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Política

Rio de Janeiro

De volta de Madri, Freixo quer finalizar outra CPI

por Edgard Catoira — publicado 18/11/2011 11h32, última modificação 22/11/2011 15h23
Com o parlamentar, população do Rio espera que o Executivo tome posicionamento corajoso para extinguir as milícias
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“O governador, o secretário de Transportes, o representante da Agência Reguladora de Transportes do Rio de Janeiro , todos, nunca tiveram vergonha na cara, no que diz respeito a transporte público no Rio de Janeiro.”

O deputado estadual Marcelo Freixo, do PSOL, retomou seu trabalho parlamentar no último dia 15, na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.

Ele, por motivos de segurança, viajou para Madri, Espanha, com a família, depois de receber, por escrito, cerca de duas denúncias de ameaças de morte por semana.

Só no mês de outubro foram enviadas sete ameaças, contra 27 feitas desde de 2008, quando concluiu a CPI das Milícias presidida por ele mesmo – conseguindo indiciar 225 pessoas, entre políticos e policiais, além de pedir a investigação de mais de mil outros envolvidos.

Em entrevista telefônica a CartaCapital, Freixo confessa que o clima ficou assustador. Para ele e a família, uma vez que antes “essas ameaças nunca tinham sido tão concentradas e detalhadas”.

Ele lembra da gravidade da situação, principalmente depois de esses mesmos grupos de milicianos ameaçarem e fuzilarem a juíza Patrícia Acioli há dois meses, em Niterói.

Essas ameaças – feitas para o Disque Denúncia – dão nomes de PMs pertencentes a milícias e os endereços onde se reúnem para acertar o assassinato do deputado. Uma das denúncias, do dia 3 de outubro, dá o nome da loja, em Jacarepaguá, onde estaria “escondido o armamento que será utilizado no tal atentado, sendo entre quatro a cinco fuzis, cinqüenta munições para estas armas e uma escopeta calibre 12”.

Outra denúncia, do dia 13 de outubro, fala em 50 milicianos que se reúnem diariamente numa padaria, em Campinho, onde cobram por serviços de segurança, gás, transportes alternativos e instalação de TVs a cabo e internet, tudo clandestino, obviamente. Esses milicianos, diz o documento “estão planejando assassinar o deputado estadual Marcelo Freixo e a chefe de Polícia Civil Martha Rocha, nos próximos dias”. A denúncia passa, em seguida, modelos dos carros em que os milicianos circulam pelo bairro, suas cores e respectivas placas.

A própria Coordenadoria de Inteligência da PM do Rio encaminhou, no dia 13 de outubro, um ofício a Freixo informando o nome e a identificação de um miliciano, ex-cabo da PM, foragido, que receberia R$ 400 mil “após o término do serviço” ou, o assassinato de Freixo. Quem pagaria pelo “trabalho” seria o Erótico, também ex-PM, hoje pertencente a uma milícia da Zona Oeste”.

O documento da Inteligência da PM termina em tom sombrio: “Os supracitados já possuem algumas informações sobre a rotina do parlamentar, como seus horários e que o mesmo anda sem seus seguranças”.

Para se ter uma ideia do poder financeiro das milícias, existe um dado exemplar, publicado no relatório da CPI das Milícias, em 2008: só no bairro de Rio das Pedras, no item “transporte alternativo (vans) a milícia local levantava R$ 170 mil por dia.

O deputado disse que, diante do clima de tensão criado aceitou o amparo oferecido pela Anistia Internacional, por motivos de segurança – sua e de sua família – e em busca do equilíbrio emocional que estava precisando. Foi assim que, no dia 1 de novembro, mesmo dia em que recebia mais uma denúncia de conspiração contra sua vida, viajou para Madri, onde ficou, por 15 dias, num apart hotel no bairro Prosperidad.

Como resultado, ele recebeu um carro com maior blindagem e teve sua escolta reforçada. Mas acha que ter viajado também valeu para que mais gente tome conhecimento de que um parlamentar do Rio está ameaçado de morte por grupos de milicianos que ele denuncia. E que o Poder Público, apesar da vasta quantidade de informações pormenorizadas, não fez qualquer investigação ou apreensão das pessoas envolvidas na trama de seu “assassinato”.

Por ser também um pré-candidato à Prefeitura do Rio, nome forte para levar as eleições ao segundo turno, contra o atual prefeito, Eduardo Paes, o deputado Freixo foi acusado de ter viajado com fins eleitoreiros. Ele lembra que, antes de tudo, “só quem já foi ameaçado tão claramente pode ter ideia do terror que viveu nos últimos meses, principalmente depois da morte da juíza”.

Sobre o uso político de sua viagem, ele conta que tudo começou quando o JB on line deu uma matéria levantando essa hipótese. Ligou para a redação, mostrando o absurdo da reportagem e o JB, com pedidos de desculpas, tirou o material do ar. No dia seguinte, porém, O Globo repercutiu a matéria do JB. Mesmo depois de ter sido esclarecida a verdadeira razão de sua saída, o jornal só se comprometeu a desmentir-se através de uma nota de Freixo. O deputado se nega a mandar essa nota que validaria a matéria dada anteriormente pelo jornal. Assim, O Globo não esclareceu o equívoco de informação.

A polêmica levantada só foi aclarada através de um coordenador da Anistia Internacional, Tim Cahill, que, a contragosto, teve que quebrar a rotina de discrição e falar com Ricardo Boechat, na Band FM. Ele confirmou que Freixo viajou a convite da Anistia Internacional, também preocupada com o crescimento das milícias e querendo evitar que algo pior acontecesse ao parlamentar.

Agora, Marcelo Freixo, enquanto aguarda alguma atuação efetiva do governo estadual, volta ao trabalho para finalizar outra CPI, a do tráfico de armas, munições e explosivos no Rio de Janeiro.

Com o parlamentar, a população do Rio espera que o Executivo investigue e tome um posicionamento corajoso não só contra esses milicianos que mataram a juíza e querem matá-lo. Como foi feito contra o tráfico de drogas no Rio, também as milícias têm que ser extintas. Ou, como dizia o folheto do movimento de solidariedade a Freixo: “Não basta prender milicianos. Tem que acabar com o seu poder territorial e econômico”.

 

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