o Grêmio de Porto Alegre, o atacante Rafael Moura, do time goiano, disparou: “Vou falar uma coisa muito interna. Às vezes a comissão técnica quer trocar (jogador), tem peito para trocar e aí vem uma ordem de cima. Podridão no futebol existe. Às vezes, quem entra em campo não condiz com os méritos”.

Com sua declaração, o jogador confirmou mais uma vez aquilo que todo mundo sabe: a meritocracia quase sempre é desrespeitada no futebol brasileiro. É um tal de parente que se torna técnico de não sei o quê, vizinho que se torna empresário de jogador sem saber quase nada da vida, um filho que é investido de poderes desproporcionais à sua capacitação, um abilolado entra no mais alto escalão de um clube de futebol, e por aí vai. Percebe-se muito claramente, além disso, que joga quem interessa a determinado poder corrompido ou não.

Para ser contratado, um jogador precisa dividir o bolo salarial com técnicos, dirigentes, empresários e, se bobear, até com auxiliares de alguém que o comandará. E ainda assim, não basta. Para jogar, muitas vezes deve depositar em um determinado cofre reservas que servem para garantir um lugar na equipe; até que outro cubra a oferta e tome seu lugar.

O futebol brasileiro tornou-se uma terra de horrores e de ninguém. Uma estrutura sem controle, sem caráter. Escola e hábitat de criaturas despojadas de vergonha. Uma ou outra exceção, mas a regra é essa.

estrelas

O Paraná Clube articula-se para aumentar a multa contratual- do garoto Kelvin, que se mostra uma promessa tanto que chama a atenção dos comerciantes de jogadores de plantão. Não vou entrar no mérito dos valores especulados nem da posição tomada pelo clube, até porque sempre existe um alto porcentual de risco qualquer que seja a decisão.

Para diminuir o risco, ainda que não o elimine, os dirigentes de cada entidade esportiva que têm em seus atletas uma das principais fontes de renda – mesmo que fosse imensamente melhor preservar as futuras estrelas – deveriam conhecer um pouco que fosse de futebol, para que suas tomadas de decisão se baseassem em critérios técnicos e jamais intuitivos.

Talvez o menino não seja exatamente o que eles imaginam, aí o investimento vai para o ralo. Talvez o adolescente seja muito melhor do que eles acreditam, aí o investimento será menor do que o necessário para segurá-lo até quando lhes interessar. Ou mesmo (toc, toc, toc) que ele tenha uma grave contusão e fique impedido de demonstrar o seu potencial por muitos anos.

Por outro lado, o Santos enfrenta dificuldades para refazer o vínculo de Paulo Henrique Ganso. Este, sim, já é uma realidade, por isso tudo fica mais difícil mesmo em recuperação. Caso o clube tivesse um profissional com maior conhecimento de causa, já teria antecipado a renovação do contrato há muito tempo, dando mais garantia às partes. Isso, contudo, ainda é uma raridade por aqui.

registrado em: