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Diários da desinformação: parte 2 – desalienação

por Coluna do Leitor — publicado 03/01/2011 16h40, última modificação 03/01/2011 17h57
A leitora Valéria Klay recorda suas experiências na ditadura argentina e deseja boa sorte à presidente Dilma

Por Val Klay*

Eu cresci durante o último levante militar que privou o povo argentino de suas instituições democráticas, de seus direitos individuais, e só por isso posso contar que fui uma criança livre de monstros. Insensível aos seres horrendos que tão comumente povoam os sonhos infantis. Minhas noites nunca foram assombradas pelos óbvios vampiros cinematográficos e lobisomens de gibi, nem por sombras sussurrantes ou almas desencarnadas. Nenhuma criatura sobrenatural morava embaixo da minha cama e nunca houve uma só bruxa escondida no meu armário. Nada dessas coisas sequer me preocupava. Na Argentina dos anos setenta, o nome do meu pesadelo era Videla.

Uma de minhas mais marcantes memórias da época, da infância, é estar sentada no piso da cozinha, abraçada a perna da mesa, minúscula e só de calcinha, enquanto batiam na porta e meu pai atendia. O jantar estava quase pronto quando, sem pedir licença, sisudos e apressados soldados, com suas botas barulhentas, fardas, capacetes e imensos fuzis que resvalavam nos móveis e na louça, invadiram a quietude da casa inspecionando a tudo e a todos com uma desconfiança profissional. Fiquei absorta, hipnotizada com o desfile de botas que passava diante de meu nariz. Um grupo de pés encerrados, atados com força até bem acima dos tornozelos por emaranhados de cordões intermináveis que pareciam comandar-lhes os passos, como arreios de montaria. Estive tranqüila porque meu pai já tinha chegado do trabalho. Mas isso foi só até vê-lo lidando com os militares, então tive medo. E o medo que tive vinha de ver meu próprio pai com medo.

Naquela noite, sem que soubéssemos e sem que tivéssemos qualquer coisa haver com o assunto, nossa casa havia sido pichada com a frase “Viva Perón!”, e agora os militares exigiam todo o tipo de explicações. Perguntavam, por exemplo, por que meu pai não cumpriu seu dever, apagando aquela óbvia incitação subversiva assim que a descobrira. Já na época eu o conhecia demais para saber como seria normal que respondesse a uma questão daquelas: “Porque yo tengo más lo que hacer de mi vida, carajo!”, berraria, como um trovão rabugento. Por isso foi paralisante surpreendê-lo encurralado, indefeso, comunicando-se com sussurrante submissão: “Si, señor, no señor, no lo sé, señor...”; uma visão de congelar o sangue.

Era o começo dos longos anos de chumbo de um regime tenso e violento que se arrastaria pesadamente até os anos oitenta, de 1976 a 1983. Pouco menos de oito anos que durariam como uma vida inteira e, durante os quais, “desapareceriam” cerca de 30 mil esquerdistas, jornalistas, professores, liberais, ateus, artistas, gays, hippies e simples transeuntes desprevenidos. Esquadrões da morte, homens de preto, em geral policiais dirigindo aqueles robustos Ford Falcon verdes, forçavam pedestres para dentro de seus ameaçadores veículos e os interrogavam. Muitos, pelo visto, jamais saíam. Seu famoso tamanho e praticidade foram tão ostensivamente empregados pelo aparelho de repressão da ditadura que, quando o regime militar terminou, o Falcon sofreu financeiramente a feia impressão que deixou no povo. Projeto exclusivo da Ford argentina, orgulho do governo militar, o modelo era o automóvel predileto dos esquadrões. Com capacidade para seis pessoas, e com folga, era vendido como um acolhedor veículo familiar. De fato, casas eram invadidas no silêncio da madrugada e, de uma hora para outra, famílias inteiras nunca mais eram vistas. Para a vizinhança, restava a intimidadora lembrança de um Falcon verde estacionado na esquina escura, com o motor ligado.

Infelizmente, os soldados que nos interrogavam tinham igual autoridade para levar-nos a todos sem dar satisfações. Além das motivações políticas e repressoras de praxe, na época era comum aos oficiais faturar um “extra” detendo pessoas para saquear suas casas — bizarro costume que a polícia também acompanhava e que seguiu mesmo após a ditadura. Anos depois foram divulgados números que apontavam a cidadezinha de Moreno, onde vivíamos, como o maior foco de corrupção policial da grande Buenos Aires, palco dos piores casos de seqüestro e tortura. Se nos tivessem levado, hoje provavelmente nenhum de nós existiria. Integraríamos a multidão dos “desaparecidos”. Ou talvez, num cenário menos fatalista, pelo menos eu e minha irmã existiríamos. Mas teríamos sido criadas por uma família diferente. Uma família de militares, em geral os próprios carrascos de nossa família original — aliás, um indecifrável costume da época ainda sem qualquer explicação realista. Mas a sorte nos sorriu. Na manhã seguinte meu pai foi obrigado a levantar algumas horas mais cedo. Os militares haviam partido com a simples promessa de que a pichação seria apagada antes do sol nascer.

O que ficou foram os pesadelos, coisa que assusta lembrar.

Pesadelos inevitáveis para quem vivia a infância no constante suspense de uma época de proibição, imposição e medo, quando se ouvia os adultos discutirem aos cochichos e não era possível tocar Mercedes Sosa em volume alto sem ameaçar a vizinhança. Pesadelos com a falta de liberdade que éramos forçados a aceitar sorrindo, entre rumores entreouvidos de casas invadidas, prisões arbitrárias e entes queridos que sumiam em pleno ar, como bolhas de sabão. Pesadelos com prisioneiros trabalhando sob a mira de armas: homens, mulheres e crianças cavando as próprias covas. Com campos de tortura, pelotões de fuzilamento, cemitérios clandestinos e aqueles sombrios homens de preto dirigindo apavorantes Falcons verdes que deslizam lentamente ao largo da calçada em que estou. Pesadelos com revoadas de helicópteros sobrevoando o Rio de La Plata à noite, enquanto uma chuva de gente encapuzada precipita-se na altitude. Seus pés presos em blocos de cimento sólido, seus gritos se perdendo na escuridão.

Havia um sonho recorrente que começava com os acordes iniciais do hino nacional ressoando na tevê. Encarnada na figura fardada do teniente-coronel Jorge Rafael Videla, a arrepiante presença da ditadura fazia-se ouvir, apesar da confusão na qual eu e minha família nos encontrávamos. Sabíamos que os militares estavam em nosso encalço e tínhamos somente uns poucos momentos para nos preparar e abandonar a casa, quem sabe até o país. Antes que o Falcon verde desse a curva na esquina, antes que alguém batesse à nossa porta ou que a campainha tocasse, era urgente reunir tudo o que fosse indispensável e chegar a tempo na garagem, onde nos esperava um antigo Renaut 12, o carro da família na época. No desespero do sonho, porém, nós nunca conseguíamos alcançar o ansiado veículo de fuga. Nada dava certo, tudo se desarmava em nossas mãos. As malas não se permitiam arrumar, as chaves paravam de servir nas fechaduras, os documentos recém-encontrados voltavam a se perder sem mais nem menos, deixando a gente em desatino, girando em círculos no labirinto sem saída da própria confusão.

Durante grande parte do século passado, a América Latina esteve mergulhada nessa mesma confusão, com a liberdade e o destino de povos inteiros a mercê da onda de golpes militares que assolavam sistematicamente nossas nações. Mas esse pesadelo, felizmente, virou história. Hoje o mundo é outro, ou ao menos se prepara para sê-lo. Enquanto a América latina está crescendo, os EUA e a União Européia estão em plena crise. Certamente, como diz o dito popular, o futuro não é mais como era antigamente. Principalmente para o Brasil que, hoje, está em festa, recebendo seu novo líder, ainda um tanto ingênuo do significado que terá o governo que se inicia.

Oito anos atrás, o Brasil decidiu descobrir o que significaria a escolha de um sindicalista nordestino de origem humilde para presidente da república, e foi profundamente transformado por isso. Reestabilizado e mais justo, o país adentrou a nova era de prosperidade imaginada pelo gênio do presidente Lula e conquistada em plena crise mundial, numa época turbulenta e incerta em que a economia das nações ricas está indo de mal a pior. Agora nós estamos nos preparando para descobrir o que significa ter no cargo de chefe maior do estado brasileiro um símbolo de bravura do quilate de Dilma Vana Rousseff. Veremos o que significa sermos comandados por uma mulher que provou seu amor pela liberdade, sacrificando sua juventude e arriscando a própria vida na luta contra um dos piores pesadelos do mundo real, um autoritário e cruel estado militar. Entenderemos o que significará para a corrupção e para a impunidade termos a vida política, social e econômica da nação nas mãos de uma guerreira fiel, capaz de suportar as piores condições de cárcere e de agüentar em silêncio o suplício da tortura, sem entregar nenhum companheiro.

Ela está na tevê, agora. Transmissão ao vivo para todo o território nacional. Uma chuva intensa e persistente lava a capital do país. O Rolls Royce Presidencial fez o percurso inteiro de capota baixa. São 15: 35 no relógio do note book. A primeira presidenta do Brasil — boa sorte! — já começou seu discurso de posse. Para meu total deleite, ela acabou de pronunciar as palavras que me faltavam para terminar a segunda parte deste artigo: “O Brasil do futuro será exatamente do tamanho daquilo que fizermos por ele hoje.”

Coragem, mulher!

*Val Klay é cantora e compositora, graduada na Escola Rimon de Jazz e música contemporânea, de Tel-Aviv, Israel. Licenciada em pedagogia no CEUB, Brasília (DF), também é professora de nível superior, tendo lecionado na UNB e na Escola de Música de Brasília. 

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