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Cunha: crônica de uma tragédia anunciada

por Jean Wyllys publicado 07/07/2016 18h02
A renúncia é uma manobra para tentar salvar o mandato. Iremos até o fim pela cassação. Cunha é uma vergonha e um obstáculo para a democracia
José Cruz/Agência Brasil
Eduardo Cunha

No Congresso, todos sempre souberam quem era Eduardo Cunha

Quando o nome de Eduardo Cunha não aparecia na imprensa e ainda não era conhecido pela maioria dos brasileiros (porque ele agia nas sombras, como operador das bancadas reacionárias e lobista das corporações econômicas), eu adverti, nas redes e nas minhas colunas na CartaCapital, que ele era um reacionário, um corrupto e um perigo para a democracia.

Quem acompanha meu mandato há alguns anos lembra disso. Quando ele se candidatou para a presidência da Câmara, eu disse que, se ele não obtivesse a vitória no primeiro turno, eu votaria em qualquer candidato que pudesse vencê-lo no segundo, porque ninguém poderia ser pior que Cunha.

Eu não adivinhei nada. No Congresso Nacional, todos sabiam quem era Eduardo Cunha. Ele chegou ao poder com PC Farias, durante o governo Collor, e já naquela época acabou envolvido num escândalo.

Depois, dirigiu a Telerj com o governador Garotinho e se envolveu em outro escândalo. Desde que se elegeu deputado pela primeira vez, atuou como intermediário das empresas financiadoras de campanhas eleitorais, e foi assim que ele foi construindo uma base de apoio suprapartidária, formada por deputados de diversas bancadas que ele ajudou a eleger.

Era o articulador das bancadas reacionárias, principalmente da evangélica, e foi o principal operador da eleição de Marco Feliciano para a presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias em 2013. Reunia os votos dessas bancadas com os do "baixo clero" da Casa e assim negociava e chantageava o governo e a oposição de direita.

Quando começou a investigação da Operação Lava Jato, todos aqui em Brasília sabiam que o nome dele não demoraria para aparecer. Quando alguma lei que beneficiava empreiteiras, bancos, planos de saúde e outros grupos empresariais estava em pauta, a mão invisível de Eduardo Cunha sempre estava presente, ao mesmo tempo que estava por trás da indicação de funcionários em diversos órgãos que atuavam como operadores de todo tipo de negócios. O povo não conhecia o nome de Cunha, mas nós em Brasília conhecíamos.

E eu avisei a vocês. Sempre conto tudo a vocês, porque isso também faz parte da minha responsabilidade.

Desde que ele chegou ao cargo, nós do PSOL o enfrentamos sem trégua, inicialmente sozinhos, depois junto a outras bancadas; e fomos nós que pedimos a cassação do mandato dele no Conselho de Ética, junto com a REDE.

Lutamos contra a agenda reacionária, fundamentalista e fascista de Cunha e denunciamos seu envolvimento em esquemas de corrupção e as manobras antidemocráticas e ilegais que ele fazia na presidência. Várias vezes recorremos ao STF para tentar frear seus malfeitos.

Hoje, depois de ter o exercício do mandato suspenso por decisão do Supremo e a cassação aprovada pelo Conselho de Ética (pela denúncia do PSOL e a REDE), Cunha anunciou que renunciava à presidência da Casa. Fez isso porque está encurralado e achou que era a única maneira de tentar negociar com o governo golpista que ajudou a chegar ao poder (ele foi o cérebro do golpe), para conservar, pelo menos, seu mandato de deputado e seu fórum privilegiado.

Sabe que se perder o mandato acabará preso. Está desesperado e jogando as últimas cartas. O objetivo da renúncia é conservar o mandato, eleger alguém indicado por ele para o cargo, impedir que seja pautado o impeachment de Temer e sair impune de tudo isso. Foi o que ele acordou com o governo golpista!

Como sempre, fez um show histriônico na coletiva, com apelações à religião e batendo no peito. Disse que "livrou o país da corrupção", mas todos sabem que ele é (como o definiu o procurador-geral da República, Rodrigo Janot) um delinquente. Apelou a bênçãos e orações com a mesma hipocrisia com a que usou o nome de Jesus para criar empresas offshore.

O fim do golpista está próximo, mas não vamos dar mole e nem ficar tranquilos. Essa renúncia é uma manobra para tentar salvar o mandato. Iremos até o fim para conseguir a cassação. Cunha é uma vergonha para o parlamento e um obstáculo para a democracia.