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Política

Ciro Gomes

Crise no Congresso 'era sofrimento anunciado'

por Gabriel Bonis publicado 02/04/2012 19h13, última modificação 03/04/2012 12h37
Novo colunista do site de CartaCapital, o ex-ministro acredita que a crise entre Dilma e sua base aliada ainda não alcançou seu pior momento
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Foto: Roosewelt Pinheiro/ABr

A rebelião de parte dos partidos da base aliada contra o Planalto e a presidenta Dilma Rousseff era a “crônica de um sofrimento anunciado”, devido à configuração das alianças realizadas pelo PT na eleição presidencial de 2010. "A Dilma é uma pessoa decente, tem espírito público e certa intransigência – que considero necessária – em relação a essas práticas deformadas da vida brasileira. Então, estava marcado o conflito”, afirma Ciro Gomes, ex-ministro da Integração Nacional do governo Luiz Inácio Lula da Silva e ex-governador do Ceará, em entrevista a CartaCapital. 

Há muito tempo com vontade de ter um espaço para refletir sobre o Brasil, como explica, Gomes estreia nesta semana uma coluna semanal no site de CartaCapital, na qual pretende discutir as bases de um projeto nacional de desenvolvimento, a começar com um diagnóstico da situação estrutural do País. “A CartaCapital tem se revelado talvez a única revista de circulação nacional com independência e pluralismo.”

Sobre a tensão atual no Congresso, Gomes diz, no entanto, compreender que a ampla "fratura da representação brasileira” exige a composição de alianças para conquistar a governabilidade. Mas o desalinhamento da base aliada foi criado quando o PT seguiu "assustado com o escândalo do mensalão o caminho do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, e aceitou uma aliança com base em fisiologia e patrimonialismo.”

Segundo o novo colunista de CartaCapital, as turbulências enfrentadas por Dilma, como a votação da Lei Geral da Copa na Câmara somente após a garantia da apreciação do Código Florestal pelos deputados em abril, são apenas um teste para avaliar sua reação ao "verdadeiro avanço, que virá ao final de 2012”.

“Aí sim, a crise é provável, porque a economia brasileira está jogando de lado. Devemos crescer cerca de 2,5% pelo segundo ano consecutivo e isso gera consequências no mercado de trabalho, no espaço para os salários e etc.”

Neste cenário, Gomes acredita que as eleições municipais devem acentuar ainda mais os conflitos em Brasília, pois pressionam as "fraturas" ao limite extremo. “O PT tem uma goela de um tamanho que vai incomodar ainda mais um conjunto importante de aliados. A vingança, provavelmente, será potencializada nesta crise [do final de 2012].”

Para o ex-ministro, a intenção do PMDB em eleger os presidentes da Câmara e Senado, "baseado na palavra irresponsável do PT", também deve gerar problemas. "Se [o PT] não cumprir a palavra, temos um tipo de crise. Se cumprir, temos outro ainda mais grave.”

Por isso, Ciro Gomes se diz preocupado com o "conjunto frágil de operadores”, sob o ponto de vista de experiência, metodologias e conhecimento do terreno do qual Dilma dispõe. “De um lado, há uma situação complexa e de outro uma presidenta com uma correta atitude, porém desarmada da ferramentaria e da mão-de-obra necessárias para prevenir e enfrentar essa crise com chance de êxito.”

Coluna no portal  

Em seu espaço semanal no site de CartaCapital, o ex-ministro pretende abordar a tese de que as civilizações de sucesso, por trás de sua grande variedade institucional e diferenças culturais, têm um traço em comum que o Brasil poderia seguir: o alto nível de investimento doméstico, uma coordenação estratégica entre governo, empresariado e academia e o investimento em gente.

Gomes cita o exemplo do experimento sul-coreano, no qual o país passou a investir em educação e qualificação de seus cidadãos nos últimos 40 anos. “Naquela época, o país asiático estava menos avançado que o Brasil em matéria industrial, científica, patentes e registros de trabalhos científicos. Hoje, a Coreia do Sul dá dois ou três Brasis neste sentido. Possui marcas globais de eletroeletrônicos e automóveis e o Brasil não tem nenhuma.”

O ex-ministro também critica a política brasileira de poupança interna para investimentos futuros. A China, lembra o colunista, aplica o equivalente a 50% de seu PIB para este fim, e o Brasil fica entre 16% e 19% desde o governo FHC. “Seria como se o chinês consumisse 46% do que produz e guardasse 54% para desenvolvimentos futuros. No Brasil, comemos 81% e guardamos 19%.”

“A poupança doméstica para o investimento não é uma obra fatalista do acaso, é consequência de arranjos institucionais que a política faz ou deixa de fazer. É o modo como se organiza o sistema tributário, previdência e mercado de capitais e isso no Brasil está tudo para ser feito”, completa.

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