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Diálogos sobre a tortura

por Celso Marcondes — publicado 02/12/2008 17h48, última modificação 24/08/2010 17h50
Foi realizado nesta segunda-feira um Ato Público exigindo a punição dos torturadores da época da ditadura m

Foi realizado nesta segunda-feira um Ato Público exigindo a punição dos torturadores da época da ditadura militar. Na Assembléia Legislativa de São Paulo, sob coordenação dos deputados Paulo Teixeira e Simão Pedro, do PT, dezenas de pessoas, representantes de entidades sindicais e defensoras dos direitos humanos fizeram seu protesto. O ministro Paulo Vannuchi discursou, reafirmando sua expectativa de que presidente Lula determine a abertura dos arquivos da ditadura antes do final de seu mandato. Disse também que ele e o ministro Tarso Genro não são vozes solitárias no ministério em defesa desta posição e da necessidade da punição dos torturadores. Porém, não é isso que tem sido veiculado na imprensa. Ficamos na torcida de que este isolamento dos dois ministros deixe de transparecer.

O tema punição dos torturadores tem sido tratado regularmente por CartaCapital em suas páginas e site. É da maior relevância. Nesta coluna tem gerado diálogos com nossos leitores que ilustram bem os eixos da polêmica. Um debate tem sido caloroso, aquele com o leitor Antônio F. Nas próximas edições desta coluna ele será compartilhado com os leitores, na ordem exata em que acontece.

A primeira carta, Antônio F. escreveu logo depois que publiquei um artigo em defesa da punição aos torturadores:

Quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Assunto: Tortura

Senhor Celso,

Para o senhor, o torturador tem que ser punido. E quanto aos terroristas? Terroristas esses que hoje na sua maioria estão aí no poder? Dilma, Genoíno e muitos mais?

Que lei é essa que só ver um lado? Tem muitos jornalistas por aí que tão com a bunda gorda sentado numa confortável poltrona metendo o pau nos militares (militares esses muitos mortos por atentados terroristas) e recebendo uma gorda pensão do Estado.

Falar é fácil, não é, meu senhor?

Antônio F.

Quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Prezado Antônio F.,
Obrigado pela mensagem. Esclareço meu ponto de vista: torturadores de ontem e de hoje têm que ser punidos. E os “terroristas”? Se o senhor chama assim os guerrilheiros que pegaram em armas contra a ditadura militar que tomou o poder pela força das armas, eu avalio que eles estavam errados ao tentar responder desta forma ao regime de terror que o País viveu desde 64. Tão errados que não obtiveram apoio popular e foram literalmente massacrados pelos militares. TODAS as organizações guerrilheiras (as que o senhor chama de “terroristas”) FORAM DIZIMADAS entre 71 e 75. Não sobrou NADA delas.

Centenas de “terroristas” – e muitos que nem o senhor poderia enquadrar nesta nomenclatura, porque não usaram da força contra as Forças Armadas – foram assassinados ou presos e torturados ou perseguidos ou obrigados a sair do país durante muitos anos. Entre eles, a ministra Dilma e o deputado Genoíno. Os dois em particular pagaram muito caro pela opção que escolheram ambos foram presos e torturados. Hoje, é verdade, estão no poder. Mas estão fora dele outras centenas que não sobraram para contar a história. Ou seja, creio que os opositores ao regime militar já pagaram um alto preço por suas ações. Os que não pagaram foram anistiados, junto com os militares que apoiaram o golpe de 64 e derrubaram um governo eleito democraticamente.

Já os torturadores (que não eram todos os militares e policiais civis), inclusive os de Dilma, Genoíno, andam soltos entre nós e nunca receberam qualquer punição. Isso não é justo.

Quanto aos jornalistas que receberam indenização do Estado: sou jornalista, combati o regime militar sem colocar uma arma na mão e acho que os únicos que merecem alguma indenização são os que sofreram torturas dos representantes do Estado ou os parentes dos mortos nas masmorras da ditadura.
Mais difícil que falar, foi enfrentar aquele regime de terror há 40 anos. Naqueles tempos qual era o seu lado senhor Antônio?

Atenciosamente,
Celso Marcondes

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